A Garganta da Serpente

Heloisa Galvez

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Nascida Verme

Nascida verme plantei-me no lombo da vaca
Buraquei-me e cresci, cresci...
Moscas...
A cortejar-me
Moscas como companhia
Moscas, noite dia.
E a vaca me alimentando
Sangue, sangue.
Ninguém me viu
Até que engoli a vaca
Cruzei com o touro
Pari um ser torto
Semimorto
Que comi.
Nascida verme,
Avermelhei
O pasto e montes
Fiz rubro o horizonte
E morri no heróico laço
Do chefe do cangaço
Sou lenda na fazenda
Na cidade, mundo afora.
Nascida verme
Avermelhei o milharal
Os campos, cafezais.
Fiz de mim, ser imortal...
Berne, verme,

Feio?
Verme?
Nojo?

Só quem já nasceu verme,
Pode sentir,
Ah humanos!
Pobres...

Explicam dos seres a vadia existência
Sem viver a experiência
Sem jamais sentir o cerne
De um ser nascido verme...


(Heloisa Galvez)


voltar última atualização: 26/10/2010
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