A Garganta da Serpente
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Sob as telhas velhas e empoeiradas

(Swany Cristini)

Chega ao fim da subida ofegante... A sua frente, o barulho do movimento da feira. "É... Faz tempo...". Dá uma parada, observa tudo ao redor. As novas barraquinhas de pastel, aquelas que nunca saíram de lá. Os fregueses tradicionais da barraquinha da Japonesa... Aqueles clientes que gostam de novidades.

Ela começa a andar. Os mesmos "carinhas" que frequentavam o bar... Continuam lá... Nem saíram... Saíram quando o bar mudou para a esquina. E ela se lembra, tinha uns nove anos. Passava em frente de mãos dadas com sua mãe toda vez que ia para o metrô. Ela tinha cabelos longos que cobriam seu corpinho infante. Agora, seus cabelos curtos não escondem a nudez de seu pescoço magro. Ao chegar à esquina, seus olhos já foram atrás de procurar o portão de casa... O caminhão ainda estava lá... No terreno do lado, tampando a visão "O caminhão de antes... O caminhão de sempre" Lembra que por muito tempo um caminhão, não o mesmo, outro, daqueles primeiros que saíram, os mais antigos e bonitões, lembra? Ela lembra... Ele era vermelho e ficava na esquina da rua... Escondendo aquele pedacinho da Rua do Major Boaventura "Nunca nem vi esse cara".

Era dali que saiam as histórias mais mirabolantes: casaizinhos se "amassando"... "o Bebe da vizinha nasceu bonito". Ou então assaltos bem no meio do dia... Aquele caminhão vermelho sempre escondeu os piores pecados "Ainda tenho a embalagem daqueles chocolates... E os versos que neles escrevi" Ah... Suas gulas insanas. É... "Minha casa... Deve estar do mesmo jeito". E suas palavras insanas, dentro do quarto, sob as telhas velhas e empoeiradas... E foram tantos choros...

Risos... Festas solitárias... Tantos momentos.

Entra no portão de casa. O CD preferido da mãe invadindo a garagem junto com sua cachorra, que tanto sentia saudade. Lá da porta, a mãe olha curiosa.

- Cheguei.

"Mas, me desculpe... Não é para ficar."

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