A Garganta da Serpente

Adriano Coutinho

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entre plumas e ventos

um ar nostálgico brada as cores do mundo,
um vértice encontra a amplitude da presença mundana.
o vão se faz.
as flores morrem dentro da lânguida luz silenciosa do meu olho.
eu escuto o vazio.
não sou alma,
se quer pedra,
se quer aljôfar que cingi a vida.
entre plumas e ventos
a garrida tempestade de medos.
alforrio o meu âmago de mim,
agrido os passos que percorrem a longa estrada do nada.
veredas se fazem sinuosas, obliquas, surdas, áridas. inóspitas de mim;
inóspito de mim também sigo
entre plumas e ventos
que se fazem dedos do som.
entre plumas e ventos
pássaros andarilham pelo vácuo sórdido das dores
e as flores morrem dentro da espessa sombra galgada de luz,
luz que afoga a sombra com a existência
e um tempo se faz
entre plumas e ventos.
entre plumas e ventos
sussurro ao sol,
mas o sol queima, brilha, cega, se distância...
o sol é altivo
e faz de minha voz a voz do nada e se faz surdo de mim.
entre plumas e ventos
as nuvens se sobejam de coragem a cantam minha derrota
e as flores morrem dentro do mar de espinhos agudos de minha alma inda calma e calada.
uns vastos oceanos de estrelas rumam para o templo eterno do tempo
e dois tempos se fazem
entre plumas e ventos
que se fazem mestres do sussurro.
entre plumas e ventos
a calmaria se faz no mar
e na terra há tempestades que travam embates pelo andar na vida.
sou ilha dentro de uma tsunami de perdas e fraquezas.
sou ilha
e as flores morrem dentro do mar de lamúrias.
uma luz frágil se faz presente no ventre da sombra,
sombra que sucumbe sem tempo.
o peito arrefece de realidade
e três tempos se fazem
entre plumas e ventos.
entre plumas e ventos
o agudo passar das formigas que marcham anuviadas,
o vôo cego dos zangões para o antro da rainha.
sucumbem dentro do prazer repleto de falácias.
os beija-flores dentro de suas buscas infindas pelo néctar.
a existência muda, surda, cega
e as flores morrem dentro de um vácuo grave e doce,
que se não fosse vácuo seria mais que os meus olhos mostram que sou.
os ventos se mostram entre plumas
e quatro tempos se fazem.
entre plumas e ventos
os passos percorrem os limites das trilhas sinuosas.
as tartarugas dentro de suas constâncias intrigantes e penosas.
a vontade de ser ar, alada, fugaz
talvez ser somente passos rápidos.
as brisas derrubam a frágil exigência de vida
e as flores morrem entre plumas e ventos.
entre plumas e ventos morre a luz lânguida de meus olhos,
entre plumas e ventos morre o mar de lamúrias,
entre plumas e ventos morre o mar de agudos espinhos de minha alma calada,
entre plumas e ventos morre o vácuo grave e doce,
entre plumas e ventos morre a espessa sombra grávida de luz,
e a luz nasce.


(Adriano Coutinho)


voltar última atualização: 23/04/2004
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