A Garganta da Serpente
  • aumentar a fonte
  • diminuir a fonte
  • versão para impressão
  • recomende esta página

A noite egoísta

(Paulo Valença)

1

Da varanda, José vê o automóvel prateado afastar-se na avenida embaixo, entre os demais em número reduzido, na noite avançada. O que o seu filho faz de errado à noite? Com "patotinhas" em barzinhos, atrás de programas amorosos? Ou envolvendo-se com drogas? Como saber?

Introvertido, em seu mundo, o filho pouco fala. A quem o Gustavinho puxou? Sim, porque ele, José, e a mulher, Célia, conversam, comunicam-se. Já a outra filha, Nely, também se expressa através das palavras. Mas... ultimamente, anda preocupado com essas saídas do filho, pois, Gustavinho retorna alta madrugada, ou mesmo ao nascer do dia.

- Gustavinho, você precisa maneirar mais seus passeios.

Cabisbaixo, o filho não retruca. Em silêncio, Célia acompanha a cena, apoiando a repreensão.

- Concordo em você sair: é jovem, precisa de "curtição". Tudo bem. Mas, assim direto, com as noites cada vez mais violentas, com tantas notícias de crimes... É muito perigoso!

Gustavinho calado. Célia séria, sem falar. Ele, José, prossegue falando:

- Agora, eu e sua mãe, ficamos sem dormir... Pensando no pior!

O filho termina a refeição e, conservando o mutismo, ergue-se, cruza a sala, e sobe a escada, que o conduz ao quarto, onde se tranca.

Então, nervoso, suando, ele se volta à companheira:

- Está vendo? Gustavinho não fala, é um túmulo! E, de noite, sairá outra vez.

Solidária, ela busca lhe acalmar:

- Tem paciência, José. A mocidade de hoje em dia, é assim mesmo.

"É assim mesmo..." Deus queira que eu esteja enganado: isso, não irá acabar bem.

Silenciam. Então, a filha adentra:

- Bom dia.

Sorrindo, senta-se, e grita:

- Joana, o meu café!

Aí, percebendo o semblante dos pais, que não disfarçam a contrariedade:

- Estão de novo "encucados" com o mano? Gustavinho também...

Gorda, lenta, Joana avizinha-se:

- Bom dia.

Nas mãos, a bandeja com pão, café, leite, ovos fritos, salame, queijo, maçãs.

- Aqui, menina bonita!

A jovem sorri e estende as mãos, recebendo.

Apressado, José levanta-se:

- Bom... Por hoje,já basta! Deixe-me ir pra luta. Até mais tarde.

- Até, José.

Responde Célia e a filha mexendo o café:

- Ciao, paizão!

Em passos apressados ele cruza o ambiente. Fora, o sol ilumina a varanda, a avenida com movimento intenso e os edifícios altos.

Desce no elevador ao subsolo, onde se encontra o automóvel. Até quando o filho continuará nessa vidinha noturna? Ah, a gente cria os filhos com carinho e sacrifícios, para de repente, surgirem os problemas...

- Bom dia, doutor.

- Bom dia, Severino.

Responde ao zelador. Abre a porta, adentra. Liga o motor e o veículo subindo a rampa, ganha a avenida já movimentadíssima. Mais um dia inicia-se. Gira o botão e a música vence o interior do carro, fazendo-o se reentregar à rotina diária. Por enquanto, e mais tarde, com os problemas a solucionar, na companhia, esquecerá o filho. Contudo, à noite...

- Mas, já vai sair de novo?

Sem responder, cabisbaixo, Gustavinho ausenta-se. Célia torce as mãos, angustiada. Defronte, a televisão exibe a novela. No quarto, a moça estuda.

- Pelo menos, Nely tem juízo.

Agora, no terraço, com os olhos segue o carro, que se distancia na hora noturna, de resumido movimento.

- Para onde vai esse menino?



2

Os casais entrelaçam-se no jogo de carícias, na praia de vento frio, contudo, agradável. Os coqueiros dançam a folhagem ao afago da brisa. No calçadão, que se interpõe entre a praia e a avenida, de poucos carros e pedestres, mocinhas passeiam em dupla, ou sozinhas, em busca de "programas". São as "gorotas-de-esquemas". Veículos estacionam próximos ao meio-fio, com rapazes e "coroas" que vêm a fim de aventuras amorosas.

A dupla passa, e a lourinha reconhecendo o carro prateado e o seu ocupante encostado ao motor, volta-se à amiga:

- Vê, Negra: a "bicha" rica já chegou.

A morena fitando-o e, sorrindo:

- É isso aí: cada um, na "sua".

Então, prática, segurando o braço da amiga:

- Se apressa, galega que os caras estão no posto seis, esperando a gente.

- Falou, Nega!

Apressadas, seguem em frente, enquanto o outro com o olhar doentio, busca o próximo parceiro.

Indiferente ao que agasalha, a noite continua em sua caminhada dentro do tempo.

Egoísta, prossegue.

  • 1851 visitas desde 10/11/2009
menu
Lista dos 2201 contos em ordem alfabética por:
Prenome do autor:
Título do conto:

Últimos contos inseridos:
Copyright © 1999-2020 - A Garganta da Serpente
http://www.gargantadaserpente.com.br