A Garganta da Serpente
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O voo da borboleta

(Paulo Valença)

Henrique passou pela rua na qual havia a casa de terraço, porta e janela à frente e hoje, em seu lugar há o edifício que ocupa também o terreno que circundava a residência. E lembrou-se dos moradores da antiga casa: o avô e as duas filhas solteironas. Naquela época ele era um menino e, ao chegar, dirigia-se ao avô, pequeno, sentado numa cadeira de balanço logo à entrada da sala conjugada ao terraço:

- Bênção, vovô.

- Deus lhe abençoe.

A voz fraca, baixinha, o rosto cabisbaixo, as mãos entrelaçadas, e a cadeira na cadência impulsionada pelo corpo magro, de pernas finas, canelas alvas.

- Cadê o teu pai?

- Chega já, avô.

Respondia e cruzava a sala, a outra e, na cozinha, também falava às tias:

- Bênção tia Ângela; Bênção tia Antônia.

- Deus lhe proteja.

- Deus lhe abençoe.

Então, uma das tias procurava lhe agradar:

- Quer um docinho de leite, Henrique?

Sorrindo, ele aquiescia:

- Quero tia Ângela.

Sentava-se à mesa e aguardava o prato com o doce e o copo d'água que as mãos gordas lhe trariam, enquanto a outra tia mexia numa panela no fogão.

Fora, ao lado esquerdo da casa, os frangos no galpão cacarejavam impacientes, ante a hora de se alimentarem. E, a tia, pondo o prato e o copo d'água à mesa:

- Seu pai não veio não?

- Chega já, tia.

- É, porque está na hora da ração desses frangos.

O pai cuidava da criação dos frangos. O sol da tarde brilhava sobre a lagoa atrás da casa, um pouco afastada e que era vista pela porta aberta da cozinha. Logo findava o lanche e retornava à sala, onde o avô cochilava, na cadeira que se balançava devagar. Então, a figura do pai assomava à porta:

- Bênção papai!

- Deus lhe abençoe. Demorou hoje...

O pai se justificava:

- É, um serviçinho de última hora, mas, tudo resolvido.

O pai o fitava e ordenava-lhe:

- Henrique vamos pra o galpão.

Em silêncio erguia-se e acompanhava o pai baixo, forte, de andar apressado, em direção ao galpão, enquanto o avô permanecia cochilando na cadeira e, o pai:

- Seu avô está se "entregando"... Com o tempo ninguém pode!

Adentravam no galpão.

Tantos anos disso tudo. Parece-lhe não terem existido aqueles dias, com cenas que tanto lhe marcaram a existência...

- É, mas, eu as vivi.

Depois, o avô morreu vítima de um ataque do coração e em seguida, a tia Ângela, de câncer, e a outra tia Antônia, esclerosada, viveu ainda uns quatro anos, auxiliada pela negra Severina. E a casa herdada, com o terreno, o galpão e a lagoa, o pai um dia, vendeu.

- Já trabalhei muito. Já fiz o que tinha de fazer, agora, preciso de paz, descanso.

Ele, Henrique, rapazinho, conseguiu o emprego no banco através de concurso e, com sua mãe, D. Helena, acompanhou mais tarde a velhice do pai, cada vez mais magro, menor, assemelhando-se ao avô.

- Teu pai tá que é a cópia fiel do teu avô, Henrique.

- Também acho mamãe.

Aquiescia emocionado, sentimental. E buscava se ausentar da cena que lembrava a outra, bem antiga.

O pai pouco se alimentando... Em seguida, o diagnóstico do câncer na próstata. Os dias de angústia, a dor da família de presenciar a doença vitimando o enfermo...

Sim, meu Deus: há sempre o inesperado, para nos alertar do quanto somos pequenos, nos reduzimos na dor!

A mão nervosa busca o lenço e, apressada, enxuga as faces, na tentativa inútil de esconder o que as lágrimas dizem.

Ao seu lado, Celina, a esposa, finge não lhe ver o gesto, o disfarce...

O automóvel aproxima-se da residência murada. O portão então é aberto e o carro adentra.

Henrique salta. Mantendo-se silenciosa, Celina o segue. O que há com o marido? Algo o perturba: conhece-o bem. Mas, depois, com jeito, descobrirá.

Chegam ao terraço largo, onde a senhora de cabeça alva, balança-se na cadeira, com o olhar ausente, como se estivesse noutro mundo... Devagarzinho Henrique se chega e, curvando-se, abraça-a, em silêncio. Celina acompanha a cena, com os olhos inteligentes, entendendo. E respeitando o que presencia, desvia a atenção, seguindo com interesse a borboleta que pousa no jarro próximo e, intranquila, rápida, alça o voo.

Alça o voo.

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