A Garganta da Serpente
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Virgem Morta (O Baile dos Olhos Cruzados)

(Victor Menegatti)

"Ainda vou achar alguém que me ame! Disso eu tenho certeza!"

É, era isso que me fazia encarar o futuro. Para dizer a verdade, o futuro era apresentado para mim em grandes letras vermelhas com data e felicidade marcada: "Baile de fim de ano de Ivanhópolis, apenas para sócios do clube".

Um fato que eu poderia facilmente acrescentar, era que eu não era sócio do tal clube; meu pai ficou matriculado para enganar meu avô e poder sair escondido com minha mãe.

No dia do baile decidi ir e presenciá-lo. Chegando lá percebi que tinham, no máximo, noventa pessoas dispostas em mesas de banquete. Fui o convidado número noventa e sete, sentei-me na mesa dez, cadeira nove... "Azar! Maldito azar!", pensei eu, a pessoa que estava na minha frente era apenas o amor da minha vida! Alma que sempre achei, mas nunca conheci, pura e sincera!

Começou o banquete...

Entre alguns pratos e pedaços de carne (claro! Nada mais romântico que conversar com a mulher mais atraente do mundo e cuspir uma vaca remoída da sua boca!) houve troca de olhares; ela percebeu que eu gostava dela! Mas não se importou... Continuou falando com um homem que se apresentava da maneira mais elegante possível. Logo o baile iria começar e fui tomado por uma angústia recessiva, algo como os velhos padrões clássicos do romantismo, uma vontade subitânea de sumir dali o mais breve possível.

Fui tomar ar no pátio central...

Não seria óbvio demais falar como gostei dali? Bem... Eu tinha adorado aquele lugar! Era uma das poucas coisas que realmente tinham valido a pena naquela noite, pois além de poder ver minha paixão, minha alma pura e virginal, dançando e roçando com prazer as suas partes mais íntimas com aquele homem, também pude ficar me martirizando e mordendo meu dedo com extremos de força.

-Oi! -veio uma menina aparentando catorze anos, correndo estranhamente.

-Oi... -respondi num tom reservado.

-O quê olha? -perguntou aquela jovem com grandes olhos negros brilhantes.

-O quê?! Nada, não olho nada... -respondi, um pouco envergonhado.

-Está olhando para minha irmã?

-O quê?! Ela é sua irmã? Ah! Desculpa! -respondi, tentando esconder minha cara desavergonhada e se fazer de desentendido.

-Sim, ela é minha irmã... Quer que eu a chame?

-Não! Eu nem a conheço!

-Eu te apresento...

-Não! Deixa para lá!

-Ora, vamos! Não seja idiota... -disse a garota num ar doce e juvenil. É claro que... É, eu tenho que admitir, tenho o pavio meio curto e quando ela me chamou de idiota não consegui me segurar e dei um soco bem no meio da testa dela! Bang! O impacto do soco foi tão forte que ela caiu no chão convulsa e com os olhos revirados... "Estava morta", pensei eu. Não sabia o quê fazer e então surgira a salvação; havia uma pinhata de considerável tamanho e estava vazia!

Para quem não sabe, a definição de pinhatas está longe de nossa vã existência. As pinhatas são, na verdade, potes em formas de bichinhos cheios de doces e que, no final, são tragicamente estourados quando içados ao vento. O ápice da vida de uma pinhata é o levante ao vento, lá do alto pode sentir o vento nos cabelos antes de ver que seu fim está próximo, que será quando for estourada por crianças cheias de gengivite e cáries na boca. São naturais do México e levam uma boa vida lá, regada a sol e maresia.

Mas bem, aonde estava? Ah, sim!

Arrastei a menina para dentro da pinhata e a deixei lá, um homem aproximou-se depois de um certo tempo:

-Ei!

-Que foi?! Sim, fui eu! Eu desisto, sou culpado! -respondi, quase assumindo a culpa.

-Ah! Que bom que você já encheu a pinhata! Nossa! Esta é a pinhata mais pesada que já peguei! E aí (disse o homem virando-se para mim) vai pegar muitos doces? Hein, campeão?

-Ah, claro que vou, adoro pé-de-moleca! -e então, sem me dar conta, fiz uma das máximas do humor negro naquela noite, sem querer! Claro que não pude deixar de rir religiosamente da minha estranha façanha. O homem, provavelmente alcoolizado, também riu...

O baile estava quase acabando e o momento da pinhata estava chegando...

A música parou e então as crianças pegaram seus tacos com pontas de pregos, todo mundo aplaudiu. A pinhata, com muito esforço, foi colocada em um gancho e pendurada no alto. Um dos homens gritou algo indecifrável e então as crianças quase começaram a bater. Eu disse quase?

Bem, é que uma das crianças era vesga e não sabia mirar direito, naquele espetáculo de cores (que só ela presenciou), confundiu as crianças com a pinhata e... O quê dizer? O taco ficou cravado no crânio de uma das crianças, o bom é que ela não chorou. É, bem, mas também não sobreviveu: a criança vesga bateu tão forte na outra que a cabeça da pobrezinha bateu no chão e abriu-se em sangue e vômitos.

Na verdade, a criança vesga não devia ter pegado o taco, pois ela... É, ela faria mal para as outras (lembrando que as outras ainda estavam vendadas). Fiquei ali; não sabia se ria de ter saído impune ou se... Ou se ria também com aquela cena! Mas o melhor veio depois! A pinhata se partiu em duas e as crianças, achando que já podiam começar a bater na pinhata com todos aqueles gritos histéricos, acertaram a menina com a testa inchada! Nem ligaram para a outra criança que jazia ali, com o crânio aberto.

Depois de algum tempo a paixão da minha vida notou que era sua irmã ali morta, isso foi depois, é claro, da "testuda" ter sido furada por pregos e sua roupa estraçalhada, deixando apenas a imagem de uma menina nua, completamente mutilada.

Após todos os vômitos, sangues, tripas e choros, ajudei a recolherem o corpo da menina e adivinhem só? Acompanhei a irmã da "testudinha" ao enterro e alguns meses depois nos casamos, herdei todos os bens dos pais dela (algo como uma indústria de pinhatas). No nosso aniversário de casamento abri uma das champanhas mais caras que era somente destinada a formatura da falecida garota... Ia acabar estragando e não podemos deixar isso acontecer, não é mesmo?

Tudo isso só foi para dizer que algum dia iria achar alguém que me amasse e não achei?

Será que aquela menina era virgem? E se, na verdade, ela fosse um homem? Com certeza você ficaria menos preocupado!

Um beijo e continuem espalhando a paz!

(16/12/2004)

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