A Garganta da Serpente
  • aumentar a fonte
  • diminuir a fonte
  • versão para impressão
  • recomende esta página

Criação

(Pam Orbacam)

Não chore, não tenha medo. Suas lágrimas são apenas urina fétida para Minha latrina sedenta e seu medo apenas revigora Meu corpo.

Seu repugnante sorriso é o motivo do Meu. Quanto mais ouço seu riso, mais lhe cobiço, mais lhe desejo. Como é tolo e vão o seu sorriso. É um eco no oco. Seu tempo é todo e infinitamente Meu.

Assisto anonimamente cada segundo de sua pútrida vida, como quem assiste a uma novela das mais estúpidas, pois sua vida é Minha assim como são Meus os seus restos e é todo seu o Meu afago e o Meu deleite. Essas são as distintas partes concedidas a Mim e a você na parceria da Criação. Ele apenas pinta em cores sua vida que foi desenhada com negro carvão por Mim.

Sua vida é uma simples construção de tijolo sobre tijolo sem cimento. São pedacinhos que petisco com prazer orgásmico. O mesmo prazer que certamente não terás em Minha companhia.

Seu passado? Foi-me concedido de inconscientemente de presente. Seu presente? Doce desmanchando paulatinamente em Minha boca. Seu futuro? Certamente Meu.

Veja como você está, é como sempre foi: pobre e ingênuo mortal em Minhas mãos desde seu surgimento. Cada ato seu foi meticulosamente ministrado por Mim. Mero fantoche. Meu domínio sobre você é assíduo e imperceptível.

Você sempre teve a ilusão dos seus cinco sentidos e a pretensão de posse do sexto. Eu sou o seu sétimo sentido, enquanto Ele benevolamente lhe concedeu seis. Como Ele é bondoso... Enfim, não pedirei desculpas por possuir a avareza como mais um de Meus infindos predicados...

Seus limitados seis sentidos não lhe levam a lugar algum, nem lhe fazem perceber ao menos o quanto você é inútil nesse mundo escrotamente sombrio camuflado aos seus olhos sob as mais diversas cores e flores.

Tudo é ilusório, como era pra você a Minha existência.

Você morre aos olhos dos mentecaptos e finalmente acorda para sua vil realidade, podre naco de carne.

Sonhar é bom... É tão bom que permiti que você sonhasse por quase infindo tempo, porém é chegada à hora de conhecer sua verdadeira origem e Seus dois Criadores (ninguém faz nada sozinho...) Um Deles você já conhece porque é intrometido demais para Meu gosto.

Mas agora, olhe para Mim. Olhe como o homem que você nunca foi.

Sinta meu cheiro. Inspira-o até o último sopro que lhe resta (este, mimo Meu, pacientemente reservado a você nesse momento). Ele arde suas narinas? Deixe-as queimarem...

Ouça atentamente a minha voz. Ouça-a. Você sempre quis tapar seus ouvidos a ela... Agora ouve... Ouve... Essa sim faz brotar saliva em tua boca, não?

Agora, venha até Mim. Aproxime-se. Estenda sua mão e peça-Me finalmente, e dessa vez a Mim, a clemência que não lhe será dada.

Muito prazer. Eu sou o teu outro Criador.

  • 2017 visitas desde 16/02/2008
menu
Lista dos 2201 contos em ordem alfabética por:
Prenome do autor:
Título do conto:

Últimos contos inseridos:
Copyright © 1999-2020 - A Garganta da Serpente
http://www.gargantadaserpente.com.br