A Garganta da Serpente
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A Última Vez Que Viu Paris

(Raymundo Silveira)

"Alors l'obsession qui me hantait depuis un mois pénétra de nouveau dans ma tête. Dès que je demeurais immobile, elle descendait sur moi, entrait en moi et me rongeait. Elle me rongeait comme rongent les idées fixes, comme les cancers doivent ronger les chairs". (Guy de Maupassant: La Confession)



Insoniava e não comia havia mais de uma semana. Não se banhava nem se barbeava desde nunca mais. Desusava eletricidade por dois motivos: ter-se esquecido dela e não existir mesmo. Deitado de costas, mirava o teto com olhos de já era. Baratas e ratazanas passeavam sobre o corpo. A mente, contudo, estava mais viva do que jamais. Embora, mais confusa que o universo. De vez em muito interrompia o que não fazia para se masturbar. Ora ejaculava sobre as vísceras de um cadáver de mulher em decomposição. Ora sendo alvejado no ventre pela arma em punho de uma prostituta despida. As parceiras fictícias mais frequentes eram a mãe e as duas irmãs. Eventualmente, se levantava para verter ou descomer. Na maioria das vezes despejava no próprio leito. Durava sozinho numa água furtada, à Rue Dunkerque, em Montmartre, cujo aluguel não pagava havia meses, pois carecia de fundos, ânimo, interesse e perspectiva de consequências. No domingo pela manhã desceu ao rés do chão portando um volumoso saco plástico e deixou o prédio, rumo à Gare du Nord. Apanhou o metrô. Desceu em Barbès Rochecouart e fez conexão para La Chapelle. Apeou. Subiu a escadaria do Sacré Coeur e entrou na Basílica quando o coro entoava o Cântico da Comunhão.

Le pain du ciel nous est donné / C'est Lá le banquet véritable / L'agneau pour nous s'est immole / Et Dieu nous invite a Sa table!

Sem largar o pacote, enfileirou-se entre os fiéis e comungou, não afetando nem dissimulando piedade. Deixou a Basílica antes de acabar a missa, pela mesma porta por onde entrou. Parou no meio da escadaria, abriu a braguilha e desentalou peça rija, carnosa, e macrocefálica. Vestiu uma camisa-de-vênus e se onanizou para quem quisesse olhar, aconchegando o misterioso saco plástico contra o peito, com a outra mão. Depois, retirou o preservativo e preservou o conteúdo cingindo-o com uma laçada. Pôs no bolso direito da calça. Enquanto se recompunha, o coro entoava a aclamação eucarística:

Dieu caché, je Vous adore en Ce sacrement! / Je ne vois qu'un peu de pain, mais je crois pourtant: / Qui pourrait douter de Vous, maitre souverain, / Quand Ce corps nous fut livre de Vos propres mains?

Desceu os demais degraus com desenvoltura de desocupado e flanando como um turista. Retomou o metrô em La Chapelle e seguiu para o Père Lachaise. O cemitério estava apinhado: multidões de mortos vividos fingiam homenagear legiões de mortos morridos. Na entrada apanhou um mapa. Orientou-se e continuou a caminhar, até o túmulo de Edith Piaf. Sentou-se. Retirou um minúsculo walkman do bolso traseiro, colocou os headphones e acionou a tecla play. As notas de La Vie en Rose ecoaram em seus ouvidos a todo volume. Pegou o preservativo e rasgou bruscamente, derramando o sêmen sobre o jazigo da cantora. Quando a música terminou, levantou-se e saiu serenamente, como se houvera acabado de fazer uma prece pela alma da artista. Tornou à estação do metrô e embarcou na linha Galliéni / Pont de Levallois, rumando para o terminal de Bécon. Desceu em St-Lazare. A estação enxameava. Parecia mais parisiense do que o Sena.

Ignorando a perplexidade dos circunstantes, atravessou a gare e saiu pelo portão que dá acesso à rue de Rome, por onde seguiu, após dobrar à esquerda. Choutou, alcançou a rue St-Lazare e através dela, o Bouleverd Haussmann. No cruzamento com St-Augustin, virou novamente à esquerda e continuou até o Bd Malesherbes através do qual, após cerca de três quartos de hora de caminhada, chegou à Place de la Concorde.

Depois de atravessar perigosamente um fluxo caótico de veículos, pôs-se ao pé do obelisco e urinou num recipiente de vidro, utilizando parcialmente a fonte como tapume. Com a urina, batizou a estátua-símbolo da cidade de Lille, quase em frente à porta de acesso aos Esgotos. A seguir, Champs-Elysées acima. Nada o detinha, nem intimidava. Negava vulto ou era indiferente a quaisquer percalços da trajetória. Reagia à quentura do perigo com pensamentos gelados. Uma viatura da polícia vinha de encontro. O pisca-pisca de alerta e o letreiro do Lidô, tinham o mesmo significado. Um débil gemido de França vinha lá de dentro do cabaré. Arribou na Etoile quando já era meia-noite. O enigmático saco plástico foi depositado junto à pira perpétua do Soldado Desconhecido. Desceu ao subterrâneo embarcando em direção a Nation. Desceu na estação de Bir Hakeim. Subiu para a Avenue de Suffren e se dirigiu para a Torre Eiffel. Entrou no elevador e saiu no segundo estágio. Aproximando-se da amurada de proteção, nem sequer reparou no espetáculo de luzes diante de si. Elevou-se se sustendo nos próprios braços, sentou de costas para a cidade e se deixou cair no vazio.

(17/06/2006)

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