A Garganta da Serpente

Pedro Moura

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A Dor da Entrega

(Pedro Moura)

Entrego-te o meu corpo renegando-te o espírito. Podes disparar essa arma, espalhar o meu sangue pelos cantos do quarto. E podes-me violar a seguir, mutilar ferozmente e comer-me as entranhas com molho bechamel.

O meu sexo pinga do teu sémen, estremece de frio em meio às pernas que se estendem inanimadas pelo chão. Ainda vivo, sei que do alto deste apartamento, desta jaula onde certamente perdeste o juízo por não conseguires viver com a solidão e com a dor da falta de liberdade, desta caixa de sapatos onde as peles mortas da tua consciência jazem abandonadas pelos cantos da divisões, sei bem que ainda vivo.

Não há-de ser esse gatilho que me há-de levar. O meu corpo não é nada, a entrega é um segredo mais antigo que o mistério da inteligência e do sonho. O teu caralho murcho desassombra-me, repõe-te na fragilidade que se esconde por detrás de uma arma, de um jogo de cordas que me prende os pulsos a esta cama sem lençóis.

És apenas um homem, um menino assustado abandonado pela mãe. Um produto inacabado e imperfeito. Não conseguiste assimilar todas os procedimentos, não és daqui, sentes-te indefeso e impotente.

Compreendo-te , não to levo a mal. A realidade, esta realidade mata.

Em meio á penumbra ténue que envolve este quarto vejo na tua cara a inocência perdida de quem foi obrigado a crescer. Sinto pena de ti, uma certa ternura pela tua figura patética. Quase que me apetece abraçar-te e sossegar-te o espírito. Tenho as mãos amarradas pela tua cegueira.

Se me querias, se me desejavas de forma tão psicótica, tão violenta, tão patológica, melhor teria sido pedir-mo abertamente.

Um tiro aqui trará os vizinhos, os vizinhos trarão a polícia, a polícia os juizes e o juizes a pena máxima. Além disso a tua consciência, que por pouca que possa ser, roer-te-á os olhos até ficares cego. É como te digo, o meu espírito é livre, não me custa dar-me. Nem à morte. Nem a ti.

Arrepias-me pela decadência sem estilo, sem classe, com que me violaste. Os teus gestos foram animalescos, o teu cheiro é uma mistura de micose e adrenalina. A descompensação que sofreste quando te vieste deixou-te aí, patético, encurvado, corcunda sensual com um pénis em cada mão. Deprimes-me, fazes-me agudizar a capacidade de empatia e de desprezo.
Juro-te sem nenhuma necessidade, bastava teres-me pedido e eu seria tua sem todo este festival de fantasia e de demência mental.

Que meteste tu na cabeça todos estes anos? Que pensamentos, que delírios maquinaste em silêncio, amordaçado por ti mesmo durante todos estes anos? Serei eu para ti o sonho perdido que nunca se realizou, a curva do destino que acabou repentinamente, numa estrada sem início sequer? A rejeição... como te tornaste nisto?

Como podes suportar o vazio em que estás agora, o sofrimento pela desilusão daquilo que mais querias? Tenho pena de ti.

Tudo, tudo o que vês, tudo o que sentes, tudo o que pensas, tudo isso só existe para ti. Eu só existo para ti, nas tuas masturbações escondidas, nos teus ataques de pânico em meio ao deserto que não soubeste aproveitar, às tuas mãos quando me forçaste o caminho da intimidade, à tua alma que julgava que assim me poderia ter. E tu não existes. És simplesmente construído pelo que te rodeia, dentro e fora de ti. Bem no centro não és nada, o vácuo que nunca foi sequer desvirginado pelo caos.

Podes-me ter fendido o corpo, podes ter maculado este templo em que poderias entrar sem arrombar os portões, se tivesses o nariz aberto. És homem, és estúpido. Julgas que é o corpo que me define. Este universo é-te imperscrutável, inenarrável. Este mundo é para os eleitos. Só uma pessoa me teve e só uma pessoa me terá. O meu corpo até podia ser vendido pelas esquinas cinzentas da cidade. A entrega nunca será total, a entrega do corpo é como o refluxo das ondas, gratuita e de uma violência consentida.

A tua violação mais me não causa além de uma profunda tristeza pela raça humana, por estas crianças do efémero e do eterno que insistem em partilhar todos a mesma pele podre.

A entrada do teu sexo em mim, a animalidade canina, a sofreguidão com que rapidamente ejaculaste dentro desta boca do corpo, não mais me provocou que desprezo. Nem repulsa, nota. O teu sexo é igual ao dos outros homens. Nada me perturbas. Nada.

Por isso dá lá o último passo e tem a coragem, uma vez na vida toma uma atitude, deixa esse indicador escorregar suave pelo gatilho, retira-me a esta vida.

Carrego já dentro de mim experiência e criação suficiente para a próxima vida. As minhas cicatrizes já me tatuam com a história do que vale a pena levar daqui. Sou velha, sou nova e sou eterna. Morra às tuas mãos, pois então.

Podes-me violar de novo antes do perecimento. Pessoalmente sempre achei a necrofilia um tanto quanto pouco higiénica. Não preferirás certamente foder-me morta quando me podes ter viva. Ou serás daqueles que costuma enrolar o sexo em grandes bifes para que a masturbação seja mais real? Um buraco onde te possas esconder do mundo? Anda, vem, possui-me uma vez mais.

Não escondeste de mim todos estes anos esse teu desejo avassalador? Não alimentaste com achas petrolíferas esse fogo imenso que te consumiu o espírito e te levou a este abismo? Sopra, pois então, ateia essas labaredas com um bocado de carne quente. Sente os meus pentelhos roçarem nos teus, vê as minhas mamas a ritmarem com os nossos corpos, beija-me a cara como se estivesses a beijar uma bola de futebol, sente nas tuas mãos as minhas ancas de mulher madura. Porque não me fodes também pelo cú? Nunca deves ter experimentado, aposto. Não sabes como é bom, apertado, a sensação de posse que os homens têm quando nos fodem pelo cú. Coitados, animais cegos e iludidos.

Que se passa, choras? Estas palavras que te digo saem-me mecanicamente. É o transformar de um acto marginal ao teu mundo numa obra de arte, no registo da realidade tal como ela é. Tens esse privilégio, aproveita, goza o momento, não te esvaias em baba e ranho.

Mas, que fazes, desamarras-me? Pedes-me para fazer amor contigo? Abomina-te ímpia criatura. Nem a força da loucura te consegue manter hirto e determinado. Estás arrependido? De quê? Já outros me violaram mais do que tu, descansa, e não o admitiram. Confesso que é a primeira vez que o faço com uma arma apontada à cabeça. Até isso é irrelevante. A vida é a morte a descansar, e neste momento a morte está à porta, acordada, a reclamar o que é seu de direito. És um puto grande, um grande puto com medo. Enterneces-me, já disse, metes-me pena.

Anda cá, meu estúpido. Bastava ter-me pedido e eu podia ser tua. Quem sabe se não seríamos o amor da vida um do outro. Tiveste a ousadia de ir contra ti próprio, de não ter a coragem de seres o que sentias. Arrependes-te agora do que não fizeste, matas-te com o ácido das tuas mãos humanas.

Anda cá, meu anormal, homem parvo. Deita-te sobre mim para que te possa abraçar, acolher no perdão sibilino que dou por dever de feitio. Chora lágrimas de grosso sal sobre os meus seios, molha-me os mamilos erectos e sente o meu corpo suado contra o teu. Sente o teu sexo a crescer contra o meu ventre, as palpitações de um desejo normal, os carinhos que te dou. Perdoo-te a violação do corpo.

Entra de novo dentro de mim, isso, diz-me que sempre me amaste, que perdeste a cabeça, que a solidão te enferrujou a mente e te corroeu a razão. Suplica uma resposta para a razão da minha partida, para o debandar das tartarugas que suportam os elefantes que suportam o universo. A razão é simples, fui para a terra em que as tartarugas se apoiavam. Por uma razão qualquer de que já me não lembro.

Entra dentro de mim, sente o meu sexo húmido e escorregadio, a lubrificação do teu sémen que tu confundes com o meu desejo. Mexe-me, toca-me, como vês sou tua, é fácil. Queres o meu corpo, tem-lo.

Faz-me vir com a tua falta de jeito, com essa tesão anormal de quem se reprimiu toda uma existência. Sente os meus espasmos. Agora sim, a lubricidade dos nossos corpos também tem o meu sumo, o suor mistura-se partindo dos dois corpos.

O medo impede-te de vir, não te preocupes, agarra-me com força, abraça-me, chama-me mãe ou amor, tanto faz. Concentra-te, não notes no meu braço esquerdo que te abandona e que se dirige serpenteante para o revólver com que me fendeste pela primeira vez.

Sinto o teu descontrole, vem-te meu amor, amo-te agora também, para a vida e para a morte. Tens-me, o meu corpo é teu, estamos finalmente juntos ao fim de tantos anos. Abraça-me, dá-me beijos de morte no pescoço. Os meus olhos estão largamente abertos, a minha mão dirige a morte para o porto das tuas têmporas.

Com o teu primeiro espasmo, o primeiro jacto de esperma quente que sinto na entrada do útero, rápido e forte, suspiro de satisfação e lambo com a impressão digital o clitóris do revólver, que se vem abundantemente para dentro da tua cabeça.

Podes ter o meu corpo. O meu espírito pertence a uma só pessoa, nunca poderá ser teu.

Olho pela janela e a aurora começa a fender a treva, rósea como o meu sexo sedento. Adormeço e acordo num sonho, no meio de um campo de girassóis alucinados que se beijam freneticamente.

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