A Garganta da Serpente
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Hoje

(Petrus Evelyn)

Aquele homem decidiu realizar todos os seus sonhos. Parou, de repente, de ter medo de pensar e preguiça de agir no momento que queria, parou de adiar tudo que sempre desejou, pois antes deixava para outra hora e, no fundo, sabia que outra hora nunca chegaria.

Seu primeiro passo foi nunca mais dormir. O sono tirava a visão das belezas do mundo, e não queria perder mais nenhum segundo, nada, admiraria cada momento e riria de tudo o que fosse belo ou feio.

Deixou o emprego, não faria mais o que não lhe agradava apenas para sobrevivência, e tinha um pouco de dinheiro guardado que daria para viver por alguns meses. Quis conhecer a sua cidade, há tantos anos vivia ali e conhecia apenas os lugares que visitava com frequência. Decidiu sentir cada esquina, toda calçada, o calor das luzes dos postes acesos sem sentido, as ruas, as crianças brincando em perigo a frente dos carros, os velhos brigões jogando qualquer coisa debaixo de uma árvore, o cheiro de doença que contaminava vindo dos hospitais...

Depois disso, ficou insatisfeito. Parecia que agora que tinha coragem, não havia mais medo e os desejos antigos não eram mais desejados, só pareciam distantes quando ele não podia fazê-los.

Lembrou-se de uma garota do passado. Ainda era uma criança quando a viu pela última vez. Era linda. Mesmo que há muito não a tivesse visto, tampouco sabendo como ela estava, sentiu que ainda guardava muito amor por ela. Ao mesmo tempo lembrou-se de todos os seus amores e sentiu-se triste, por achar que todas elas nunca haviam terminado, mas havia algo que o ligava a todos que dizia não amar mais. Foi em busca da garota.

Lá estava ela. Ainda parecia uma criança, agora num corpo de adulto. Tinha um jeito desengonçado de caminhar e ele achou bonitinho. Hesitou antes de se aproximar, "Não tenho mais medo, esqueceu?", pensou. E continuou o caminho. Ela ouvia atentamente aquele homem se apresentar como alguém que a conhecia de muito tempo, mas nada disse, apenas ouvia e recordava de uma época que não lhe interessava mais. O homem achou-a um pouco gorda, mas tudo que percebia nela, defeitos e qualidades, o admirava e sentiu-se apaixonado como quando tinha cinco anos.

No começo, ela não lembrava dele. Achou que era um golpe de conquista de baixo nível, mas tudo tinha sentido (ela não sabia que ele também nunca mais mentiria). Apenas o nome dele que ela achou ser um pouco diferente, mas logo depois aceitou como sendo esse mesmo, já que não podia recordar o que imaginava ser.

Foram pra casa dela, naquele mesmo dia. Ela também havia se encantado e, tão carente estava, tantas relações mal-sucedidas que qualquer um que aparecesse seria paixão cega, logo queria saber mais sobre aquele homem que "esse será o certo".

No apartamento da menina, o vinho encurtou a conversa para a cama. Mas antes de algo acontecer, ele quis contar-lhe tudo. E falou e falou. Desde o princípio da sua vida até esse momento, quando os dois seminus perdiam a libido por causa de uma súbita vontade de contar.

"Não quero saber disso", pensou ela. E ele continuava, não queria mais nada além de falar tudo. Até a narrativa chegar no dia de hoje, quando ela achou estranha a repentina falta de medo e uma suposta liberdade incondicional, além dele não querer dormir nunca mais.

"Que vai fazer depois de me ter?", perguntou a moça agora assustada, seria mais um a abandoná-la e novamente veria a pergunta sobre o que há de errado comigo.

"Não sei", disse e virou-se. Ele não pensava em nada sobre o futuro, desde sua decisão, não queria mais pensar no futuro e não pensou. Faria uma coisa de cada vez, foi o que pensou, mas a pergunta dela o deixara intrigado, pois o fez pensar no depois.

"O que vamos fazer?", ele perguntou.

A pergunta a assustou. Agora ela fazia parte de todo o plano dele, e, mesmo estranho, queria ir junto. Não haveria mais volta, aquele homem que há poucas horas entrara na sua vida, não mais sairia e daquele momento estariam juntos para sempre.

- Vamos fugir.

Ele virou-se novamente para ela:

- Não posso. Você está aqui comigo, mas eu não estou aqui com você. Não posso ficar, nem partir com você.

- Por quê?

- São as condições da minha liberdade.

- Se há condições não é liberdade.

Ele levantou-se e saiu. Ao mesmo tempo em que ela gritava que ele não poderia sair de cuecas ouvia a porta da rua se fechando. Vestiu uma camisola, pegou um lençol e correu atrás dele, que estava parado logo em frente.

- O que vai fazer, então? - ela perguntou.

Ele nada disse, e saiu após ser coberto pelo o lençol, ela pensou que já se preocupava com ele e não queria que nada de mau acontecesse. Pensou por um momento e entre o seu apartamento vazio e um homem que mal conhecia indo embora mas que sabia mais dela que ela própria, escolheu o segundo, e sem nada levar, seguiu-o para onde fosse.

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