A Garganta da Serpente
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A mulher da janela

(Odete Ronchi Baltazar)

Quando ela chegava na janela ninguém conseguia saber, mas ela estava sempre lá: no amanhecer, no anoitecer, na hora do almoço, na hora da janta. Será que ela não comia? Alimentar-se-ia somente da visão dos passantes? Da neblina da manhã ou, (quem saberia?) das nuvens gordas de chuva?

O fato é que ela estava sempre lá, debruçada na janela, imóvel. Imóvel não, as mãos mexiam. Eram inquietas e ora estavam juntas, como que rezando, ora estavam ajeitando os cabelos longos e grisalhos. Nunca sorria. Os olhos distantes em algum ponto das montanhas distantes.

Via-a todos os dias, eu era menina, e aquela rotina dava a certeza de que estava tudo bem na casa da mulher da janela. Teria ela algum problema? Talvez fosse paraplégica, ou manca, ou...e eu fazia todo o tipo de conjecturas. Tinha uma menina, como eu, mas que vivia fora dali, com a avó. E o mistério era ainda maior para mim.

Um dia, deixei tardar minhas tarefas diárias obrigatórias que eu tinha em casa e fiquei observando-a discretamente. Ela saía, sim, da janela. E cheguei a vê-la no jardim, debaixo dos ciprestes que faziam sombra no caminho da entrada da casa. Ela estava recolhendo as folhas secas e chegava a se confundir com elas: pálida, descorada, desgrenhada como os gravetos secos. Então ela tinha pernas e vestido e sapatos...um corpo completo. Era estranho vê-la assim: inteira. Não parecia a mesma mulher. Não tinha mais mistério algum. Era como qualquer uma: feia, esquisita, normal.

Desinteressei-me completamente pela figura da janela. Cresci e fui morar noutra cidade. Anos mais tarde, quando voltei para minha cidade, perguntei à minha tia o que era feito da mulher.

-"Está fazendo ano que ela morreu. Um raio caiu-lhe na cabeça. Sabe que ela ficava sempre na janela, não é? Era a diversão dela. Não via tv nem visitava ninguém, não lia. Só ficava na janela matutando. Pois é. Dia de temporal feio. Chuva, vento, raios, trovões e ela ali. Não deu outra. Puxou raio só com o olhar. Caiu ali, mesmo. Queimada inteira. Agora quem fica na janela é a filha dela. Herdou a casa e o costume da mãe. Se quiser pode ir lá ver. Está lá, agora. Igualzinha.

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