A Garganta da Serpente
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Meu conto de fadas

(Sóira Celestino)

Aproximou-se do lago para tentar encher a grande jarra de metal e foi tomada de grande alegria, surpresa e incompreensão.

Ela admirava o reflexo nas águas do límpido lago e exclamava:

- Veja meu rosto, que beleza! Eu sou perfeita! Cabelos escuros, pele branca e olhos verde oliva. Que injustiça fazem comigo! Como alguém tão formosa e meiga pode ser uma escrava?

Arremessou o jarro com violência contra a árvore e partiu furiosa. O impacto foi tão forte que a árvore balançou e quase me derrubou.

Meu medo era devastador. Meu coração somente desacelerou na medida em que os passos daquela mulher tornaram-se inaudíveis.

Todos os dias a mulher retornava e prostrava-se diante do lago, admirando sua imagem. Os dedos enrugados acariciavam seu rosto.

Como Narciso, aquela mulher apaixonara-se pelo reflexo que via nas águas e chorava lágrimas copiosas contra as injustiças sofridas. Lamentava as várias horas que seu branco rosto ficava exposto ao sol estando sujeito a torna-se queimado e enrugado como suas mãos.

Ela dizia que seus cabelos escuros, longos e sedosos lembravam um pequeno riacho em uma noite sem luar.

Que antes ela nunca notara a bondade e meiguice que seu olhar expressava, inicialmente, atrás de certa apreensão. Ou seria medo? Notou que com o passar dos dias aquele olhar demonstrava compaixão e depois amor, que ela correspondia.

Passava longas horas acariciando aquele reflexo que se desmanchava a cada toque de suas horrendas mãos e beijava com ternura aquele rosto formoso.

Fantasiava que o príncipe que a pouco visitara seu vilarejo ficaria apaixonado por seu belo rosto.

Certo dia, seu êxtase foi interrompido quando um pequeno grupo de mulheres se aproximou do lago para fazer um piquenique.

- Louca! Saia de nossa presença! - disse a mais jovem enquanto dava uma sonora gargalhada.

A mulher levantou assustada e colocou-se como um animal emboscado junto à árvore. Vociferava.

Soltou uma gargalhada cruel e disse:

- Ele há de me querer e ai eu terei minha vingança!

- Ele quem sua louca? - retrucou a jovem.

- O príncipe... Éééé - respondeu com uma voz que se assemelhava ao silvo de uma cobra.

- Ora não me faça rir! A insanidade dominou você! Nem você tem coragem de se olhar no espelho. Você quer ver o seu reflexo? - indagou a jovem.

- Eu já vi meu reflexo no lago e eu sou bonita. Eu sou mais bonita que você. Ele há de me querer. Eu sou perfeita! Cabelos escuros, pele branca e olhos verde oliva. - retrucou em êxtase.

- Ah! Pare de discutir com essa louca! Ela deve ter escutado algum dos boatos que estão circulando pelo mercado de que o príncipe vai ser casar com uma jovem com essa descrição e está delirando. - disse a mais velha.

- Também ouvi essa noticia. Dizem que ele decidiu retornar ao seu reino, pois deveria enviar seus empregados para prepará-la antes da apresentação oficial. - comentou uma das jovens.

- Porque eu não posso aparecer com esses trapos que sua mãe me veste - respondeu a mulher.

- Moura, louca, feia e horrenda! Esse lago somente pode ter refletido alguma beleza se ele for mágico. - disse a mais jovem enquanto colocava o rosto da Moura em frente ao espelho.

A Moura emitiu um grito de dor imensa. Eu senti a dor na mesma proporção.

Eu era a jovem que o príncipe tinha escolhido e enquanto ele estivesse ausente, eu deveria permanecer escondida na copa da árvore que ficava às margens de um lago, local onde nos conhecemos.

Foi então que ela apareceu e meus sentimentos de alegria e êxtase pelo casamento deram lugar ao pavor e medo. Pude ouvir os sons daqueles passos arrastados, a respiração difícil e ofegante que lembravam os grunhidos de um porco selvagem e o soar de um metal. Pude vê-la chegando com seu andar trôpego e cambaleante, fazendo força para arrastar um grande jarro de ferro com suas mãos grandes, grosseiras e cobertas de verrugas. A cabeça tombada para direita fazia com que seu rosto fosse coberto pelos longos cabelos sujos e desgrenhados.

Agarrara-me à árvore e minha mente já não distinguia se me apoiava em um de seus ramos ou naquilo que poderia ser o braço de minha mãe.

Desde sua aparição eu fui transportada para a história e permanecia ali assustada, oculta na copa da árvore.

Um sentimento de compaixão e amor deu lugar ao medo que eu tinha daquela esfarrapada e suja mulher, que apesar da suposta horrenda aparência deveria ter um belo rosto, que eu aprendi a amar contemplando suas demonstrações de afeto diário aquele reflexo.

Certo dia, quase pude vê-lo. Como que tomada por um êxtase divino, ela lançou seus braços para o alto e levantou sua cabeça em direção ao céu tornando assim, seu rosto quase visível.

No entanto, seu movimento foi tão rápido que seu belo rosto permaneceu uma incógnita para mim. Amava aquela pobre mulher que deveria ter um rosto semelhante ao meu.

Naquele momento, quando vi aquelas megeras maltratando-a e diante de seu sofrimento e seu grito de dor, não pude conter a minha indignação que denunciou a minha presença na árvore.

Imediatamente desci da árvore e abracei a Moura

Não pude deixar de notar que as condições de higiene da Moura eram precárias e que seu corpo e seu hálito exalavam um odor impossível de ser qualificado. Talvez o mais próximo fosse o de um cadáver em decomposição.

Enquanto repreendia aquelas jovens pelas grosserias, injustiças e humilhações contra aquela mulher, pude sentir que ela me olhou e sussurrou.

- Meu belo rosto...

A Moura me empurrou com violência contra o chão e partiu rapidamente com seu passo trôpego. Reconheci o uivo de dor que ouvi durante a noite.

Na manhã seguinte fui acordada por um barulho estranho. Eu fiquei ali, inerte, imóvel, terrificada enquanto aquele ser horrendo e esfarrapado subia rapidamente a árvore como se fosse um lagarto.

Ela parou de cócoras diante de mim. Entre os cabelos que cobriam seu rosto pude notar dois pequenos olhos que me fitavam expressando dor, crueldade e vingança. Pôs-se então a me cheirar. Eu devia exalar o cheiro do medo.

Enquanto ela me cheirava acariciei seus cabelos tentando enxergar seu rosto que deveria ser semelhante ao meu pelas inúmeras descrições que ela fazia ao se olhar no lago.

Meu coração parou e eu soltei um grito de terror. O rosto da Moura era torto e enrugado, marcado por cicatrizes e repleto de horrendas verrugas, a boca sem dentes, mas a faísca de ódio que vi brotar de seus minúsculos olhos foi o que mais me aterrorizou.

Ela então sorriu e tocou suas vestes. Delicadamente enfiou seus dedos horrendos no meu cabelo como se o estivesse penteando. Não reagi.

A partir daquele encontro, os contos de fadas perderam todo o encanto para mim até porque meu mundo de contos de fadas também ruiu.

Tive uma infância de contos de fadas e de certa forma, eles realmente faziam parte da nossa rotina. Toda noite, antes das orações, minha mãe lia um desses famosos contos para nós.

Eu e minha irmã nos colocávamos cada uma de um lado da minha mãe e eu encostava minha cabecinha em seu ombro procurando ficar o mais aninhadinha possível.

Dentre tantos momentos mágicos que eu vivia naquele lar, aquele era seguramente um dos que eu mais apreciava. Até a noite em que ela apareceu em um dos livros de contos de fadas...

No conto original, a bela moça tornasse uma pomba enquanto aquela aberração da natureza tomava seu lugar e aguardava o príncipe.

Não foi o que aconteceu no final do meu conto.

Depois de colocar seus dedos horrendos entre meus cabelos ela puxou minha cabeça para trás e eu pude ver o reflexo do sol na faca.

Fechei os olhos esperando que a faca rasgasse minha jugular enquanto ela aos prantos molhava meu rosto com suas lágrimas enquanto murmurava... Meu rosto, meu rosto.

A Moura soltou um uivo de dor e um grito enquanto batia com a faca no peito e chacoalhava minha cabeça.

Nunca imaginei que era meu reflexo nas águas que a Moura admirava. Entendia a dor que ela sentia talvez por ter se iludido com uma beleza que não era sua. Lembrei que a inveja é o pior pecado e que suas consequências costumam ser sempre danosas.

Abri os olhos enquanto a Moura puxa novamente minha cabeça para trás. A última coisa que vi foi o seu horrendo rosto.

O príncipe e sua comitiva ouviram os gritos e correram em nossa direção.

O cenário que encontraram era dramático.

Uma mulher estava prostrada sobre o lago banhando o rosto enquanto outra gritava:

- Meu belo rosto! Meu belo rosto! Nunca mais irei vê-lo.

Ele reconheceu os longos cabelos sedosos da mulher que se banhava. Correu ao seu encontro e a envolveu em seus braços enquanto ela cobria o rosto com as mãos. Notou que havia sangue em suas delicadas mãos e pressentiu o pior.

Ficou chocado com o que viu. Dois riscos que formavam um X foram feitos de ponta a ponta em seu rosto.

Ao olhar para o chão viu uma horrenda criatura prostrada com uma faca ensanguentada ao seu lado. Seus olhos estavam perfurados o que a deixou ainda mais horripilante.

A jovem contou que aquilo fora trabalho da Moura que enquanto cometia aquela atrocidade, vociferava:

- Agora vai ficar igual a Moura! Agora vai ver na água o reflexo da Moura!

Quando terminou, a Moura largou a faca e começou a gritar:

- O que fiz com meu rosto? Meu belo rosto? A Moura está feia de novo!!!

Desesperada desceu da árvore e se prostrou diante do lago buscando o reflexo do belo rosto nas águas.

A única coisa que pode ver era um rosto ensanguentado resultado de sua violência mas que ainda assim mantinha o semblante de compaixão e amor em meio a dor.

A Moura sofria, se contorcia e gritava:

- Moura estragou seu belo rosto. Moura não quer ver mais isso!

Eu ainda tentei descer da árvore para impedir a Moura, mas não cheguei a tempo.

Ela desferiu dois rápidos golpes contra os olhos.

A Moura ouvia o relato e dizia:

- Moura está nas trevas. Moura só vê a noite. Meu e só meu é o príncipe. Príncipe ama a Moura assim. Moura qué o príncipe. Príncipe ama a Moura. Moura sabe. Príncipe ama o belo rosto da Moura.

O príncipe desembanhou a espada para matá-la. Não permiti. A dor da Moura já era imensa e era seu pior castigo.

Os ferimentos no rosto foram curados mas as cicatrizes na alma permaneceram. A Moura me aprisionou em seu conto.

Passei a encontrá-la nos mais variados tipos de lugar e pessoas. Ela está ali, presente, silenciosa, acariciando meu cabelo enquanto aguarda encontrar o momento certo para me atacar. Posso reconhecer aquele olhar invejoso e rancoroso quando o vejo. A inveja é efetivamente o maior de todos os males.

Algumas vezes eu a enfrento, a faço enxergar a verdade de sua feiúra e ela foge desesperada. Outras vezes sou eu que fujo. Em outras eu me permito ser consumida por sua maldade, permito ter meu rosto dilacerado pela sua fúria e saio carregando na alma as cicatrizes de sua inveja e de sua loucura.

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