A Garganta da Serpente
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A viúva-negra

(Ronygley Carvalho Fonseca)

Comecei a achar muito suspeito e, sobretudo, estranho, a extraordinária vocação que Lawanda West tinha para ficar viúva, sim, - aquilo não poderia ser uma maldição, pois seria coincidência demais uma mulher tão bonita e atraente casar-se tão rápido e, em pouco tempo, ficar viúva tão depressa. A minha desconfiança tinha muito fundamento, porque era incrível a facilidade com que ela arranjava bons casamentos e, seus parceiros, eram sempre homens da terceira idade, porém, ricos, solitários e bem sucedidos, que outro interesse uma jovem tão bonita como ela tinha em conquistar homens ricos que tinham idade para serem avôs dela? Não obstante, também era incrível a facilidade com que os cônjuges morriam. Aparentemente os velhos gozavam de boa saúde e vitalidade, mas bastava se casarem com ela e, em pouco tempo, lá estava eu depositando seus corpos num caixão para dentro da sepultura.

Não tinha como eu não suspeitar, a cada seis meses eu realizei o sepultamento de cada homem que se casou com ela, - mas é claro que tratavam-se de assassinatos em série, " era óbvio!". Nunca, não que eu me lembre, em todos aqueles anos de ter visto Lawanda West dar atenção ou sair com algum homem pobre ou de idade compatível com a dela, ao contrário, - ela só se envolvia com velhotes de posses. O último foi o velho Frank Montgomery, que segundo a autópsia, - vejam só que incrível coincidência! Assim como os outros, também morreu de parada cardíaca causada por falência múltipla dos órgãos, - antes deste tinham sido: Gordon Huston, Oswald Philips, Jack Finegam e Ted Jacobs. Todos eles, segundo a autópsia, constatados e assinados nas certidões de óbitos que morreram de parada cardíaca provocada por falência múltipla dos órgãos, e os médicos alegavam que isto era causado pela avançada idade dos maridos.

Mas embora, este assunto não me dissesse respeito, eu não conseguia esquece-lo, e tampouco, deixar de achá-lo muito suspeito. Porém, minha suspeita não era proposital, - sei que pode parecer loucura ou delírio da minha parte, mas era como se algo de intuitivo, - posso dizer até mesmo de sobrenatural, levava-me a acreditar que Lawanda West, realmente, era a responsável pela morte daqueles homens, embora nunca houvesse caído sobre ela algum tipo de suspeita.

Acontecia sempre nos velórios na capela do cemitério, durante e depois do enterro, e às vezes, nos intervalos do luto pelos finados. Confesso que tais fenômenos quase me levaram à loucura e me destruíram, pois tinha a impressão de que ouvia as súplicas desses espíritos, e sentia a presença deles tentando se comunicar comigo como se quisessem me dizer alguma coisa!

Cheguei a pensar que tais supostas alucinações eram provocadas pelos efeitos do álcool e da heroína, - me envergonho ao confessar que fazia uso abusivo dessas substâncias narcóticas, mas tais visões eram reais, e não eram produzidas pelo estado de torpor.

Nos velórios e enterros das vítimas como era de se supor, familiares e amigos choravam e sofriam com a perda de seus entes queridos, ao passo que, - Lawanda West apresentava-se de maneira fria e impassível:

- Vestida de preto e usando óculos escuros não expressava sentimento algum de dor ou sofrimento. Pelas faces de seu delicado rosto, pessoa alguma viu "não que eu me lembre", escorrer uma única lágrima de crocodilo sequer dos seus olhos diante do caixão de um dos seus maridos.

Porém, sua presença, causava algo que me dava temor e que apenas eu podia perceber: Lawanda West ao aproximar-se do caixão e tocar na testa do defunto, este gritava de forma espantosa: "Assassina"! "Assassina!" "Assassina!".

A sensação que eu tinha era que o morto iria saltar do caixão em cima dela com as mãos em seu pescoço, e estrangula-la. Mas o surpreendente, era que de todos os presentes, apenas eu conseguia ver aquilo! - Inacreditável!

No cortejo, quando o corpo estava sendo conduzido até o sepulcro, - eu podia ouvir os gritos abafados de dentro do caixão: "Assassina!" "Assassina!" "Assassina!". E quando os enterrava e todos iam embora, eu também continuava ouvindo, aterrorizado, estes mesmos gritos!

- Lawanda West era um exemplo a ser seguido para quem deseja ser uma vigarista, para quem gosta de vida fácil e de dinheiro fácil, - ela era um modelo típico de viúva-negra: Jovem, bonita, sedutora, atraente, envolvente, inteligente e, sobretudo, muito perigosa, - ah, sim, disso eu estava certo. Não havia homem algum na face da terra que resistisse aos encantos daquela mulher sagaz, que sempre escapava impune de seus crimes, e vivia no luxo com as riquezas que herdava de seus cônjuges através de seus golpes macabros! -Sim, tudo deu certo para Lawanda West até aquela noite, - aquela noite, longos anos se passaram desde então, e a minha memória quase esvaneceu-se no tempo, e até hoje não entendi ao certo o que de fato aconteceu na noite em que Lawanda West, a viúva-negra, simplesmente, virou lenda.

Passado algum tempo do enterro do velho Frank Montgomery, - Lawanda West retirou-se de cena por um tempo, suspendendo suas atividades diabólicas de enganar e assassinar velhotes ricos, solitários e ingênuos, passando a viver sozinha na mansão Montgomery e gastando a herança que o velho deixara em compras, joias e viagens à Europa, com certeza, ela tinha o suficiente para gastar e viver bem por um bom tempo.

Eu continuei em silêncio com as minhas suspeitas, exercendo meu ofício e tocando em frente a minha vida de misantropo, praticamente era sozinho, não tinha amigos, pois num mundo onde o poder, a ganância e o dinheiro estão, praticamente, acima de tudo, quem teria interesse em ter a amizade de um simples coveiro? - Os mortos?!

Contudo, os fantasmas dos maridos de Lawanda não me deixaram em paz, muitas vezes tive a impressão de ouvir vozes ao meu ouvido, ou de estar sempre acompanhado, embora não estivesse, ou sendo seguido por alguém, era como se algo quisesse fazer contato do além com a minha pessoa, fato que até então, repito, atribui ao abuso excessivo de álcool e de drogas, e mesmo se o comentassem com alguém, apenas para desabafar, quem iria ouvir ou acreditar em mim? - Simplesmente, era algo que eu tinha que suportar e conviver sozinho, mas confesso que não era fácil, eu estava à beira da loucura, tentava afogar o terror no álcool e nas drogas, e evitava até mesmo ficar sozinho. Eu me perguntava o quê eles queriam de mim? - Não fui eu quem os matou, não tinha nada a ver com aquilo, - era a Lawanda, era ela que eles tinham que assombrar, e não eu!

Por várias vezes, pensei em procurá-la para explicar-lhe os fatos, mas abstinha-me, ela era arrogante e metida demais. Jamais me daria crédito.

Numa madrugada de Sábado para Domingo, ao voltar ao meu casebre, que ficava ao canto nos fundos do cemitério, num estado mais que deplorável, ou melhor, infame, causado pelos efeitos da bebida e da heroína, depois de uma noitada, - não pude acreditar no que vi:

Ao entrar, acendi a luz e fiquei paralisado pelo horror. Eu não sonhava, e diante de mim estavam os finados: Gordon Huston, Oswald Philips e Jack Finegam, os três, sentados à mesa, tranquilamente, jogavam baralho, bebiam rum e fumavam charuto! A visão era maravilhosamente perfeita.

Por um instante, fiquei ali imóvel observando-os, um calafrio regelou-me até a medula dos ossos, e um terror inenarrável apoderou-se, instantaneamente de mim, simplesmente, os olhos não acreditavam no que viam, em tantos anos de profissão nunca vira algo parecido.

Então tomei coragem e, meio aturdido, perguntei aos espíritos o que eles faziam ali? - Eles não estavam mortos?!

Mas, nenhum dos espíritos me responderam, - eles simplesmente riam, bebiam, tragavam os charutos, divertiam-se, ignoravam a minha presença. Enquanto eles jogavam pronunciaram frases das quais demorei a perceber de quem falavam, - as frases eram as seguintes: "À hora dela está chegando!" "Eu não consigo morrer sem ela!" "É, infelizmente, charme e beleza não acompanham caráter!".

Foi então que percebi que eles estavam falando da Lawanda West, ou melhor, estavam tramando alguma vingança diabólica contra ela! Então, mais uma vez dirigi perguntas a eles: "Ei, o que vocês estão tramando contra a Lawanda?" Mas novamente, nenhum deles respondeu e prosseguiram-se as tenebrosas gargalhadas.

Entrementes, a razão interviu em meu auxílio e, fechei os olhos por um instante, e dizendo a mim mesmo: "Isto é apenas uma ilusão ou delírio provocados por excessos, sim, é isso, estes homens estão mortos, e, portanto, jamais podem estar aqui!".

Abri os olhos e, olhei novamente para a mesa e vi que os fantasmas sumiram, mas é claro, aquilo era absurdo! Porém, algo me intrigou: as cartas de baralho, os copos, a garrafa de rum aberta e as pitucas de charutos permaneceram ali mesmo, como se tivessem acabados de serem abandonados há pouco tempo!

"Estou ficando louco!" - pensei comigo. Preciso largar estes malditos vícios antes que me enlouqueçam ou me matem de uma overdose de vez. Dito isto saí da sala e fui para o quarto. Estava exausto, pulei na cama, mesmo sem tomar banho para desenfadigar, e ainda mais depois daquele espanto de há pouco.

Deitei-me na cama, cobri-me com a coberta, e, quando já cochilava, quase caindo em sono profundo, senti dois pesos de cada lado da cama afundando o colchão. Não dei importância, pois estava cansado demais para interromper o meu sono.

De repente, comecei a ouvir vozes bem perto de mim. Abri os olhos assustado, tirei a coberta de cima da cabeça e, novamente, fiquei paralisado pelo horror!

Sentados na cama, cada um de um lado, e eu entre os dois, estavam Frank Montgomery e Ted Jacobs dialogando e rindo calmamente: "-Sem dúvida Lawanda West é uma mulher muita esperta, enganou a todos, inclusive a nós". - Disse Montgomery.

"- É, eu também, assim como você e os outros, eu fui vítima dela, a substância que ela utilizou para nos matar era um veneno letal que provoca falência múltipla dos órgãos causando parada cardíaca, e logo depois desaparece rapidamente da corrente sanguínea".- Por isso os legistas não descobriram que se tratava de envenenamento, enfim, por amá-la eu perdi as minhas riquezas e a minha vida. - Disse Jacobs.

Eu ouvia trêmulo e atentamente a conversa dos espíritos, sim, sem dúvida eles tramavam uma vingança. Por mais absurdo que parecia, finalmente, eu confirmava as minhas suspeitas a respeito de Lawanda, "envenenamento!", - mas é claro, desta forma ninguém suspeitaria mesmo de nada.

Contive por um instante o pavor que se apoderou de mim diante deles e perguntei: O que vocês pretendem fazer contra a Lawanda seus malditos? - Vão embora! - O ciclo de vocês já acabou neste mundo! - Deixem-nos em paz em nome de Deus!

E, igual à outra vez, nenhum se manifestou, ignoraram - me, - a minha presença não era percebida, tampouco, incomodava-os, era como se fosse um sinal de aviso de que algo ruim estava prestes a acontecer, mas que apenas eu tinha o conhecimento. O diálogo prosseguiu, e apavorado, eu continuei a ouvir a conversa:

"-Nós vamos pega-la, - nós vamos pega-la!" - Diziam os miseráveis.

Então, de súbito, eu esperneei freneticamente, pulei da cama e gritei: - sumam daqui almas penadas, voltem para o inferno, - deixem-me em paz!

Sentei na cama, olhei para os lados e não vi mais ninguém. Depois disso não dormi mais naquela noite, pois não se tratava de um sonho ou ilusão, já se haviam dissipados os efeitos das drogas em meu corpo, o que eu vi ali era real.

Na manhã seguinte visitei as sepulturas dos defuntos, - eles foram sepultados bem próximos uns dos outros, na verdade, as covas estavam enfileiradas de acordo com a ordem de falecimento de cada um.

Tudo estava impecável, não havia o menor sinal de violação, salvo um detalhe: - Gordon, Oswald e Jack estavam sepultados um ao lado do outro, e um pouco acima estavam as sepulturas de Frank e Ted. Ao lado deste último havia uma nova sepultura, a qual eu não lembrava de ter cavado, um fato que muito me impressionou. "-Quem a teria cavado?".

Pensei em procurar Lawanda West para colocá-la a par dos acontecimentos, mas hesitei, pois com certeza ela nunca acreditaria em mim, e acharia loucura da minha parte. No fundo, cheguei a pensar que eu estivesse enlouquecendo mesmo, e naquela mesma noite, antes de dormir, peguei todas as seringas, que fazia uso na injeção de heroína, drogas e bebidas que mantinha em casa e me desfiz delas.

Fui dormir, e passadas algumas horas que tinha pegado no sono, e dormia profundamente, de súbito, fui despertado por vozes e gargalhadas inumanas que vinham da sala. Acendi o abajur, levantei da cama assombrado e percebi que a luz da sala estava acesa.

Caminhei cuidadosamente até a porta para não ser percebido, abri-a com um pequeno espaço que pudesse passar apenas a minha cabeça, e vi ali, reunidos à mesa, os cinco finados, novamente, tramando vingança contra a Lawanda West!

Comecei a tremer de medo e, novamente, fechei os olhos e disse a mim mesmo: "-Estou sonhando, isto é um pesadelo!" Mas ao abrir os olhos, - vi que não sonhava, e desta vez tive certeza, pois não usara nenhuma substância narcótica e me desfizera das que tinha em casa, estava cônscio no mais perfeito do meu juízo.

Outra vez tentei falar com os espíritos, mas eles não se manifestaram. E, ao que parecia, finalmente, traçaram o destino de Lawanda, - eles iriam acabar com ela!

E eu, apavorado, tranquei a porta e voltei para cama, em vão tentei dormir, pois sabia que a mulher corria perigo e precisava avisá-la, porém não sabia do que se tratava a tal vingança.

No outro dia fui à casa dela, chamei-a, e um empregado veio atender e conduziu-me até a sua patroa.

- Lawanda West, como eu já esperava, recebeu-me com aquela postura arrogante e fria de sempre, na verdade, ela apenas me recebeu porque eu disse ao empregado que se tratava de um caso de vida ou morte, e que ela corria perigo. Afinal, que assunto tão importante teria um coveiro para tratar com a rica e orgulhosa Lawanda West?

- Em que posso ser útil senhor? Perguntou ela percebendo a preocupação no meu semblante.

E eu, dominado pelo terror e aturdido como estava não sabia nem por onde começar, e tampouco, dizia coisa com coisa. - Lawanda, - disse eu por fim.

Eu sei tudo a seu respeito, sei que foi você quem assassinou seus companheiros envenenando-os com uma substância letal que desaparece em pouco tempo da corrente sanguínea. Mas não se preocupe, pois não estou aqui para prejudicá-la, mas sim para ajudá-la. Tentei me comunicar com eles para saber o que estavam tramando contra a sua pessoa? - Saber o que planejam? - Que tipo de vingança? Quando irão agir? - Mas não consegui faze-lo, - eu posso vê-los e ouvi-los, porém não consigo me comunicar.

Estas palavras pegaram-na de surpresa:

- Mas, do quê é que o senhor está falando? - Por acaso está louco? - Ela perguntou.

- Como se atreve a vir até aqui em minha casa para fazer este tipo de acusação?! - Ela continuava.

Não, não, senhora! - Estou aqui para ajudá-la, os seus maridos estão querendo pega-la, eu vi e ouvi a conversa deles em minha casa. - Fuja enquanto pode senhora! - Fuja senhora! - disse eu desesperado.

Mas Lawanda, sem acreditar em uma única palavra que eu disse, e irritada com a minha presença em sua casa, ordenou aos empregados que me colocassem para fora de lá, e eu fui enxotado como um cão vira-lata por eles.

- Nunca mais apareça aqui outra vez seu coveiro maluco, vá cuidar do cemitério e dos mortos que é a melhor coisa que você faz, e me deixe em paz! - Onde já se viu - vir até a minha casa acusar-me de assassinato, e ainda por cima, dizer que meus finados esposos planejam vingança contra mim.

- Volte aqui novamente seu bêbado que eu chamo a polícia! - Disse Lawanda West.

Naquele momento, como era de se supor, vi que foram inúteis as minhas tentativas para alertá-la. Eu não poderia fazer mais nada, pelo contrário, fiz tudo que estava ao meu alcance. Eu não sabia o que os espíritos tramaram contra ela, não obstante, se naquele momento pudesse, com certeza, - eu fugiria de lá.

Eu, particularmente, sentia-me ameaçado e indefeso, - Lawanda West era uma mulher muito perigosa, foi capaz de matar todos os seus companheiros, e agora, sabendo que eu sabia o seu segredo, e se ela tentasse alguma represália contra a minha pessoa?

E se eu procurasse a polícia? O que eu diria? Que prova eu tinha contra ela? Diria que os espíritos dos maridos assassinados por ela tramavam uma vingança, e eu ouvi a conversa? Que absurdo! Seria a palavra dela contra a minha.

Voltei à casa, apreensivo, perturbado, se pudesse não voltaria mais para lá, talvez, abandonaria tudo, mas enfim, deixei as coisas como estavam.

Passaram-se alguns dias desde então e, graças a Deus, não vi mais nenhuma aparição, estava aliviado, calmo, e trabalhava tranquilamente. Regava as flores, aparava a grama, limpava os túmulos e fazia alguns enterros. Fui novamente até as sepulturas dos maridos de Lawanda West e, mais uma vez, olhei aquela cova vazia ao lado do túmulo de Ted Jacobs e pensei: "-Estranho, juro que não me lembro de ter feito esta cova, e por que ela está justamente ao lado dos túmulos dos maridos da viúva-negra?". - Será que é algum sinal de que vou enterrar o sexto marido assassinado aqui?

Não, é bobagem, - eu devo te-la cavado aqui e me esquecido por causa desses problemas que tinha passado, sim, era isso mesmo. - Dito isso fui para casa.

Não me lembro ao certo em que data foi, mas acho que foi numa tarde de Sexta-feira, ou melhor, já anoitecia, tudo parecia calmo, e eu me preparava para sair, desde estes últimos acontecimentos que nunca mais passeara. Tomei banho, arrumei e perfumei-me. Quando abri a porta e me propus a sair, vi que o tempo estava fechado, carregado de nuvens escuras acompanhadas de relâmpagos e pancadas de trovões.

- Mas que droga! Exclamei. Justo hoje que eu vou sair começa a chover.

Fechei a porta e sentei à mesa, quando ouvi a chuva desabar céu abaixo. Sem dúvida era uma tempestade torrencial carregada de raios e trovões, - os ventos eram tão fortes que faziam vibrar as portas e as janelas do meu casebre, confesso que fiquei com medo de ser um vendaval e de destruir o meu abrigo, ou até mesmo alguma sepultura. Olhei através do vidro da janela e vi que a ventania também envergava os grandes pinheiros e eucaliptos ao mesmo tempo em que arrancavam bruscamente as suas folhas.

Voltei e sentei na poltrona, que ficava em frente à porta de entrada principal da casa, fechei os olhos e fiquei ouvindo a chuva cair fortemente no telhado. De repente a porta se abriu violentamente com a força do vento, estava escuro lá fora, e conforme relampejava, por um instante, iluminava-se grande parte do cemitério. Uma imagem espetacular, apesar de assustadora, ainda mais quando se vive sozinho num cemitério.

Levantei-me para fechar a porta, e quando toquei na maçaneta para fechá-la, outro clarão iluminou tudo rapidamente, e eu vi uma imagem turva, que me apanhou de surpresa, e um assombro me empurrou para trás, não sabia quem era.

A pessoa, que ali estava, olhava-me imóvel, como se premeditasse algo. De repente um foco da luz de uma lanterna lançou-se sobre mim, e me encandeou. E eu, apavorado, gritei: - Quem é você? - O que quer de mim?

Mas o presente não me respondeu. Foi quando ouvi outro estrondo de trovão acompanhado por um clarão, então vi que a pessoa que estava parada ali à porta, era ninguém mais que Lady Lawanda West, a bela e fatal viúva-negra. Por um instante eu pensei: "-Este será o meu fim, a miserável escolheu aquela noite de tempestade para acabar comigo, é claro, para que mais ela viria até aqui se não para este fim?". - E quem a veria a caminho do meu casebre em meio à tempestade que castigava a cidade aquela noite?

- Lawanda West estava toda encharcada, segurava a lanterna com a mão esquerda, e na mão direita possuía uma pistola automática, toda cromada, calibre trezentos e oitenta, - eu acho. E a arma estava apontada para mim.

Parecia, - sei lá, transtornada, ou aterrorizada com alguma coisa, pois tremia quando falava, talvez também por estar molhada. Porém não falava coisa com coisa.

Levantei-me, acendi o abajur da sala, e temendo a sua reação perguntei a ela: - O que faz aqui a esta hora nesse lugar e com esta tempestade Lady Lawanda?

E com uma voz trêmula e entrecortada, que me arrepiou os pêlos do corpo, - ela aproximou-se, apontando a arma para mim e respondeu:

- Você é o culpado! - Você é o culpado seu miserável! - Foi você quem os mandou atrás de mim!

- Faça-os parar agora! - Diga para eles irem embora e me deixarem em paz! - Vamos! - Insistiu a mulher apavorada.

Eles quem, Lady lawanda? Que culpa? Do que a senhora está falando? - Disse eu.

- Não se faça de inocente, eu estou falando de Gordon, Oswald, Jack, Ted e Frank. Desde o dia que você esteve lá em casa eles não me deixaram em paz um momento sequer, nenhum dia, nenhuma noite, - eu não tenho mais sossego, - eles não param de me assombrar! - Faça-os parar! - Disse a mulher apavorada apontando a arma para mim.

Então é isto, é essa a vingança deles. Eu bem que a avisei para fugir Lady Lawanda, mas a senhora não me escutou, agora pode ser tarde! - Disse eu.

- Ora, cale-se, - disse a mulher aterrorizada e começando a atirar em mim. Não ouvi nenhum barulho de tiro devido à chuva, porém percebi que a mulher apertou várias vezes o gatilho, mas não havia balas no revólver. Então eu pedi-lhe calma, aproximei-me de Lady Lawanda estendendo-lhe a mão para conversarmos. - Calma, Lawanda, a senhora está muito tensa, tudo ficará bem, confie em mim, - venha, vamos conversar?!

- Não me toque! - Gritou a mulher golpeando fortemente na fronte com a arma.

Eu caí no chão com a mão na testa completamente grogue, e com a visão meio turva pude ver que tinha sangue na palma da mão, aos poucos eu sentia que ia perdendo a consciência, pois o golpe tinha sido forte e certeiro.

- Desgraçado, - eu vou matar você!Gritava a mulher freneticamente. De súbito, uma pancada de vento derrubou o abajur da sala permitindo que o local ficasse iluminado apenas pelos relâmpagos da tempestade. Quando novamente trovejou e abriu um clarão, por um instante, pude ver, mesmo com dificuldade, as imagens nebulosas dos espíritos de: Gordon, Oswald, Jack e Ted nos observando calmamente. Então se seguiu outro clarão, só que mais demorado, e através da porta entrou Frank Montgomery com o punho direito estendido e um sorriso assustador e triunfante!

E mais outro clarão prolongou-se, então Montgomery abriu a mão e as cápsulas das balas do revólver caíram no chão diante de Lawanda e de mim.

Eu permaneci ali, estendido no chão, paralisado de medo, e mesmo se quisesse, - ferido como estava não poderia fugir, e já num estado de semiconsciência, fiquei ali assistindo ao espetáculo de horror.

E, mais uma vez prolongou-se outro clarão, então percebi que os fantasmas cercavam a pobre Lawanda West, que de olhos arregalados e com a boca aberta de tanto pavor não movia um único músculo do corpo. E nisso, parou de relampejar e as trevas tomaram conta do recinto, e eu não vi mais nada. Por um instante, prolongou-se um silêncio profundo, e os meus tímpanos captaram apenas o barulho da chuva que caía.

Foi quando ouvi ecos de vozes, que pareciam um concerto de ópera, e isso, aterrorizou-me ainda mais, porque as vozes não eram humanas, e retumbavam na escuridão dizendo:

"-Lawanda, meu amor, minha vida, minha morte!"

"-Lawanda, eu esperei tanto por esse momento!"

"-Lawanda, não poderíamos morrer sem você!"

"-Lawanda, este é o seu fim, morra!"

"-Ah! Ah! Ah! Ah!"

E nesse instante, no meio dessas vozes, emitiu-se um grito agudo e pavoroso de mulher que ressonou nos meus tímpanos e cessou na escuridão. E um coral de gargalhadas triunfantes dissipou-se no meio das trevas, e eu, sem forças para reagir, senti-me desfalecer e perder a consciência.

Com a chegada da manhã do dia seguinte, de súbito, acordei como se despertasse de um pesadelo, com uma terrível dor de cabeça, a tempestade da noite passada havia cessado, a manhã estava linda e nem parecia com aquele horror passado. Fui ao banheiro, olhei-me ao espelho, estava com uma aparência horrível, e vi um corte na minha fronte. Peguei algodão e álcool e limpei o ferimento.

Voltei á sala, olhei para o chão, vi as manchas de meu sangue, o revólver e as cápsulas de balas. Não acreditei no que acontecera na noite passada, aquilo não foi um pesadelo. - Disse a mim mesmo.

Fui ao cemitério em direção às sepulturas dos maridos de Lawanda West. E ao chegar, descobri por fim, do que se tratava a vingança deles, e fiquei incrédulo e horrorizado com o quê vi: A cova vazia, aquela que eu não sabia quem tinha feito, e que ficava ao lado da sepultura de Ted Jacobs tinha agora uma nova oculpante:

O túmulo estava enterrado, com uma bela coroa de flores em cima, e no mármore da sepultura estava o nome de Lawanda West com a data de natalício e a de óbito dela!

A lápide está lá até hoje, foi coberta pelo lodo verde e o capim, pois eu nunca ousei exuma-lo para confirmar se o corpo realmente era o dela, tampouco, fiz questão de comentar este fato com alguém, - não acreditariam em mim mesmo e poderiam achar até que eu tivesse culpa no cartório. As pessoas acharam seu desaparecimento muito misterioso, um de seus criados falou que na noite de seu desaparecimento, ela saiu de casa muito aflita, nervosa, mas não disse para onde ia, desde então, nunca mais apareceu. Ninguém sentiu sua falta, ela quase não tinha parentes e amigos, e os poucos conhecidos não gostavam dela e por isso nem sentiram a sua falta. Apesar de muito bonita, ela era muito arrogante e desagradável, para muitos foi até um alívio o seu desaparecimento.

Além disso, quantos casos de desaparecimentos misteriosos de pessoas têm registrados aí pelo mundo à fora e nunca foram resolvidos, o de Lady Lawanda West foi mais um. Vai saber se os outros casos de desaparecimentos não foram de pessoas vítimas do sobrenatural, pois até hoje, às vezes, me arrepio porque tenho a impressão de ouvir os gritos de sofrimento de Lawanda West ressonarem nos meus tímpanos, vindos diretamente do inferno!

(Agosto de 2007)

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