A Garganta da Serpente
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Olhos Negros

(Sandra Lúcia Santos Akiyama)

Vinha caminhando pela rua, ao ser atingida por algo, um raio, um relâmpago, tudo se passando tão depressa, apenas aquela dor lancinante e a escuridão. Após um breve lapso temporal (ao menos assim lhe pareceu) reparou que se encontrava completamente nua, no que parecia ser um quarto, posto que ela estava deitada sobre uma cama, lençóis brancos, paredes idem, nada de travesseiro e, o pior, nenhuma janela ou porta ou buraco ou sinal de vida. Só aquela dor de cabeça, persistente, como se tivesse sido aguilhoada na sua parte mais alta, o que a impedia até de raciocinar com clareza. Afinal, que situação mais estranha! Seu primeiro lampejo de movimento, ao tentar sentar-se, fez com que tudo girasse e a negrura tomasse conta de seus olhos novamente. Conseguiu tocar o cimo da cabeça e sentiu a umidade, provavelmente sangue, o que logo constatou ser verdadeiro, suas mãos estavam manchadas de vermelho, um vermelho dolorido e ressecado. Há quanto tempo estaria ali? O que estava acontecendo? Sentia-se observada, mas como poderia ser, se não se via uma fresta, uma abertura, só aquele silêncio sepulcral, estaria morta? Enterraram-na e a sensação da eternidade era um lugar iluminado e frio como aquele? Não, não podia ser.

Reparou então atordoada que seus cabelos, seus lindos e loiros cachos, tão admirados em outros tempos, tempos normais, caíam em profusão, até seus pelos pubianos estavam igualmente em queda, e tudo tão rápido, já não possuía cílios nem sobrancelhas!

Agora uma sensação de choque e novamente a obscuridade total.

Abriu os olhos. À sua frente um espelho, onde antes só a parede branca e gelada. Pôde então ver a extensão de seu problema, martírio, doença ou o que fosse de terrível que lhe estava acontecendo.

Seus olhos, imensos e azuis, perdidos naquele rosto que se tornara enorme, alvo como todo o resto no quarto, sua pele, sua boca, outrora carnuda e rosada, seu corpo todo se unindo à brancura da cama que não mais existia, nem paredes, nem quarto, haviam se tornado um nada claro e ofuscante, teve então que fechar o que lhe sobrara intacto, seus olhos.

Ao abri-los novamente, pôde notar que não estava mais só, havia outros, dezenas, centenas, milhares de olhos e todos expressavam angústia e desespero, perdidos naquele oceano do vazio. Compreendeu então que seu destino seria vagar como aqueles outros, implorando misericórdia, sem saber qual fora o seu erro, o que teria feito para merecer um castigo assim tão perverso e sem sentido. Isso duraria para sempre? A morte então não era o fim? Ou aquilo não era a morte? Talvez nem isso existisse. A esta altura, o que poderia compreender, será que ainda tinha cérebro? Sua alma estaria ali?

Lágrimas escorriam daqueles olhos intermináveis e nem podia mais saber se dos dela também, já não tinha um rosto nem outros sentidos além da visão e os pensamentos giravam, e martelavam e voltavam sempre ao mesmo ponto: Por quê? Por quê? Ainda lembrava que tivera uma vida boa, feliz na maior parte do tempo, não fizera o mal a nenhuma criatura, qual foi o lapso então? Queria gritar, pedir ajuda, mas não havia boca para se expressar, apenas olhares aflitos e perdidos como o seu.

Mas alguma coisa estava acontecendo. A luz que ofuscava já não era tão intensa, quase que imperceptivelmente havia diminuído e também os olhos foram fechando-se lentamente, e o que restou foi uma escuridão triste, úmida e permanente. Agora não havia mais sofrimento, nem pensamentos. Há quantos séculos acontecera? O que ficou foi esse espaço negro entre multidões apressadas e cheias de vida, pulsantes e quentes, presas numa redoma da qual sequer desconfiavam da existência e sobre elas uma chuvinha, quase garoa, que não incomodava aqueles rostos felizes, pois era véspera da grande festa e todos tinham muito que fazer para sequer pensar sobre o que mudara, e se fora real.

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