A Garganta da Serpente
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O Pós Punk em:
A mulher que nunca veio
Mas que por vezes esteve
E sempre se foi

(Orlando Nascimento)

O perfume ainda ronda o quarto como alma distorcida em busca de conforto espiritual. No cinzeiro, as cinzas, fiéis companheiras nas horas de solidão. - Mas uma dose? - pergunto a mim mesmo, enchendo mais uma vez o copo.

Talvez entre a gente houvesse muito mais do que apenas sexo. Sempre achei, mas tinha um certo receio em dizer-lhe, por talvez ela vir a rir de mim ou eu mesmo começar a gaguejar na hora de falar. Ainda lembro como foi difícil chamá-la para dançar na festa onde nos vimos pela primeira vez. A música lenta já estava no fim e eu sabia que seria a primeira e única, pois a festa era de punk e punk não gosta de mostrar seu lado sentimental as pessoas. Não se quer fugir das leis de guerrilha, mas então chutei o chão e fui em frente. Perguntei se ela estava a fim de dançar e respondeu pegando em minha mão. Atrapalhei-me com os pés, não sabia para que lado ia, ainda pisei nos seus algumas vezes. O coturno também não ajudava.

Não sei se fui eu ou ela, mas um de nós teve a ideia e fomos sentar no meio fio do outro lado da rua. Entre minhas pernas uma garrafa de vinho barato. Fedia eu a suor, corria água pelo esgoto. A luz fraca do poste mostrava com evidência meu cabelo mal cortado; a camisa suja dos Pistols que eu não tirava fácil do couro.

Eu perguntei o que achava da música que naquele momento se ouvia e ela não disse nada, então fiz o mesmo. - Eu ainda não sei o seu nome, - diz ela olhando para o chão, achei que fitava o vinho. - José, mas pode me chamar de Ropgo.
- Ropgo?!
No mesmo instante ofereço vinho, ela diz que não e agradece, aproveito e pergunto seu nome. - - Sophia, com ph, frescura da minha mãe. Risos.
Aparentava ser uma burguesinha. Carro de papai nos finais de semana. Cabelo meio longo, escuros. Nos seus lábios finos, batom vermelho. Pronunciava bem as palavras, puxava pelos "esses". Sua boca pequena.

De repente ela estica a perna, como se tentasse, talvez, colocá-la do outro lado da rua. Tira do bolso da calça jeans, uma caixa de fósforos "Fiat lux". Notou perfeitamente que eu a observava, mas nada falou. Olha para os lados e encolhe de volta a perna. - O que foi? Pergunto. No ato ela diz - Nada. Tira de dentro do sapato um cigarro sem filtro. Calmamente acende e dá um trago. O cheiro anuncia a boa qualidade do produto. - Toma, fala ao mesmo tempo que estende o braço. Não pensei, apenas olhei nos seus olhos e peguei. Traguei fundo. Ela sorriu e lhe passei de volta. - Você trabalha? Pergunta ela encostando-se em meu ombro. Respondo que não, ela traga novamente e me entrega. - Por que? Pergunto sem muito interesse, dando outra puxada. Respondeu-me - Por nada - e ficamos nos olhando, frente a frente, bem próximos. Ela me diz que não, que não fizesse aquilo que estava pensando, mas na verdade naquele momento não pensava em nada, apenas olhava seus olhos vermelhos, talvez como os meus. - Vai, pode fazer. - diz serena, tragando fundo, logo depois estávamos nos beijando.

Não lembro como, mas deixamos o cigarro cair no esgoto. Ela me pede para esperar e o procura. - Vou levar para enxugar, diz ao encontrar o cigarro na água e colocá-lo de volta no sapato. Nos olhamos. O sorriso vem primeiramente dela. Voltamos a nos beijar.

Passamos muito tempo juntos.

Nossa primeira briga, foi por causa de um disco dela (The Clash Sandinista) que eu arranhei. Ficamos duas semanas, três dias e cinco horas sem nos falar.

Queria escrever um livro sobre sua vida. Achava-se a única criança no mundo que com três anos de idade, já fazia suas necessidades no pinico e não sujava os dedos na hora de limpar-se. Denominava-se excepcional por causa disso e de outros pequenos motivos.

Alguns diziam que éramos meio loucos. Nos bares sentávamos próximos e por baixo da mesa ficávamos acariciando nossos sexos. Adorava quando ficávamos em pé, namorando e eu podia passar a mão em sua bunda. Ia até embaixo, colocava minha mão entre suas pernas e ela as prendia. Dizia sempre para que não fizesse aquilo, mas era um não tão sim que eu não conseguia parar.

Mas, talvez, o destino ou se existir aquele que nos rege, nos traz a viver outra separação. Não sei se vai ter volta, se ela vai sentir saudades e de repente vai entrar por aquela porta com um cigarro para a gente fumar. Com sua vida de volta para que eu possa nela voltar a viver.

A verdade é que agora, apenas, só sou eu e o gosto dessa bebida que se faz amargar. Ë, os metaleiros também amam, né, Língua de Trapo? O pior é que os punks também.

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