A Garganta da Serpente
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Chuva de manhã

(Priscila Miraz)

O que é que tem o que é que tem o que é que tem na cabeça do piá o que é que tem o que é que tem o que é que tem na cabeça do piá. Do lado de fora a chuva começava a piorar. As duas crianças iam e vinham ao redor da avó. Impaciente, a moça de calça branca virava o rosto para o outro lado. Era fechar os olhos e sentir o mundo inteiro apertando o cerco à sua volta até lhe cair em cima. Mas era fechar os olhos e o mundo inteiro. Ergueu os ombros, descruzou os braços respirando de um suspiro que se contorcia espiral e furava. O que é que tem o que é que tem o que é que tem na cabeça do piá. As crianças não paravam de correr até a chuva e a mãe irritada ameaçava com voz molhada embargada muleque qué quio guarda ti prenda? e não adiantava por mais de um minuto. A umidade aumentava. Chegava cada vez mais gente com sacolas. Os cheiros de comida, de suor, de roupas lavadas e passadas que logo seriam trocadas pelas sujas com a sujeira lá de dentro, lá de dentro que tinha o cheiro desgostosamente tão reconhecível, todos com seus próprios cheiros que logo se neutralizavam e tudo era de um só cheiro de umidade e sujeira de tempos e tempos esquecidos ali sem renovação. Cada um que entrava era já o anterior e isso era o que dizia o cheiro dali estagnado e imutável. Quando chegava em casa depois de ter estado ali, lavava primeiro o filho pequeno e alegre, depois a si mesma, já sem chorar, com a frustração presa no jeito de olhar as coisas, com a impotência explícita no andar que era um eterno minuto sem saída, o eterno curto tempo do olhar que trocaram quando corria descalça pelo asfalto atrás do carro naquele começo de noite tão comum, tão ameaçadoramente comum, tão cheio de gente comumente olhando sua correria, seu desespero descalço na rua e o choro que contorcia o rosto, mas que não virava água de uma vez. Chovia e a velha avó continuava a ladainha o que é que tem o que é que tem o que é que tem na cabeça do piá o que é que tem o que é que tem o que é que tem na cabeça do piá. Olhou o filho sentado ao seu lado e que tinha esquecido por alguns minutos. Estava brincando com um pequeno carrinho de plástico. Tentava encaixar o retrovisor esquerdo que tinha se soltado na brincadeira. Não tinha dois anos e usava fraudas ainda. Quando entrassem teria que lhe deitar na bancada e abrir a fralda pra que a mulher seca lhe examinasse. Daí então seria sua vez de tirar a roupa e sentir o olhar duro pelo corpo e nunca nos olhos. Jamais trocou sequer um olhar com a mulher. Jamais lhe olhou nos olhos. Jamais lhe olharia nos olhos. Só o corpo, rapidamente, mandar agachar e levantar três vezes. Mandar se vestir novamente e assinar a lista. E nessa hora a criança impaciente, já não queria parar quieta ali na sala minúscula. A visão afastada da situação se sobressaía ao vivê-la e ela então segurava o nó da garganta com tanta força que travava a voz até estar de novo lá dentro, frente ao homem e sentir finalmente o enorme cansaço nos braços que já não tinham mais força pra carregar o filho, nos joelhos onde os ossos sobressaíam, nas olheiras de tantas infindáveis noites, e nos sentimentos esgotados, os sentimentos que foram se esvaindo, coagulando no entorno, requisitados para que suportasse pelos três mundos o que girava em turbilhão e os engolia. Carrinho entre os dedos, ele ainda lhe tentava encaixar o retrovisor, e balançava as penas pra frente e pra trás, pra frente e pra trás e a mulher perdeu o pensamento no movimento pendular dos pezinhos metidos em sandálias de couro castanho de moda já perdida. E o pensamento fazia desvios inesperados, entrecortado pelas vozes que aumentavam: os motivos, as faltas, o que não foi feito e o que foi, e os versos aprendidos voltavam como marteladas e doíam profundo, as saias verdes de renda branca, os tamancos e a blusa branca, a boneca pendurada pela mão e os versos saindo com a voz adulta dizia que nenhuma pergunta demanda reposta e que cada verso é uma pergunta do poeta o que é que tem o que é que tem o que é que tem na cabeça do piá o que é que tem o que é que tem o que é que tem na cabeça do piá.

Com um estalo seco a porta do corredor se abriu e começaram a chamar. O estalo e o grito do homem assustaram a mãe e o filho. Eles se olharam e sorriram cúmplices. Agora ela descia as mãos até os joelhos e tornava a subi-las várias e várias vezes tentando alguma calma. Arrumou as sacolas junto do banco, atenta. Daqui a pouco seria a vez deles. Em uma semana tinha acontecido muita coisa e tinha que se lembrar de tudo pra contar. A avó se levantava lenta chamando os piás, e com eles sumiu detrás da porta de ferro.

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