A Garganta da Serpente
  • aumentar a fonte
  • diminuir a fonte
  • versão para impressão
  • recomende esta página

Ursos

(Mara Liz)

Fora o Zé Colmeia, o Catatau e o Urso do Cabelo Duro, eu nunca tinha visto um urso de perto, só no zoológico. E no zoológico não se vê nada de perto! Quando eu estava na 1ª série do primário lembro de quase ter caído no fosso solitário de um grande urso negro de pêlo brilhante. Na ponta dos pés feito bailarina, atrás da muretinha que me isolava pelo pescoço do gigante lustroso, eu tentava vê-lo melhor, chegar mais perto e, quem sabe, tentar um abraço. Como era de se esperar fui arrastada de lá sem direito a advogado pela maternal Tia Bete. Naquele dia reparei na indelével pintura verde-água que tingia cada vez mais forte suas pálpebras dia após dia. Talvez ela tivesse nascido daquele jeito, como eu poderia saber? Ela me puxou precisa e disse rindo que eu era louca de me pendurar no muro daquele jeito - e se eu caísse, o que ela iria dizer para a minha mãe?

Eu não via perigo, só conseguia ver o urso andando impaciente de um lado para o outro com os bracinhos de sonâmbulo esticados a frente. Não parecia oferecer mal nenhum, parecia querer um pouco de mel ou de picadas de abelha, ainda não sabia ao certo. O que sei é que sempre senti falta de ursos. Eu dizia para a minha vó que no Brasil os ursos podiam dormir no verão e acordar no inverno, mas nunca se ouviu notícias de algum. Além do mais o inverno é tão doido, mesmo aqui no sul, que os ursos ficariam confusos sem saber se haviam acordado na hora certa ou não. E o meu vô não ficaria nada feliz se um urso folgado metesse as mãos no parreiral dele e atrapalhasse a safra de vinho do ano. Era bem capaz de ele degolar o bicho e depois fazer um tapete para enfeitar a varanda em que costumava dividir o chimarrão com os compadres. Esta varanda ficava no meio do casarão de madeira que ele próprio havia construído e separava a cozinha (com um grande fogão à lenha) e a sala de "manger" dos 9 quartos, totalmente necessários para quem tinha 12 filhos! E o meu senso decorativo diz que não ficaria nada bem um ursão preto esticado no meio de uma roda de mate.

Mas, voltando ao zoológico, desde então eu cresci, quase como um urso (um urso depilado obviamente), e um dia fui para a Califórnia não para ser artista de cinema, só para me distrair um pouco, mas se o alvo da distração fosse algum artista daqueles bem famosos, melhor ainda. Posso dizer contente que Al Pacino ficou encantado com o vestido vermelho de bolinhas brancas naquele sábado ensolarado em Santa Monica… Mas eu estava interessada em ursos e apesar de Al ser peludo o bastante e estar vestido de preto, eu sabia que era um truque e não estava disposta a cair nele. Retribuí o beijo sem desacelerar os patins e quase fui atropelada por um skatista que de tantas tatuagens mais parecia um catálogo ambulante.

Um dia achei que era hora de largar os patins e rumar para a toca. Segui de carro a uns 300 e poucos quilômetros a leste da cidade mais sísmica da Califórnia e alcancei o parque dos ursos - o Yosemite National Park. Sequoias gigantes, lagos do reino das águas claras, cachoeiras cantantes, morros uivantes, e o ofuscante hotel Ahwahnee que não aceita estrelas para classificá-lo, só diamantes. Mas o que mais me chamava a atenção eram as placas plantadas por todo o parque sinalizando o mesmo e animador aviso: "Cuidado com os ursos". Demorou, mas finalmente eu me encontrava no lugar certo.

Cheguei num convidativo fim de tarde de outono e nunca mais fui embora. Como poderia imaginar? O fato é que após estar devidamente instalada num chalé com calefação, banheira e tevê, me acomodei de tal maneira que me esqueci do mundo, apesar de ter tentado e lutado contra mim mesma, sem saber o que era vontade e o que era birra. Como naqueles sonhos em que você tenta desesperadamente abrir os olhos mas não consegue porque é infinitamente maior a vontade de mantê-los fechados.

Ah, ursos, ursos. Depois de tomar o meu primeiro banho relaxante com favos de mel na banheira, decidi ir até o restaurante que não ficava muito longe da Curry Village. Quando coloquei as botas pra fora do chalé levei um susto daqueles! Estava tudo escuro e eu sem lanterna para poder ver meus ursos queridos que, aquelas alturas, pareciam existir apenas nas placas de aviso. Eu estava há algumas horas em Yosemite e nada de ursos! Seria mais um tipo de propaganda enganosa para atrair turistas ingênuos? Quer dizer que sou considerada uma mocinha ingênua? Pisando a grama raivosa fui até o carro torcendo para que um ursão aparecesse e me guiasse até o restaurante, mas nada disso aconteceu e acabei perdendo a fome no meio de tanto descontentamento.

Resolvi trocar o restaurante pela mercearia local onde tudo custava uma fortuna! É o preço que se paga para ver ursos, calculei. Comprei a lanterna e algumas coisinhas para beliscar estômagos anoréxicos, inclusive um pote bem grande de mel de flores de pessegueiro que adoro. Assim poderia voltar para o chalé mais tranquila, imagina se me aparece algum urso no meio da noite pedindo um pouco de mel emprestado e eu sem nada?

No caminho meu coração disparou feito cavalo de corrida e meus olhos quase que me enganam! No meio dos arbustos, vislumbro um ser enorme vindo em minha direção, posso até sentir suas garras em meu pescoço, mas é só a vadia da minha fome que acorda mal-amada. Sem dar atenção a ela olho para o céu e vejo o mais maravilhoso de toda a minha vida, um céu que nem o Planetário me mostrou nos meus tempos de menininha! Tantas eram as estrelas, uma grudadinha na outra, todas tão fosforescentes e perfeitas que nem precisavam competir por vaidade - todas brilhavam em incontáveis quilates. Só faltava uma coisa - cadê os meus URRRSOOOOOOOSSSSSSS?!!!

Puxo oxigênio puro da montanha, pego as compras e vou a passos de formiga para a vila. Penduro o casaco, tiro as botas, ligo o fogão elétrico e ponho a água para esquentar na chaleira de vaquinha. Abro uma frestinha da janela e coloco o pote de mel lá, destampado, como um presente desembrulhado. Vou ver tevê tomando leite com Pops. Quando a chaleira apita corro para o fogão e preencho a xícara de porcelana pintada à mão com o chá de frutas vermelhas. Pego emprestadas 2 colheradas do mel que deixei na janela e volto para a tevê. Estou tão cansada! Cansada da viagem, cansada de esperar, cansada de comer Pops. Os olhos começam a me chantagear e nem são dez da noite. Vem urso, vem logo, eu não estou aguentando mais, pleaaaaaase!

Na tevê a apresentadora Oprah Winfrey entrevista Brad Pitt que está estreando "Meet Joe Black", aquele filme em que ele faz o papel da morte e que se apaixona justamente pela filha da sua vítima, o milionário vivido por Anthony Hopkins. Agora Oprah está perguntando se Brad acha que tem a bunda bonita e ele fica desconcertado. Ela diz: "Oh, você está encabulado? Mas a sua bunda é realmente linda!" A plateia lotada de histéricas grita em coro, obviamente concordando com o comentário constrangedor da apresentadora; parece que bundas é mesmo um assunto de interesse mundial. Oprah insiste e diz que ele está impecável na foto em que aparece nu, que aquela revista de celebridades publicou. Ele ri nervoso e tenta desconversar avisando que o inconveniente fotógrafo foi multado em milhares de dólares e que, bem, voltando ao filme, ele adorou trabalhar com Sir Anthony Hopkins e blá-blá-blá-blá, só elogios dispensados ao ator veterano. Então, de repente, ouço um barulho vindo da janela que faz com que meu transe por Brad seja quebrado. Parece que uma mão peluda acaba de deixar algo cair no chão.

Levanto apressada enrolada numa manta de cashmere rosado e com a lanterna em punho tento enxergar a silhueta do meu ladrãozinho. Ele corre pesado entre as árvores, sua respiração, eu sinto, é igualmente pesada e apesar da minha marcha de lebre o invasor nativo leva vantagem - para a minha derrota final ele camufla rapidamente o corpanzil no breu da floresta. Sem guardar rancor volto para a cama pedindo sonhos revigorantes. No dia seguinte acordo cheia de energia para fazer o reconhecimento do parque, mas nada de excursões com gente saída do seriado dos Simpsons, decido fazer eu mesma o itinerário.

Preparo minha mochila com água, barrinhas de cereais, bagles e o mais importante: mel em saquinhos para algum encontro inesperado. Calço as botas de biqueiras de aço que também servem como espelho, lembro da lanterna, carrego a máquina fotográfica com filme preto e branco na esperança de imitar Ansel Adams e me entrego ao maravilhoso mundo verdejante ansiosa por encontrar meu amado.

Passo por um campo repleto de flores amarelas que apontam para uma sonora cachoeira que desaba sobre pedras limosas e respinga sem economia no vale. Tiro a máquina fotográfica da mochila, acerto o foco e começo a bater fotos de todos os lados tal como uma típica turista nipônica. Uma borboleta azul que descansa leve sobre uma das flores me encanta com a pose de esnobe. Nesta hora me arrependo do filme preto e branco e me xingando com razão de burra e outros piores, ajoelho humilde para compor melhor o quadro. Mas antes que eu pudesse me cansar da modelo azul, um zangão, provavelmente atraído pelo meu perfume de flores, começa a voar em torno da minha cabeça e atrapalha a foto. Dou uns tapas no ar e chego ao cúmulo de perguntar "qual é o problema?" O insetão rabugento se recusa terminantemente a ser razoável e parece decidido a querer entrar debaixo dos meus cabelos cor de cobre. Assustada com esta possibilidade saio correndo, ele a zumbir atrás de mim, eu pensando em como seria uma mordida de zangão, ele a zumbir mais alto e devendo achar que voava atrás de uma rara flor gigante…

Eu corria do seu amor quando sem perceber onde pisava caí num abismo assentado no meio do nada. Mas o que estou dizendo? Qualquer lugar em Yosemite pode ser descrevido como no meio do nada! Ou será no meio de tudo? Felizmente acho que não me machuquei, mas para evitar maiores estragos procuro a lanterna para entender melhor o buraco em que eu havia escorregado. Aperto o botão "on" e imediatamente lamento de ter trazido a lanterna. Talvez, penso eu, tivesse mais chances de sobreviver se não soubesse onde havia caído. ESTE BURACO É UM NINHO DE COBRAS!!! Acho que estou acabada…duplamente acabada! Imóvel, sem saber o que fazer, imagino como minhas novas acompanhantes reagiriam caso eu tentasse me salvar. Bem que elas poderiam ser compreensivas, bem que elas poderiam não pregar seus dentões fininhos e virulentos em mim. E pensar que eu só queria ver meu urso…agora nem isto! Vou morrer sem ter visto um único urso de perto! Se ao menos eu tivesse seguido a excursão com aquele pessoal que tem a cara dos Simpsons eu não estaria em apuros. Quem mandou ser preconceituosa e metida e fresca e insuportável? Bem feito! Haaaaaaaaaaaaaaaa!, grito gralha na esperança de ser ouvida, mas o máximo de reação é uma coisa gelada que cai sobre a minha cabeça e balança como pêndulo na frente dos meus olhos.

- Ai meu Deus, acho que elas querem se vingar de mim! - digo como se recebesse a extrema unção da cabeça alaranjada em forma de triângulo e que acha que pode me hipnotizar só porque alguém da sua família já fez isto com o Mogli!

Mas, de repente, tudo fica muito claro. Lembro da coral que invadiu o parreiral do meu avô quando eu ciscava umas uvas e, aterrorizada, cacarejei delatora. O tio que veio em meu auxílio decapitou a coitada num único e afiado golpe. Ele me jurou que a bichinha não sentiu nada. Disse mais: que foi uma morte igual a de Maria Antonieta! Agora eu sei que tudo foi uma grande e deslavada mentira, que estas víboras estão aqui para se vingar! Ouço o discurso que a minha algoz sibila inflamada:

- "Morte a delatora que acabou com a vida peçonhenta de uma de nós, uma irmãzinha rastejante que já nasceu desfavorecida e sem direitos ofídicos!".

Sei que estou sendo julgada e tenho a impressão que vou ficar louca. As víboras sabem da verdade porque têm uma única consciência - o que uma sabe todas sabem. Como dizer que sou inocente? Minha cara de pau não chega a tal extremo. Relembrando o passado sei que poderia ter pego as uvas, quantas desejasse, feito de conta que não havia visto nada e a coral seguido desimpedida o seu caminho. Ou, ainda, eu poderia ter sido gentil e oferecido um cacho, duvido que se interessasse por uvas. Também poderia ter oferecido vinho e, amavelmente, a víbora teria mordido a taça e deixado pingar em nobre agradecimento um pouco de seu precioso veneno. Mas eu não fiz nada, eu apenas fui má! A sentença será dura e eu nem deixei um testamento... Então mentalmente dito meu testemunho (talvez ele possa ser ouvido por alguma alma do vale) que deve ser escrito com agulha quente num pergaminho feito com a minha própria pele:

"Caio num abismo cheio de víboras e após curto julgamento por ter sido mandante do assassinato de uma delas o castigo começa. Todas se deslocam de seus esconderijos e vêm ao meu encontro. Seguindo suas preferências enlaçam meu pescoço (não em sinal de amizade mas de protesto), atravessam-me malignas com os dentes cortantes, abraçam-me com seus corpos frios e abrem caminho desbravadoras dentro de mim! A dor é lancinante, mas o perdão também o é. Uma delas, que nem é tão grande assim, sobe internamente pela panturrilha e eu grito de dor, é pior do que mil câimbras. A visão das víboras passeando, marcando em relevo minha pele é assustadora. Quero desmaiar, quero me livrar desta realidade, quero morrer, mas a vontade de terminar com o meu testemunho mental é maior. Espere! Ouço um arfar pesado, um tipo gafado que invade o buraco onde sou prisioneira e uma esperança em forma de urso negro surge para mim. Eu sabia que ele viria me salvar! Eu sabia que ele não esqueceria de mim! Fiz tanto para conhecê-lo, não posso terminar minha vida tão desamparada. Queria tanto poder alcançar os saquinhos com mel de flor de pessegueiro e estourá-los em sua boca de fera, mas não tenho forças. Dezenas de víboras rastejam nos subterrâneos do meu corpo, é horrível! Eu sinto muita dor. Fecho os olhos porque não quero mais ver a invasão e me concentro no pergaminho. O grande urso negro alcança minha mão direita e tenta me puxar para fora, mas as víboras se enrolam em meus tornozelos e fazem pressão para baixo funcionando como raízes diabólicas. Parecem querer dividir o meu corpo em dois: da cintura para cima e da cintura para baixo. Sinto o incrível esforço do urso para me salvar e não consigo me concentrar no testamento. Respiro profundamente e tento organizar minhas últimas palavras que assim saem: Eu lutei, mas não posso continuar. Eu errei. Você foi perfeito e não quero estragar a sua vida. Vá embora antes que o inverno chegue ou elas se vingarão também de você. Continuar assim é impossível, se nada mudar prefiro morrer."

  • 3590 visitas desde 16/01/2006
menu
Lista dos 2201 contos em ordem alfabética por:
Prenome do autor:
Título do conto:

Últimos contos inseridos:
Copyright © 1999-2020 - A Garganta da Serpente
http://www.gargantadaserpente.com.br