A Garganta da Serpente

Artur da Távola

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POEMA PARA A PALAVRA COISA

Alma penada da significação
a vagar polissêmica e quasímoda,
palavra de entranhas profanadas
por estupradores do sentido destinado.

Coisa sócia.

Santa de calão vulgar
seu quase nada, tudo determina.
Pelo gosto torpe de deteriorar
a chula e linda palavra seminal.

Ciosa sócia.

Prostituta de zeugmas e metáforas
estupor de metonímias transtornadas
seus depravados semantemas
excrementam e perfumam a farsa verbal.

Súcia coisa.

Samaritana da imprecisão significante;
fácil, leve locução, louçã, estupenda,
coisa é bem aventurada
irmã do verossímil, vilã da precisão.

Sócia sacio.

Coisa esquina, bar e povão
disforme verdade do signo
ônibus da livre fala da farra
abençoada irmã do sutil.

Sacio coisa.

Dama impudica de hímen complacente
deusa vernacular a profanar jargões
prazer sem orgasmo de falar sem dizer
ersatz, muleta, samaritana do ignorar.
Ciosa: só cio.

Ócio e cio sócios: coisa.
Sacio o ócio, associo.
Sócio é só cio.

Ciosa, a coisa sócia.
Sacio a coisa ociosa.
Nela o idioma morre para renascer
na facécia do falar falaz.


(Artur da Távola)


voltar última atualização: 02/09/2010
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