A Garganta da Serpente
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Últimas (ou primeiras) Palavras de Celine

(Mariana Porto)

Você deve estar surpreso, depois desses anos todos, eu aparecer aqui como se ainda fossemos próximos. Estranho, mas ainda me sinto absolutamente confortável com sua presença, mais até do que com suas lembranças. Sei que faz tempo e sei também que o tempo foi curto, que tudo aconteceu rápido e que esses anos correram, independente de vontade. Sempre me julguei tola por guardar você - e aquela vez - tão bem guardado e inatingível, em algum lugar obscuro e trancado, do qual nem eu mesma sei da chave. Passei todos esses anos, criando artifícios para desmistificar e distorcer a memória fixa e perfeita que foi gravada, tatuada e absorvida por quem eu me tornei. Vai te parecer bobagem, eu sei, mas o simples fato de você existir em mim me faz diferente, e isto sempre me foi o suficiente. Não esperei flores, cartões ou serenata, nem sequer telefonemas mudos de alguém apaixonado que silencia para não perder nem sequer um segundo da sinfonia do outro lado da linha. Fiz o possível e o impossível para fazer do tempo, aliado. E da memória, abrigo. Despistei os sentidos e desviei o olhar para muitos outros, em vão. Juro que me esforcei por todos, fingi não procurar neles todas as suas manias. Enganei a mim, mas não enganei nenhum deles, todos sentiram na minha boca o gosto da decepção e foram incapazes de o suportar. Sabiam, na verdade, que a luta era vã, que jamais poderiam oferecer-me algo que chegasse perto do pedestal em que você repousava e reinava, invicto.

Foi preciso todos esses anos e todos esses muitos outros para que eu percebesse e, finalmente, assumisse que você sempre foi o único e incomparável. Que, por algum motivo incompreensível, eu sempre o esperei. Porque, antes de conhecê-lo, eu já o quis. Não mais do que hoje, nem menos do que ontem. Eu simplesmente o quis. E nunca esperei nada além do que isto.

Obrigada por existir em mim, daquele jeito imortalizado e bonito. E parabéns pelo seu casamento.

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