A Garganta da Serpente
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A menina da janela

(Sávio Damato)

Todas as tardes quando eu passava por aquela janela, ela estava lá. Linda, risonha, com seus cabelos dourados emoldurando a mais bela escultura em forma de menina. Melissa, esse era seu nome. Melissa nunca saia de casa, via o mundo passar por aquela janela e o mundo passava e a via na janela. Não era possível não notar seu sorriso, seu olhar cristalino mirando o céu. Melissa era daqueles anjos raros que pousam na terra para espantar o negrume da tristeza dos corações. E para isso bastava sorrir. Seu sorriso iluminava.

Quando me mudei para ali, não conhecia ninguém. Minha casa ficava perto da dela, há apenas duas praças. Na praça em que ela morava havia um belo jardim, talvez cultivado pela menina, pensava eu sempre que passava por lá. Eu era um homem sozinho, de meia idade, que muito vivi e sofri pelos caminhos tortos que a vida me preparou. No meu rosto já não havia a meigura, nem a doce figura dos sonhos que sonhei quando ainda jovem. Em mim havia um homem, rude às vezes, e mais nada. O meu mundo sem sol se enchia de cor quando voltando, ou vindo para casa, via aquele rosto de luz.

Apaixonei-me. Estar ao seu lado era tudo que podia querer. Uma vida simples era tudo que podia oferecer. Mas a menina era pobre, não iria se importar. Com o coração cheio de sonhos e novas esperanças, esperei e preparei o dia em que iria me achegar até sua casa. Certamente ela deveria ter um pai severo, uma mãe correta e quem sabe um irmão para espantar os pretendentes. Era preciso preparo, roupa nova, fala elegante e um bom presente para encantar a moça. Afinal, na certa, já houve outros pretendentes. E se tiveram outros esses não a conseguiram levar, pois que ainda estava ali esperando por mim.

Aprontei-me e aprumei o peito. Vesti a melhor roupa, comprada a prestação na loja da cidade, e fui ansioso a casa daquela menina. Bati, uma mulher com olhar severo veio atender. Sua mãe, imaginei. Não era. Era uma tia, que cuidava da menina. Perguntei se o pai estava. E não estava, havia morrido há anos. A menina era órfã. Estremeci de susto, mas continuei. Aquilo não podia ser um obstáculo. O que mais uma órfã precisaria que um bom marido que lhe cuidasse?

Convidado a entrar, fui esperar na sala vizinha ao quarto.

- Vou chamar a menina. - Disse a tia de voz amarga, pigarreando sem parar.

Meu coração disparara. Finalmente conheceria meu grande amor. Quanto tempo esperei, quanto confabulei imaginando este momento. Mas o momento era único, impossível de imaginar. Busquei reparar bem todos os detalhes, guardar todos os sentimentos. Um dia, quando já velhos e, eu e ela, nos reuníssemos na sala com os netos, contaria todos os detalhes daquele momento que precederia a felicidade de toda nossa vida.

Um ruído estranho fez-se ouvir vindo pelo corredor, na certa do quarto da menina. É a velha, imaginei. Pus-me de pé. Não queria perder nenhum detalhe de sua entrada. O som crescia e meu coração disparava, já quase saltando, não cabia no peito.

Primeiro vai entrar a velha, eu pensava. Mas não... O que é aquilo? Uma cadeira?

Sm, era uma cadeira. A menina, arrastada pela tia, vinha nela. Era linda como a da janela. Só um detalhe, lhe faltava as duas pernas.

De susto estremeci e quase cai. Meu sonho desmoronou, aportou na noite triste da realidade. E a grade pergunta surgiu: Namoraria a menina sem pernas emoldurada pela janela?

Constrangedoras foram as palavras ditas naquela hora. Realmente havia tido outros, muitos outros pretendentes. Mas como eu, todos se foram, encabulamos, assustados e sem entender que a menina ainda assim era feliz. Tolos somos nós os idealizadores do amor. Ela vivia e amava, sem idealizar nada. Olhava o céu, via as nuvens, as estrelas, e aprendia com elas. Do mais alto sorvia o amor que precisava para viver. E dali, de sua janela, irradiava luz para as flores do jardim. E elas correspondiam, cresciam, floresciam, enchiam de perfume o quarto da menina órfã, sem pernas, que eu não soube amar, e jamais esqueci.

Hoje, não tenho netos. Pergunto-me se não estariam ali, naquela janela, esperando por mim. Pergunto-me se ali, na praça daquela cidade, eu não deixara para sempre, emoldurada pela janela, o rosto da minha felicidade. Idealizei e não vivi. E continuei idealizando a vida toda, acumulando desilusões. Tudo isso porque não soube ver que aquela menina, sem pernas, sabia voar.

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