A Garganta da Serpente
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A ordem da herança

(Paulo Valença)

1

No banheiro, ela analisa seu rosto no espelho sobre a pia.

Os traços corretos, as rugas acentuadas nos cantos dos olhos, dos lábios, na testa larga. O olhar tristonho. Os cabelos grisalhos. As pregas no pescoço...

- Tou velha.

Fala, dando voz à conclusão realista do que vê e sente.

Devagarzinho então penteia a cabeleira curta para trás. Saber que um dia foi jovem, despertava atenção, principalmente dos homens, teve sua glória feminina... Mas, assim é a vida, com seus caminhos diversos, traiçoeiros. E amanhã, completará 62 anos!

Sim, está velha. E tem de encarar isso com naturalidade, não se deixar abater, não se...

Aí ouve o ploc-ploc-ploc dos dedos da filha na porta, numa indagação, num receio...

- Mamãe tudo bem?

Responde sorrindo ante a preocupação da Glorinha, a filha:

- Tudo certo.

- A senhora demora...

- Tou indo. Tenha calma.

- Sim.

Abre então a porta e se depara com o rosto da adolescente. Moreno. Os traços bem definidos. Os olhos grandes, negros. Os cabelos também negros, lisos, curtos. A sua imagem de quando tinha a idade da filha. A repetição, na ordem duma continuação.

- Pensei que a senhora tivesse sentindo aquela frieza pelo corpo.

- Nada não, tou bem e... Não vai trabalhar hoje não?

- Vou mamãe, já tou de saída.

- Certo Glorinha. E o seu irmão?

- Ele tá ainda dormindo. Tchau!

Em passos apressados a mocinha vence o corredor estreito, a sala conjugada e abrindo a porta e passando, fecha-a por fora.

A mãe se encaminha à cozinha. Preparar o café, fritar ovos, assar pão e chamar o filho Heitor, que ultimamente anda falando muito pelo celular, chegando pela madrugada, dormindo até tarde da manhã, nervoso, evitando ela, sua mãe, a irmã e o pai, Seu Ernesto. Mas...

- Basta de encucações!

Talvez o que pense, julge, não passe de pessimismo. Sim, a realidade de hoje é completamente diferente de sua época. Os tempos são outros. A evolução. A liberdade, a falta de controle em tudo.

Avizinha-se do fogão e acendendo-o, põe a chaleira com água e o pó do café.

Ah, se tivesse com quem desabafar seus problemas, se

contasse com o Ernesto, que num egoísmo bem seu, cuida apenas de si, indiferente à família, contudo, ele também envelheceu. Está outro.

- Está "noutra".

Será que Ernesto ainda está na varanda? E encaminha-se ao terraço defronte da residência, para saber se o marido está na cadeira de balanço, no hábito de todas as manhãzinhas.

Chega. E vê o corpo magro, de camiseta branca, a bermuda azul, folgada, os braços e pernas finas, brancas. O rosto cadavérico caído sobre o peito ossudo. Cochilando. Então sensibilizada com a imagem decadente do marido, retrocede ao interior da casa. Fugindo num gesto covarde, contudo, necessário à força própria de enfrentar a própria realidade. Que o Ernesto cochile. Adormeça mesmo. Ausente-se de tudo, pois o que lhe resta na velhice?



2

No banheiro.

O espelho sobre a pia. Analisa-se. Os traços corretos. O cabelo negro, ficando grisalho. As rugas que se acentuam nos cantos dos olhos, dos lábios, na testa larga e no pescoço.

Sim, procede à semelhança de sua mãe, naquele tempo, de quando mocinha saía às manhãs para trabalhar e que receando que a mãe estivesse sentindo algo, devido à demora em deixar o banheiro, batia na porta, chamando-a...

Uma repetição, como uma herança.

A mãe que teve um infarto repentino que lhe tirou a vida, já então o seu pai, Seu Ernesto, não mais vivia, vítima que fora de um carro, ao sair de casa, na calçada. E o irmão, o Heitor? Como a mãe e ela mesma suspeitavam envolvera-se com a droga e não demorou a ser assassinado por um motoqueiro ao entrar na rua tarde da noite.

Sim, no mundo do tráfico, a lei é a execução aos que não cumprem com a palavra, não quitam seus débitos. Tanto tempo disso tudo! É como se o seu passado tivesse sido um filme assistido. Cenas se sucedendo, tudo numa sequência rápida.

Devagar, penteia os cabelos finos curtos para trás. A vista se nublando. E o repentino ploc-ploc-ploc dos dedos aflitos da filha, na porta.

- Mamãe?

Passa o dorso da mão direita sobre a vista num gesto de

enxugar as lágrimas e, num supetão, abre a porta.

- Sim?

- A senhora demorando aí... Tudo bem?

- Tá filha. Tudo bem.

Então sem se conter abraça o corpo magro, esguio da adolescente, que recebe esse gesto sorrindo, como se de súbito entendesse... Tudo entendesse.

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  • Publicado em: 15/05/2017
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