A Garganta da Serpente

Paulo Camilo

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O Cão

(Paulo Camilo)

Cheguei tarde. Como sempre havia de chegar. Procurava uma posição cômoda, onde não desse a entender que estaria em alguma fila. A cidade se mexia. Formigas incansáveis e exploradas a ir ao trabalho.

De bengala, suspensórios, topo grisalho (quase branco) trouxe seu corpo até o local. Ensaiava, fingia testar a resistência da madeira ao batê-la no chão.

Eu não havia dormido durante a noite, angustiado com o desfecho da avaliação que, afinal, poderia mudar minha vida. Talvez .Nem ficava preocupado com o relógio, instrumento antiliberdade.

Funcionário público, 20 anos, alto, imbecil. Funcionalismo serve para que, senão vegetar às custas dos contribuintes? (minoria entre sonegadores). Todos funcionalizavam publicamente, então porque também não poderia eu fazer o mesmo? Me enquadrei contra minha vontade a esse regime especial de trabalho. Portanto os atrasos para mim eram supérfluos. Que diferença faria uma horinha a mais?

O velho veio com o olhar em minha direção com uma cara de interrogação. Olhou por muito tempo. Disfarcei. Ele pregou os olhos no chão.

- Tá morto?

- Não sei. Acho que não. - respondi desinteressadamente.

Não satisfeito tocou-o, a princípio de leve, duas ou três vezes. Tocava e se voltava a mim. Progressivamente cutucava com mais força, e com mais força. E ele lá , sem se manifestar, ficava simulando sono. Aquilo estava se tornando um massacre, uma covardia. Estava me enervando a tal ponto que não puder continuar com minha simulação de indiferença.

- Tá morto! - convicto disse.

Comecei a acreditar no velho, agora de olhar sério, fixo. Era verdade. Notei que a pele do animal estava opaca, a orelha ereta. Mas parecia dormir tranquilamente. Engraçado é que não havia moscas, mosca alguma. Se é normal encontrá-las em vira-latas vivo, imagine morto. As moscas também se emocionaram.

Uma mão tapou a viseira do garoto que espiava perto. Já se podia sentir o suave cheiro sepulcral, demonstrando a proximidade do falecimento. Teria sido na noite passada, na madrugada talvez.

Sua morte foi natural, pois não apresentava marcas daquelas comuns a um guerreiro, que luta contra a fome e sede todos os dias. Queria acreditar que não havia sofrido.

Eu lá e ele cá. Como doía! Aquele chão frio, aquela armação de cimento paupérrima que provavelmente ele teria usado para fugir do sereno. Papéis de balas e bitucas de cigarros baratos forravam seu leito lúgubre e silencioso.

Nesse momento um garoto de bermuda e mochila atravessava a rua; lembrei de Marquitos, o campeão da nossa gente, a esperança de um povo sedento por medalhas de ouro e de prata. Marquitos esportista se acidentou depois de um treino. UTI: coma dos graves. Paralisado como a flor de plástico que a mulher banguela vendia na rodoviária. Tive vontade de chorar.

O idoso já havia se afastado. Eu não, pelo contrário, tinha vontade de me aproximar, acudi-lo, enterrá-lo. Queria poder carregá-lo no colo, dar-lhe um bom banho, uma refeição de restos de arroz com feijão. "Vai brincar, Totó!" Covardemente o deixei lá. Não era nojo, não, bem que eu poderia tê-lo ressuscitado. Dizem que aquilo que a gente quer muito acontece. Mas não. Larguei o coitadinho lá.

Entreguei o bilhete e avisei ao motorista. Tratei-o de "cão morto debaixo do banco". Antes do ônibus partir, dei uma última olhada. Já eram oito horas e o povo se aglomerava na lotérica e nos bares. E a mulher banguela vendia flores de plástico.

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