A Garganta da Serpente

Rute Mota

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Uma janela para o mar

(Rute Mota)

Ah! Afinal, sempre veio. Entre, entre. Não precisa de se apresentar, já nos conhecemos, lembra-se? Deixe lá, não precisa de se desculpar, já passou muito tempo desde então. Veio por causa dela, não foi? Sente-se, sente-se. Acompanha-me num chá? Habituei-me a ver a tarde cair com um chávena de chá na mão. Sentávamo-nos nesta sala, a olhar por esta janela. Sim, era uma espécie de ritual nosso. Talvez não saiba ou não se recorde, já tudo aconteceu há tanto tempo, mas ela sentia uma fascinação enorme pelos ocasos. Os laranjas, os violetas, a descida do sol cujos gemidos ela dizia sentir... Nos dias mais quentes, como hoje, abríamos a janela e, aos poucos, a casa ia-se inundando dos cheiros áleos de fim de tarde. Ela sentava-se nesse cadeirão onde o senhor está agora... Não precisa de disfarçar, eu percebi a sua leve agitação. A princípio, ela também reagia assim, como esse mesmo estremecimento quando lhe falavam de si e, agora que lhe vi essa mesma reacção, começo a acreditar que o sofrimento dela não foi em vão. Por favor, não se comporte como se o sofrimento dela tivesse ficado agarrado a esse cadeirão de verga. Se a dor dela ainda continuar por aqui, garanto-lhe que não é nesse cadeirão que está, mas nas cores gritantes do pôr-do-sol que se repete.

Ela escreveu-lhe muito. Não se surpreenda por não ter recebido as cartas. Ela não as enviou. Escrevia-lhe horas a fio, por vezes, atravessava as noites a escrever-lhe. Enchia páginas e páginas. Escrevia com força, rasgando o papel de azul. Gostaria muito de lhe poder mostrar essas cartas, acredite, mas não o posso fazer, não adianta insistir. Não pense que é por falta de vontade... O que se passa é que essas cartas é o mar quem as guarda... Quando terminava um carta, rasgava-a e, invariavelmente, queimava os pedaços de papel, juntava as cinzas das palavras e ia deitá-las ao mar. É naquele mar que estão todas as palavras que ela escolheu para si. Por vezes, nas noites em que o sono tarda, parece-me distinguir algumas palavras no rebentar das ondas. Percebo, pelo seu olhar, que não acredita nisto que acabei de lhe dizer. Nem eu. Nem eu... No entanto, isto parece perfeitamente possível vindo das palavras de quem dizia sentir os gemidos do ocaso.

Ela não era como nós, decerto concordará comigo. Acredito que ela já nasceu com aquela dor. O senhor foi assim como um pretexto, percebe? Há pessoas que já nascem com o vazio nelas, com uma espécie de ausência pequenina que lhes vai alastrando pelo corpo até as engolir. Ela era uma dessas pessoas. O que aconteceu, segundo creio, foi que ela precisava de dar um nome e um rosto a essa ausência, precisava de dar forma à dor para a poder controlar ou, pelo menos, tentá-lo. E ela sabia-o. Estou certa de que o sabia. Talvez por isso mesmo ela nunca o tenha culpado um só momento. Não estou a dizer que ela não o tenha amado, pelo contrário, estou convicta de que foi o único homem que ela amou, contudo, a sua maneira de amar era distinta de todas as outras... Sim, tem razão, cada pessoa ama de maneira única, da sua própria maneira... O que me parece é que ela precisava de explicar a si mesma a ausência que trazia consigo e, numa dada altura da sua vida, o modo de explicação mais viável que ela encontrou foi o amor, um amor impossível, um amor que doesse. É claro que isto não explicava coisa alguma, dado que a ausência que a corroía era muito anterior a si... De qualquer modo, ambos sabemos a facilidade com que ela saltava os mais óbvios raciocínios lógicos. Apesar disto, sei que haviam momentos, e não eram raros, em que ela se apercebia dessa falta de lógica e se sentia perdida no meio daquele vácuo enorme que nem mesmo um grande amor impossível poderia preencher ou justificar. Nesses momentos, pouco comia e deambulava pela casa com aquele olhar de quem vê mas não reconhece. Ultimamente, esses momentos eram cada vez mais frequentes. Não lia, não escrevia... Havia dias em que se ia sentar frente ao mar e ali ficava até... Nem sei... Eram horas perdidas ali. Chegava a ir de manhã, ainda baixa-mar, e ali se sentava, de pernas dobradas, com o tronco dobrado sobre os joelhos. Olhava o mar até deixar de o ver. Vinha, depois, a preia-mar e ela lá continuava, imóvel. E houve aquela altura em que ficou rodeada de mar e nem mesmo assim se moveu. Estava encharcada, o nível da água à sua volta ia subindo lentamente e ela impassível.

Fui eu que a matei. Tinha de ser, compreende? De qualquer modo, ela há muito que estava ferida de morte e, se continuasse naquela morte lenta, arrastar-me-ia com ela e eu não o podia deixar. Ela sofria, mas era como se o próprio sofrimento a sustivesse, enquanto que era em mim que o eco desse sofrimento surtia efeito. Ela estava a suicidar-se aos poucos, como se quisesse sentir, plenamente, cada momento da sua morte. As insónias... Ela sabia que escrevia melhor depois de uma noite mal dormida, de preferência, uma noite em que acordasse todos os seus fantasmas. Sim, o senhor era parte desses fantasmas. Ela chamava-os, um por um, sentindo um certo prazer ácido em avivar essas memórias. Estava já demasiado viciada para poder recuperar. Chorava, contorcia-se, enterrava as unhas nas palmas das mãos, chegava a fazer sangue. Ainda tenho algumas marcas, veja. Na manhã seguinte, continuava sob os resquícios da noite e absorvia-os até à exaustão. Apesar de estar, nitidamente, a enfraquecer, ela seria capaz de continuar assim indefinidamente. Eu é que não podia mais... Era eu que tinha de enfrentar o desgaste das insónias e os olhos vermelhos e inchados reflectidos no espelho.

Porquê esse ar de perplexidade? Não me imaginava capaz de matar alguém? Ora, não me venha com coisas! Nem mesmo me conhece, como me pode imaginar capaz ou não do que quer que seja? Ela é que nunca mataria, está certo, no entanto, sou muito diferente dela, tão diferente que nem mesmo me reconheceu quando lhe abri a porta. Mas, não foi para falarmos de mim que veio, foi para falar dela. Amava-a? Alguma vez a amou? Não responda. Prefiro que não responda. De qualquer maneira, isso já não importa. Para lhe dizer a verdade, nunca importou. O que importava era o que ela sentia ou o que ela pensava sentir, porque era esse o motor da sua escrita. Não pense que foi o grande amor da sua vida. Não... O grande amor da sua vida era a escrita. O senhor foi, volto a dizê-lo, um pretexto. Ela serviu-se de si. Embora ela nunca o assumisse, essa é a verdade. Era por isso que ela não o culpava de coisa alguma, percebe? Esse era um gesto que nada tinha de magnânimo, apesar de visto assim por quem de fora, mas eu estava lá e conhecia-a melhor do que ela mesma e posso garantir-lhe que não existe magnanimidade alguma em perdoar alguém que, de facto, nunca foi culpado.

Matei-a. No entanto, amava-a. Amava-a de mãe para filha, de irmã para irmã, de mulher para mulher. Matei-a. No entanto, sabia que ela também me amava. Era mesmo a única pessoa que me amava. Porém, era uma questão de sobrevivência. Matei a única pessoa que me amava para poder continuar a viver. E ela... Ela morreu amada por todos. Era a ela, com as suas dores, com as suas insónias, com o seu sofrimento quase autoinfligido, que todos amavam. Para mim, não havia sequer um esboço de um agradecimento e, contudo, era eu que lhe permitia ser como era. Ela nunca sobreviveria sem mim, mas era a ela que todos amavam. Era a ela que o senhor amava. Diga-me, alguma vez me amou? Alguma vez pensou, sequer, que me poderia amar? Deixe... Não responda.

Vamos, beba o chá enquanto não arrefece. Beba o chá e olhe o mar... Deixe que os olhos se demorem no rebentar das ondas e na força rasgada da espuma... Consegue ouvir? Há uma palavra que se repete... Consegue percebê-la? Escute...

Amo-te.

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