A Garganta da Serpente

Osvaldo Mazzullo

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Vida: inconsciência da morte

(Osvaldo Mazzullo)

Cheguei em minha casa no horário de sempre. Fiz as mesmas coisas que a comodidade inconfortável da rotina me obriga. Pus as chaves sobre a mesinha que fica próxima a porta principal do apartamento, por onde entrei; tiro os sapatos ali mesmo. Ao passar pela mesa da sala de jantar deixei minha camisa por sobre uma cadeira e gritei por alguém...Ninguém em casa.

Aproveitei minha completa solidão ali para relaxar. Comi algumas sobras do almoço, restos da rotina que insiste em me perseguir, e fui para o meu quarto, mantendo as luzes apagadas. Prefiro assim...

Pus uma música - Enigma, uma ótima banda - e sentei em minha poltrona. Lentamente fechei os olhos, recostando a cabeça no conforto de meu trono. Meus músculos foram, um a um, relaxando, como se cada fibra fosse estirada; como se cada sinapse fosse desfeita. E lentamente fui adentrando àquele estado de transe, em que não sabemos ao certo se estamos dormindo ou acordados.Àquele ponto em que os sentidos nos traem. Logo tive uma estranha sensação de que meu corpo começava a perder contato com o couro da poltrona, como se flutuasse, inclinado-se para trás; comecei a sentir todo meu corpo formigar. Senti um enorme calafrio, que me forçou a abrir os olhos. Tudo normal. Senti-me aliviado, apesar de, de certa forma, decepcionado.

Novamente, fechei os olhos e encostei a cabeça. Mais uma vez, tive a impressão de que meu corpo levitava, executando um movimento rotacional para trás. Desafiei meu receio e mantive os olhos cerrados. As rotações, inicialmente lentas, estavam cada vez mais rápidas. O som da música que ouvia, perdia-se em meio a um silêncio ensurdecedor... Aterrorizante... O medo já tomava o lugar da segurança que eu tinha na possibilidade de abrir os olhos e estar sentado no mesmo lugar, em minha poltrona, no canto mais escuro do quarto.

Resolvi abri-los. Inicialmente, vi apenas uma linha branca cercada por um oceano negro, depois de alguns instantes esta foi transformando-se em uma infinidade de pontos, ia diminuindo até torna-se apenas um, estático em minha frente, mas a uma grande distância. O silencio imperava.

Eu estava de pé, mas sobre o que? Eu não via nada ali, além de uma incomensurável escuridão. Levantei a vista em direção ao ponto luminoso. Estendi o braço, lenta e amedrontadamente para tentar tocá-lo, quando este se aproximou de mim a uma velocidade impressionante; crescendo e tomando forma. E aquele pequeno ponto transformou-se em uma imagem. Cena conhecida por meu subconsciente. Senti uma incrível dor de cabeça, que me jogou de joelhos e com os olhos fechados ao "chão".

Esta sensação amargou por alguns segundos, mantendo-me imóvel. Passada a dor, abri os olhos e a imagem havia sumido. Olho para o lado e vejo outra cena, viro mais uma vez, outra, sempre cenas conhecidas, passagens de minha vida expostas a cada movimento de meus olhos, num movimento frenético, quase caótico.

Aquele fluxo atordoante começa a afetar minha sanidade. Começo a correr em direção as cenas, mas nunca chego. É como se eu não saísse do lugar. Na verdade não tinha certeza se corria...Não conseguia ter certeza de nada...

De repente, todo aquele cenário desaparece dando lugar à escuridão, deixando-me novamente apreensivo. E agora? Continuo a olhar sem direção para um imenso vazio preenchido de escuridão e dúvida. O desespero povoa minha mente. Quero sair daqui, mas como?

Novamente, tenho a sensação de que meu corpo gira, mas não há como saber, pois não há referenciais, está tudo muito escuro. Sinto-me cada vez mais veloz subitamente, uma dor incontrolável perfura meu crânio como se o lado direito estivesse sendo lentamente esmagado. É tamanha que começo a ouvir a voz da minha filha dizendo: "calma pai! Estamos chegando ao hospital. Você vai sobreviver" E aquelas palavras foram ecoando na minha mente até desaparecer em meio aquele silêncio ensurdecedor. Estou enlouquecendo! É isso!! Meu Deus, o que está acontecendo?! Por que?!

A dor não cessa! Começa a irradiar-se por todo meu corpo dilacerando minha carne. Vai aumentado mais, mais e mais. Está insuportável! Está sumindo! A dor... A dor está sumindo! Meu corpo parece tão leve agora. Aquela imensidão negra começa a torna-se mais clara... Parece que forma uma imagem. O que está acontecendo agora? E ali estou eu, deitado numa mesa de operações... Sem médicos. Onde estão os médicos? Olho para meu lado e vejo minha esposa gritar e chorar para um homem numa roupa toda azul. O que está acontecendo? Olhei para meu outro lado, parecia o mesmo corredor que havia visto minha mulher, e vejo minha filha sentada, posso ver claramente seu rosto...Tudo parece acontecer em câmera lenta. Os sons misturam-se, não podendo ser compreendidos por mim. São lágrimas que escorrem no rosto de minha filha?

- "Pai, Por que?"

- O que minha filha? Estou aqui! O que ouve?

- Por que você tinha que morrer assim

- ...

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