A Garganta da Serpente
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Ela & ela

(Olympia Salete Rodrigues)

INTRODUÇÃO

Aline, minha mais querida amiga, tem um namorado incrível. Eles se amam verdadeiramente. Ela gosta de saber de suas fantasias e faz tudo para realizá-las e torná-lo mais feliz na cama. Mas eis que ele acaba por lhe revelar uma fantasia que guarda há muito tempo, sem coragem de contar. Fantasia Aline na cama com outra mulher. Pede-lhe que ela fantasie essa situação e lhe conte. Ela se perturba com isso. Não tem mesmo o menor pique para essa fantasia. Não tem preconceitos contra o lesbianismo, mas nunca se sentiu atraída por uma mulher, nunca desejou mulher nenhuma. Até chegou a pensar em ter uma experiência dessas por imaginar que seria enriquecedora. Mas só o faria se se apaixonasse. Isso era condição sine qua non, pois ela não aceitava qualquer aproximação sexual sem o apelo do amor. E justamente por isso, pelo apelo do amor, resolveu tentar a fantasia sugerida pelo homem que ama. E pôs-se a escrever o que lhe vinha à mente. Ela mesma nos contará como isso aconteceu.



A HISTÓRIA NARRADA POR ALINE

Meu namorado pediu que eu transasse uma mulher, nem que fosse em fantasia... Argumentou: isso o excitaria... Esse meu namorado tem cada uma!... Achei que era impossível, mas resolvi tentar. Primeiro me concentrei na figura de uma mulher que pudesse me atrair... Encontrei... Tento concretizar...

É uma mulher madura, muito simpática, bonita até... gordinha, como eu gosto... gosto muito de apalpar carnes macias... sorriso meigo... olhar distante e sonhador... voz rouca e suave... seios fartos... conjunto bem sensual... E lésbica convicta...

Conto a ela a verdade: por que estou ali... sinceramente quero curti-la... não sei por onde começar... nunca soube o que fazer com uma mulher na cama... posso até fazer feio, mas quero tentar... sou hétero até a raiz do cabelo, mas quero dar esse prazer a mais para o meu namorado... levo sempre a sério qualquer fantasia... e acho que as barreiras que estão em mim devem ser derrubadas... quero experimentar todo o prazer que está latente em mim... quero vencer e botar pra quebrar inteiro o superego...

A companheira ao meu lado me ouve com atenção... Entende meus propósitos e minhas dúvidas, diz isso balançando a cabeça e sorrindo, assim, de certa forma até convencida porque sabe que domina o assunto e as tramas todas do ritual...

Digo o que penso do lesbianismo. Nenhum preconceito. Imagino que o prazer sexual e todas as emoções da relação levem a uma realização inigualável, pois são duas mulheres e as fêmeas foram dotadas de uma sensibilidade especial. Imagino o que seja o entendimento entre elas, dispensando as palavras, comunicando-se pelas carícias e pelas reações às carícias. Para mim, essa a maior vantagem da transa entre pessoas do mesmo sexo, homens ou mulheres, mas mulheres mais ainda pela dádiva real da sensibilidade mais apurada.

E enquanto eu falo, sempre com um traço de preocupação e até de medo, nem percebo que a companheira já me inicia...

Foram carícias que começaram pelo meu rosto e pelos meus cabelos... ela parecia uma cega querendo descobrir meus traços pelo tato lento e delicado... em seguida acariciou meu pescoço, meus braços, segurou firmemente em minhas mãos... sensação estranha em mim... as mãos macias me seguravam como se nunca mais fossem largar... senti com isso uma certa segurança... foi me puxando de encontro ao seu corpo... senti um calor confortante no contato com seus seios... percebi de imediato meu corpo respondendo ao seu... sentindo minha aceitação, ela avançou as carícias por minhas nádegas, as coxas, voltou aos seios, tudo por cima da roupa... depois, carinhosamente me fez deitar e, com mãos decididas, acarinhou levemente todo o contorno de meu corpo... entre encantada e assustada eu sentia a excitação que me tomava inteira... até então eu estava parada, passiva, ainda temerosa... no momento seguinte a excitação exigia movimentos... comecei a me movimentar, ainda timidamente... quadris, pernas... senti meu corpo se entesando e inteiro reagindo... e os suspiros e gemidos se fizeram ouvir, para meu espanto. Ela se levantou, meio brusca, se afastou da cama e ficou me olhando sem pressa... senti desejo em seus olhos... mas o olhar era muito meigo, parecendo querer me tranquilizar e pedir que me entregasse. Ergui meus braços em direção a ela, nada falei, mas ela entendeu e se aproximou. Sem nenhum contato além das mãos, começou a me despir. Me ajeitava como queria, sempre lenta, tirou meu vestido e ficou me contemplando... tirou-me o sutiã enquanto me abraçava sem me pressionar... deitou-me na cama, beijou docemente cada um de meus seios... eu reagi e me pus a gemer e a fazer os movimentos do desejo que aflorava forte em mim... só então ela tirou-me a calcinha... eu, já não tão passiva, ajudei... ela se inclinou, beijou meus pelos, abriu um pouco minhas pernas, mergulhou seu rosto entre elas e me cheirou demoradamente... soltei meu primeiro grito, me agitei inteira... falei pela primeira vez: "faz comigo... faz comigo... faz tudo o que sabe fazer com uma mulher que te deseja"... Ela se levantou e se despiu... depois deitou-se ao meu lado, meio inclinada, parte do corpo sobre o meu... eu a abracei, queria ousar, mas não tive coragem... ela sentiu e me apertou... ficou um tempo parada, apenas aumentando a pressão daquele abraço... dentro de mim o desejo era perfeitamente igual ao desejo que sinto por um homem... pensei em meu namorado... isso me confundiu um pouco, perdi a concentração, já não sabia tão bem o que estava fazendo... ela percebeu e tratou de me trazer de volta... manipulou docemente meus seios, sugou-os com avidez... desceu a mão para meu sexo e afagou meu clitóris... então gemeu, coisa que ainda não acontecera... foi para o pé da cama, abriu decidida as minhas pernas, mergulhou seu rosto em minha genitália e se pôs a lambê-la, a chupá-la com vigor, sua língua em meu clitóris me levava quase ao gozo, eu já gemia alto, pedia mais... eu estava deitada de costas, e ela, ainda me sugando na frente, ergueu minha bunda, acariciou-a e deu-me um toque anal com os dedos... um deles penetrando uma pontinha... estremeci... ela aproveitou esse momento de meu êxtase e penetrou um, depois dois dedos em minha vagina... senti a sensação de um pênis entrando em mim, tal a arte de seus movimentos... num instante gozei e urrei de prazer... e ela apenas dizia: "goza, minha flor, goza, goza!" e não parou, sentiu que eu ainda tinha mais a gozar... continuou os movimentos dos dedos, colocava e retirava e colocava de novo... e de novo o clitóris e de novo a vagina... eu rebolando na cama e suplicando por mais e mais prazer... ela, incansável, me dando um prazer profundo que eu não conhecia... até que gritei e gritei de tanto gozar!... Fiquei mole, largada na cama, olhos fechados, lembro-me que sorria... senti que ela se aconchegava a mim, me abraçava... só então colou seus lábios aos meus... aquele beijo me pareceu selar um amor que tanto me assustara e que eu queria agora... nada ela disse depois, apenas ficou velando o meu descanso, no suave calor de seus braços.

Dentro de mim, os sentimentos eram revoltos... a lembrança viva de meu homem... dúvidas e certezas se misturavam... um pouco de medo ainda... custava a acreditar que eu tivera aquela experiência justo a pedido de meu namorado... mas a paz que eu sentia se sobressaía a tudo mais... sim, aquilo era paz. E não sei por quanto tempo ficamos assim. Adormeci.

Acordando, encontrei-a na mesma posição. Enlacei seu corpo docemente. Lembrei cada um de seus gestos, tentando repeti-los. Ainda meio a medo, mas convencida de que podia. Pensando, sorri: eu já sabia o que fazer com uma mulher na cama... Mas, diferente dela, comecei pelo beijo, beijo longo que lembrava paixão, suguei sua saliva com sede verdadeira, ela correspondia e começou a gemer... Desci para seus seios e os apertei nas mãos, depois contra os meus. Emocionante esse encontro seios com seios. Cada uma de nós sabia exatamente o que a outra sentia. Ajoelhei-me ao seu lado e acariciei devagarinho todo o seu corpo. Chegando ao sexo relutei... não me senti preparada para lambê-lo e sugá-lo. Percebendo meu vacilo, ela disse: "faça só o que lhe agrada, o que lhe dá prazer, o que realmente quer fazer". Incrível mulher, nada egoísta, sensibilidade à flor da pele. Obedeci, agradecida. Ainda não era hora, eu sabia. Mas minhas mãos não se negavam e eu lhe dei prazer com elas. Tocar um sexo feminino que não o meu... a mão macia e possante de meu namorado... senti a perturbação e a venci... toquei de leve, suaves carícias... ela começou a vibrar, parecia em desespero, e isso me animou... dei-lhe o prazer que me deu e penso até que um pouco mais... foi muito comovente vê-la delirar, explodindo em gozo aos meus toques que foram ficando fortes, decididos, querendo dar tudo de mim. Ela gozou três vezes em minhas mãos... Estava tão cansada quanto eu ficara há pouco, mas ainda teve ânimo para um gesto de nobreza: tomou minhas duas mãos nas suas e disse: "você foi maravilhosa! é uma privilegiada, de agora em diante pode curtir tudo: é hétero e lésbica... orgulhe-se disso."

Eu estava orgulhosa. Pensava em me vestir. Mas, antes, convidei-a a se levantar e me dar um abraço. O momento de ternura: corpos nus se abraçando num gesto que era entrega e despedida. Assim ficamos por um longo tempo.

Ao me despedir, dei-lhe um demorado beijo e a ouvi dizer: "agradeça por mim ao seu namorado e seja sempre você mesma"... Sorrimos. Ainda sua sensibilidade: sabia que era ele que eu amava.



EPÍLOGO

E assim, Aline realizou a fantasia do amado... E, para ela própria, isso fez muito bem. Foi interessante vencer barreiras de sua consciência e, ao mesmo tempo, sentir que o lesbianismo não era mesmo uma orientação em sua vida. E foi especialmente gratificante constatar a explosão da sensibilidade feminina que se sobressai em toda a sua narrativa. Aline consegue mostrar que o amor independe de qualquer condição, seja de cor, de idade, de classe social, de crença ou descrença e até... de sexo.

Atingiu seu objetivo: seu amor pelo namorado ficou reforçado pela experiência fantasiosa. Ele vibrou com seu relato e seu amor por ela só fez aumentar.

E ao ouvir essa história bonita eu concluo que, realmente, realizar fantasias na fantasia é um exercício muito saudável no amor! Afinal, foi do amor o milagre que Aline realizou nessa adorável fantasia...

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