A Garganta da Serpente
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Ao sul do Equador

(Olga de Moura e Mello)

Encostou-se, era fim daquela festa estranha, crianças berrando, pulando na piscina, ele fumando, a vida meio nublada, quase tudo limpo, ainda de biquíni, enrolada na canga mais linda de Bali, tão longe da Indonésia, aqui, no Atlântico Sul.

A porta de vidro não aguentou, os convidados saíram cedo, crianças chorando, tentando voltar para a piscina, ele sério, céu escuro, a cadeira quebrada, sonolenta, bebendo a última cerveja possível, a umidade sufocante do verão.

Caiu de costas, vidro estilhaçado, crianças gritando, saindo da piscina, ele histérico, começou a chuva, a cerveja escorreu junto com os cacos, coração disparado, o chão escorregadio, a varanda sempre na penumbra.

Apoiou-se nas mãos, olhares furiosos do velho, crianças falando, entrando no banheiro, ele com a vassoura no chão, chuva de vento, um filete de sangue correndo ao lado da espuma da cerveja, rajadas trazendo água e mais calor.

Levantou-se sem ajuda, cotovelo arranhado, crianças chamando, pulando no chuveiro, ele juntando cacos com pá, um toró desabando lá fora, farpas beliscando a pele, a água clorada faz os olhos arderem.

Secou as crianças, lasquinha de vidro num dos ombros, crianças choramingando, chutando os lençóis, ele cochilando na poltrona, chuvinha fina, sangue estancando, dormindo enrolada na toalha.

Acordou cedo, telefonou para o vidraceiro, crianças cantando, saindo para o jardim, o olhar raivoso do velho, ele acompanhando o trabalho do operário, céu azul, sol causticante.

Pagou o serviço, era o fim daquela vida estranha, crianças chilreando, entrando no carro, a imagem dele no espelho retrovisor, acenando de longe, pegou a estrada de biquíni para não sufocar no verão ao sul do Equador, dia nublando, com possibilidade de pancadas de chuva no decorrer do período.

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