A Garganta da Serpente

O. Henry

William Sydney Porter
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Natal no rancho

(O. Henry)

A causa da discórdia levara vinte anos para crescer. Mas aos vinte anos valia quanto pesava.

Cinquenta quilômetros em redor do Rancho do Sol Levante, todo mundo falava dela. Porque ela tinha um lindo cabelo preto de azeviche, olhos negros, de uma deliciosa inocência, e um riso que fazia lembrar o alegre murmúrio de uma fonte oculta nos bosques. Chamava-se Rosita MacMullen, e seu pai, o velho MacMullen, sentia-se mais orgulhoso da filha que dos inúmeros rebanhos de carneiros do seu rancho.

Tinha, pois, vinte anos a jovem beleza, causa deste drama, quando dois dos seus admiradores começaram a frequentar assiduamente a casa do velho pastor, montados ambos nos seus belos cavalos de cauda longa. Um chamava-se Madison Lane; o outro, Kid, o Cruel, ou antes (pois ainda não havia conquistado a celebridade desta alcunha), simplesmente Johnny MacRoy.

Não julguem que a filha do velho MacMullen tinha apenas esses dois pretendentes. Raro era o dia em que, ao anoitecer, as barreiras do Rancho do Sol Levante, que rodeavam o bangalô de seu proprietário, não estavam cheias de cavalos de todos os tamanhos, pelo menos uma dúzia, relinchando e mordendo os freios, enquanto esperavam o dono. Mas, de todos eles, apenas dois - já dissemos os seus nomes - tinham se destacado dos demais concorrentes, e só deles falaremos.

Foi Madison Lane, um jovem vaqueiro de Niceces, quem ganhou a corrida. No dia de Natal, casou-se com Rosita. Armados até os dentes à sua maneira tumultuosa, mas de bom humor, vaqueiros e pastores combinaram dar tréguas, naquele dia, às suas rivalidades tradicionais, e consagrar às bodas a alegria da ocasião.

Eis por que o Rancho do Sol Levante ressoava de descargas inofensivas e reluzia com o brilho das selas de luxo, das armas de fogo e das fivelas de prata maciça dos cinturões.

De súbito, quando o banquete atingia seu apogeu, Johnny MacRoy apareceu à porta, ébrio de ciúmes e de uísque, empunhando o revólver.

- Aqui está o meu presente de Natal... - gritou, disparando.

A primeira bala arrancou um pedaço da orelha direita de Madison Lane, causando-lhe uma ferida de meio centímetro... A bala seguinte teria atingido a noiva em pleno rosto, se Carson, um pastor de gênio vivo e mão ligeira, não tivesse atirado bruscamente na cara de MacRoy uma grande travessa de rosbife e feijões. A bala alojou-se na parede depois de ter desfolhado as flores de laranjeira da grinalda de Rosita.

De um salto, os convidados precipitaram-se sobre os revólveres, dependurados num tabique próximo. Nunca se vira ataque tão odioso: disparar contra uma recém-casada no próprio dia do casamento!

Mas antes que os tambores dos revólveres tivessem expedido uma só bala, MacRoy já havia desaparecido, gritando:

- Estão prevenidos! Da próxima vez, farei melhor pontaria!

Carson, orgulhoso da sua façanha, foi o primeiro a alcançar a porta. MacRoy, voltando-se para trás, derrubou-o a seus pés, com um tiro. Sumiu-se na escuridão, e, apesar da encarniçada perseguição, os convidados não conseguiram alcançar o assassino, que montara a cavalo muito antes dos vingadores do pobre vaqueiro.

E foi naquela noite que Kid, o Cruel, recebeu o seu batismo de sangue. Passou a ser o pesadelo da região. No primeiro posto de polícia aonde chegou, matou dois homens e feriu três. Sua destreza no tiro - tanto com a mão direita como com a esquerda - não tinha rival. Frequentemente, viam-no chegar a galope a algum povoado ou campo e, depois de beber, provocar uma discussão fútil, apenas pelo prazer de esvaziar seus revólveres contra a multidão atemorizada. Seu sangue-frio, sua incrível audácia, a rapidez e segurança de sua pontaria imobilizavam os seus adversários, convertendo-os em vítimas certas. E quando a carabina de um pastorzinho manco, um mestiço mexicano que tremia dentro das botas, o estendeu no mato, Kid, o Cruel, tinha já no seu passivo o assassinato de dezoito infelizes. Metade deles morta a tiros, em luta, e os restantes friamente assassinados, em covardes ciladas, pelo simples prazer de matar.

Entretanto, contam-se muitos feitos da sua inaudita ousadia e da sua desapiedada crueldade; mas, até o presente, ninguém tinha citado dele um único exemplo de generosidade ou de misericórdia. E todavia, como se deve ser justo com todos, mesmo com os piores, cumpre-nos narrar aqui o que fez Kid, o Cruel, numa noite de Natal quente como uma noite de maio, na véspera de dar ao Diabo a sua alma de desesperado.

Diz-se que aqueles a quem o amor tratou com crueldade não devem nunca respirar o perfume da flor da giesta, porque o seu aroma desperta a lembrança da humilhação sofrida e acende no coração o fogo da vingança.

Na terra de Kid, naquele inverno extraordinariamente temperado, brotou uma giesta de uma florescência luxuriante. Numa ocasião em que o sinistro moço e seu companheiro de crimes, o mexicano Fran, passavam a cavalo perto da planta do fatídico perfume, Kid parou bruscamente a sua montada. Silencioso, absorto nas suas recordações, semicerrava os olhos, com uma expressão de intensa ferocidade... Dir-se-ia que o misterioso perfume lhe havia atravessado as grossas roupas e penetrado até o mais íntimo do seu ser. Subitamente, com um estranho sorriso, disse:

- Ouça, Mex, agora me lembro de que há alguém a quem prometi há muitíssimo tempo um certo presente de Natal, que até hoje ainda não dei. Antes tarde do que nunca. Por isso, amanhã de manhã, irei à casa de Madison Lane meter-lhe uma bala no coração. Ele me roubou a namorada, a minha Rosita, que eu quase já tinha conquistado quando ele apareceu. Como é possível que eu o tenha esquecido durante tanto tempo?

- Cuidado, Kid! Nada de maluquices!... - disse o mexicano. - Você sabe que, por mais astuto que seja, não poderá se aproximar com vida do revólver de Madison Lane. Ontem encontrei o sogro dele, o velho MacMullen. Ele me disse que a filha ia dar uma festa de Natal, e que tinham convidado os rapazes de todos os ranchos vizinhos. Ainda se lembram das suas ameaças do dia do casamento, e estão de sobreaviso. Não percebe que Madison Lane vai ficar de olho em você? Deixe de tolices, Kid!... Não falemos mais nisso, é melhor...

Kid, o Cruel, respondeu tranquilamente:

- Juro, Mex, que entrarei na casa de Madison Lane no dia de Natal e que o deixarei estendido no meio dos seus convidados. Há muito tempo, três anos, quatro já, que eu deveria ter ajustado contas com ele. Sabe, a noite passada, sonhei que Rosita e eu tínhamos nos casado, e no nosso quarto... ela sorria e... Ah! Juro por todos os infernos e por todos os demônios, Mex, que o encontrarei e que o matarei! Foi num dia de Natal que ele a tirou de mim. Pois bem, vai ser num dia de Natal que ele terá de deixá-la!...

- Há outras maneiras de a gente se suicidar... - advertiu o mexicano Frank. - Por que não se entrega simplesmente à justiça?

- Ela será minha!... - repetiu Kid, o Cruel, cerrando os lábios.

O dia de Natal daquele ano recendia de perfumes como um dia de primavera. O odor picante da brisa excitava como espuma de champanha: as flores dos prados exalavam os seus primeiros aromas.

As cinco ou seis dependências de que se compunha o bangalô do Rancho do Sol Levante resplandeciam com a luz das lâmpadas. Tinham reservado a maior sala para a árvore de Natal, em torno da qual se reuniriam mais tarde o filho do casal, de três anos de idade, e alguns amiguinhos seus. Os convidados iam e vinham da casa para a varanda. Madison Lane fez sinal a três deles para que lhe viessem falar.

- Quero recomendar-lhes uma coisa. Bem sabem que, desde o meu casamento, Kid nunca cessou de proferir ameaças contra Rosita e contra mim. Seria conveniente que combinássemos a maneira de vigiar, esta noite, os arredores da casa; é precisamente hoje o aniversário de sua primeira visita e da morte do pobre Carson. Se algum de vocês o descobrir, dispare contra ele sem hesitação!... Conto com vocês! Pessoalmente, não tenho medo nenhum desse canalha, mas Rosita, sempre que pensa nele, começa a tremer, sobretudo no dia de Natal. Estamos entendidos, não é verdade?

De comum acordo, os convidados distribuíram entre si a guarda da casa, em turnos de dois ou três, que eram quantos bastavam para tal tarefa. A ceia decorreu alegre, e os pratos, preparados pelas mãos de Rosita, foram muito apreciados pelos convidados. Quando, como as crianças de cavalinho, entraram na sala da árvore de Natal, todos ficaram agradavelmente surpresos ao ver ali um Papai Noel usando um traje a caráter, barba opulenta e um grande capuz, carregado de brinquedos para as crianças.

Bully Simpson, de seis anos de idade, disse aos companheiros:

- É o papai! Tenho a certeza de que é ele! Eu o vi vestir-se assim.

Nesse momento, Rosita, a alguns passos do grupo de crianças, falava com Berkly, um velho vaqueiro a serviço de Madison.

- Suponho - dizia ele - que esse medo de Kid, que a preocupou durante todo dia (Mad ainda há pouco nos falava disso), já tenha passado. Não havia razão para você se atormentar dessa maneira.

- Começo a me sentir mais tranquila - disse Rosita, rindo. - Mas não se lembra do terrível susto que ele nos pregou no dia do meu casamento?

- É o homem mais abominável e cruel que a nossa região já conheceu - disse Berkly. - Os habitantes do distrito deveriam organizar uma batida contra ele, como se faz com um lobo...

- Sim, eu sei - disse Rosita, com voz misericordiosa; - eu sei... é um homem terrível, coberto de crimes... Mas às vezes eu me pergunto se, no fundo, não haverá nele alguma coisa de bom, algo do que ele era quando o conheci, quando vinha me ver...

Como Rosita, que ficara só um instante, se preparasse para reunir os convidados, encontrou-se bruscamente diante de Papai Noel encafuado nas suas grossas peles.

- Ouvi o que acaba de dizer, sra. Lane... precisamente no momento em que ia tirar do bolso um presente para seu marido. Mas mudei de ideia. O presente será para a senhora. Vai encontrá-lo em seu quarto.

- Oh! Papai Noel! Que bom é o senhor, e como lhe agradeço! Vou já ver o que é...

E dirigiu-se para a dependência indicada enquanto o Papai Noel tomava a direção da varanda, ao ar livre.

No quarto, Rosita encontrou o marido.

- Ah! É você? - perguntou ela. - Então, onde está o presente que o Papai Noel disse ter deixado aqui para mim?

- Não vejo aqui nenhum presente para você! - redarguiu Madison Lane, beijando carinhosamente a mulher.

E acrescentou, rindo:

- A não ser que o presente seja eu!

No dia seguinte, Gabriel Radd, capataz do Rancho X. O., entrava na Repartição dos Correios de Lema Alta. Um funcionário classificava cartas.

- Já sabe da notícia? - disse Radd.

- Que notícia? - perguntou o empregado.

- Kid recebeu sua dose de chumbo.

- Não foi sem tempo. E a quem se deve a façanha? - A um dos vaqueiros do velho Sancho Méndez. É curioso que tenha sido um desses vaqueiros, tão desprezados por ele! Foi à meia-noite, na noite de Natal. O pastor viu passar um homem todo vestido de branco e ficou com tanto medo que descarregou nele todas as balas da sua Winchester. E o mais engraçado de tudo é que Kid, o Cruel, estava disfarçado de Papai Noel! Kid, o Cruel, vestido de Papai Noel! Que lhe parece, hein?

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  • Publicado em: 24/12/2002
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