A Garganta da Serpente
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Reptilia

(Tia Caroleta)

A cama estava confortavelmente lhe esperando. Fechou os livros em cima da escrivaninha, apagou a luminária de mesa e foi-se deitar. Amanhã continuaria os estudos.

Pegou um cobertor no guarda roupa, jogou o travesseiro de qualquer jeito na cama, apagou a luz e deitou-se. Sentia aquela sensação gostosa ao se deitar, quando estamos com a coluna cansada demais. Estava frio. Cobriu-se até a altura do queixo com o cobertor. O despertador apitava meia noite. E a escuridão rodava e rodava diante de seus olhos que aos poucos se fechavam.

Acordou assustado. Tinha ouvido um barulho dentro do quarto. Um estalo, um ruído diferente, meio áspero. Os olhos arregalaram-se em alerta. A respiração era a menor possível. Silencio. Maldito gato que andava pela laje. Parecia estar ao seu lado, o infeliz.

Virou-se ainda tremulo para o lado, puxando o cobertor na linha dos olhos.

Começava a adormecer quando sentiu algo que o puxava pelo calcanhar, algo frio e gosmento. Pulou assustado, o coração acelerado, saindo pela boca. Correu desesperado até o interruptor e pressionou-o com as mãos trêmulas.

Os olhos, acostumados à escuridão, doeram quando a luz acendeu e a visão ficou ofuscada por um momento tornando-se limpa em poucos segundos. Estava ali, saindo de baixo de sua cama, algo qual jamais vira em toda sua vida. Horrenda.

Era extremamente articulado, o que permitia movimentos desconfortáveis ao olhar, lembrando as famosas cenas de pessoas possuídas em filmes de terror. Era uma pele verde e escamada, extremamente brilhante e úmida. As mãos eram longas e esguias, terminadas em unhas amareladas e perigosamente pontiagudas. Agora que reparara, seu calcanhar sangrava. Os olhos eram um globo amarelo e uniforme. A cabeça era uma esfera perfeita e a boca uma fenda. Apesar das características reptilianas, possuía o corpo de um humano. Pelo menos até onde se podia ver já que usava uma espécie de saia que arrastava o chão. Possuía também o quadril adornado com uma espécie de cinto de ouro cravejado em Jades.

Abriu a porta e correu para o corredor.

- MÃÃÃÃÃÃÃE! PAAAAAAAAAAAAI!-gritou aos prantos. No fundo, bem no fundo, sabia que mesmo estando ao lado do quarto dos pais eles não o ouviriam. Simplesmente não podiam.

A criatura aproximou-se asqueirosamente. O medo o paralisou. Era o fim. Correr pra que? Correr pra onde? Ninguém podia ajudá-lo.

Aquele globo amarelo faiscou agourosamente. Parecia até mesmo tornar-se mais âmbar.

A respiração fazia um ruído raspado. O hálito não tinha cheiro algum.

A mão esquerda do ser foi certeira ao pescoço do garoto. Ergueu-o acima de sal cabeça, mas, sem asfixiá-lo.

O menino por sua vez, debatia-se desesperado. Tentava chutar, mas, não alcançava. Tentava cravar as unhas na mão do ser e também não conseguia.

Logo a mão direita vinha para si. O dedo indicador apontado, aquela unha (ah, aquela unha) tão afiada quanto uma guilhotina.

Não houve dor. A unha descreveu uma linha em seu pescoço. O sangue jorrou pelo pijama tingindo-o. Sentia-o escorrendo quente pelo peito, espesso.

O mundo começava a rodar a sua volta. O ser mantinha-se impassível. Não havia dor. Somente desespero.

O corpo tornava-se frio... A pele perdia a sensibilidade... Sentiu que fora solto. No chão, passou seus últimos segundos olhando para o a criatura. Mantinha-se inexpressiva, mas, conseguia sentir o prazer emanando através de sua pele ofídica.

Quando o relógio despertou às 7 horas da manhã ninguém o desligou. O menino dormia seu sono eterno, aconchegantemente coberto. O rosto antes corado agora se fundia ao lençol branco. Em sua mão inerte, uma grande e ovalada jade desafiava a gravidade, permanecendo muito mal apoiada por entre seus dedos mortos...

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