A Garganta da Serpente
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Fragmento de uma vida possível

(Rodrigo Emanoel Fernandes)

...era uma pessoa querida, mas não sexualmente... nesse aspecto chamava pouca atenção e tentava acreditar que era feliz assim. Poucos namorados, um certo número de trepadas nem sempre satisfatórias. Era bonita... na verdade linda, mesmo que de uma maneira velada, quase autodepreciativa. Mas beleza não é suficiente, algo faltava para atrair o desejo, os olhares... algo não emanava. Ela odiava a solidão, queria companhia, queria mesclar-se, tornar-se parte de outra pessoa. Queria, obviamente, o que todos querem, mas não sabia como procurar. Sua fome, sua carência, repeliam mais do que atraiam. Era sincera demais... e falsa demais. Admitia as emoções... mas dissimulava a carne... a necessidade que, acreditava, conseguia satisfazer com masturbações solitárias. Buscava o amor de forma excessivamente direta.

Não estava acostumada a ser notada, a despertar o interesse de quem quer que seja. Houve momentos em sua vida que ansiou violentamente pelas atenções dos homens, ou mesmo das mulheres, mas o tempo se encarregou de atrofiar aquela esperança ingênua que, não satisfeita, estimulava apenas dor. A necessidade submergiu, paulatinamente, para as esferas inconscientes, para as coxias do teatro do dia a dia que encenava, e ela encontrava em outras formas de prazer a satisfação que carecia. O prazer intelectual, as revelações de uma mente atenta as minúcias da aparência de realidade que a cercava. Vivia para seus livros, seus filmes, suas peças, sua música, vivia para os detalhes, para a satisfação voyerística que alimentava indiretamente a fome interior que permanecia intocada. Nos cafés, nos bares alternativos, nas brechas da realidade dos trabalhos e estudos cotidianos ela entrevia uma realidade insuspeitada, um universo de minúcias que revelavam verdades tão mais fascinantes sobre aquele burburinho incessante formado por tantas pessoas, tantas vidas se cruzando. Ela se sentia à deriva desse mar que os outros não notavam, ao menos não diretamente, e na impossibilidade de meramente submergir em suas águas, ela encontrava alguma satisfação em navegar através delas.

Entretanto, nas inevitáveis madrugadas em que o silêncio e a insônia dificultam as distrações e uma brutal clareza parece insinuar-se através das frestas do pensamento, quando dedos habilidosos tentam apaziguar o fogo oculto que insiste em emanar, úmido e radiante, zombando das engenhosas certezas e justificativas, ela imaginava se todo aquele rico universo que a compunha - causa e consequência de sua solidão - jamais seria compartilhado e tudo o que ela descobrira naquele insuspeitado oceano desapareceria em outras profundezas, ainda mais veladas...

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