A Garganta da Serpente
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Islenudsa

(Mário Jorge Lailla Vargas)

A fogueira crepitava no terreiro, dando um encanto especial à festa junina num excepcional dia frio, já que aqui é raro o ano que faz frio. Aguardávamos a quadrilha dançar, logo mais, tomando uns goles de quentão. Os casais já se preparavam com as típicas roupas caipiras remendadas, chapéus de palha desfiados, as moças com vestido rodado colorido, fita no cabelo e pintas na cara. Um encanto.

Joel Carmo, projetista aeroespacial, contava casos engraçados com ele ocorridos. Falava muito sobre a volubilidade das mulheres.

- E como elas são susceptíveis às fases da Lua. Que bicho mais volúvel. Num dia está toda sorriso, noutro um azedume só. Nunca a gente pode se empolgar com o sorriso das mulheres.

Então respondi imediatamente.

- Não contesto tua razão, caro amigo. Mas devo lembrar que, apesar de tudo, temos sorte como espécie. A mim aconteceu uma aventura que bem demonstra que as mulheres terrenas, comparadas às doutros mundos, não são tão volúveis assim.

Foi logo após o esfacelamento da ditadura capitalista de Estados Unidos da América e sua transformação em vários estados independentes, no auge da competição pela colonização espacial entre Brasil, Canadá e China. Naqueles dias buliçosos as pessoas se punham a sonhar com distantes e misteriosos mundos ainda intocados pelas sacrílegas mãos humanas, numa nostálgica analogia com os homens do século 15.

De minha parte, eu, parodiando a aventura de Stanley-Livingstone, parti a uma aventura jornalística em busca a Beraldo Madrapur, último dos românticos desbravadores, que partira rumo a Altair numa nave quaseviva, uma daquelas fantásticas naves biológicas inteligentes que requerem único tripulante.

Beraldo era filho do famoso general Ubaldo, a principal personagem das tropas de ocupação brasileira em Estados Unidos da América. Uma aura de mito já se formava em torno da ida sem volta desse intrépido explorador que foi meu colega de colégio em Belo Horizonte e era conhecido por ser o mais destemido aspirante que já se teve notícia.

Parti, assim, numa pequena mas rápida quaseviva nos rastros de meu audaz colega nas incertas órbitas de Altair.

Após muita peripécia iniciei o procedimento de descida em Almançor, um planeta tão verde e azul como era a Terra no passado. A nave pousou numa pequena montanha cercada de floresta e muitos rios e lagoas. Os sinais de rádio mantinham o padrão, indicando que equipamento semelhante existiria na região, ou seja, era provável que Beraldo estivesse a um raio de apenas alguns quilômetros.

Nosso estudo indicava que havia seres semelhantes aos humanos num continente próximo mas a condição política atrasou esse estudo até agora. Ali onde eu estava não existiria animal racional além de nós dois.

Foram longos os dias de 54 horas e mais longas ainda as noites em que procurei me adaptar à condição do lugar. Os três satélites se entrecruzavam no céu em órbitas complicadas resultando em estranhos e variados luares e noites mais variadas ainda. Belisa, a lua cor-de-rosa, despontava no firmamento e ia sumindo enquanto surgia Pirumã, terracota manchado de púrpura e repleto de pintas marrons. Tartagema, com listras azul-marinho tal qual tigre, em fundo ora amarelo pálido ora alaranjado, aparecia em pleno dia mas desconfio que vai defasando, chegando a atingir a noite.

Fiquei numa noite límpida a olhar Belisa despontar radiosa e serena tal qual nossa poética Lua da Terra. Um povo que estivesse ali há milhares de anos que mitologia poderia criar? Belisa, uma bela jovem fugindo do apaixonado e cruel Pirumã? Quantos conhecimentos me escapariam ali por ser um observador muito recente. Belisa cruzando com Pirumã no céu um indício de tempestade? E pra se plantar e colher, qual a disposição ideal dos astros no céu? Nos dias em que Tartagema desponta no amanhecer do horizonte enquanto Belisa, idem, no horizonte oposto a ponto de se cruzarem no alto do céu? E que peculiar astrologia nasceria ali?

Um robô-capitão foi abrindo uma picada lentamente pra mim na mata, sempre na pista dos sinais de rádio. Após três longos dias de caminhada, dias de Almançor, cheguei a uma região rochosa ao longo dum rio espraiado. Mais adiante o rio se atirava em cachoeira ante um abismo. Ali embaixo, na mesma margem, um combate inesperado. Dois homens se atracavam numa luta feroz.

Havia uma descida meio íngreme pouco atrás. Foi providencial. Desci correndo o mais que pude e reconheci imediatamente um dos contendores: Era Beraldo. O outro era um grandalhão, um verdadeiro brutamonte. Não fosse o intensivo treinamento em autodefesa que tínhamos na academia, e Beraldo era o melhor deles, não teria ele condição de enfrentar tal sujeito. Conseguira dar um golpe no grandalhão e o derrubar um instante. Nesse momento o grandalhão pegou um punhal que estava no chão. Cheguei a tempo de dar-lhe uma rasteira. Caiu ao rio, sendo levado pela correnteza.

Nos cumprimentamos efusivamente. Estava estupefato com minha chegada. Parecia exausto com a luta e estava um tanto machucado. Não era de se espantar: Contra adversário tão poderoso!

Urcão era como chamava a seu adversário. Agia como um louco ou como um animal feroz. Urcão o vinha perseguindo tenazmente. Um inimigo implacável, furioso, agressivo.

- Por causa desse inimigo tive de passar a dormir numa rede armada no alto duma árvore.

- Qual a razão de tudo isso? É um canibal? Um louco furioso? Um velho inimigo?

- É uma das criaturas do outro continente que deve ter vindo parar aqui por acidente. Do outro lado daqueles morros fica o mar. Ali encontrei destroço duma piroga.

Passamos a noite numa caverna ao lado duma reconfortante fogueira. Acordamos conforme nosso relógio biológico terráqueo e prosseguimos com tochas no escuro da noite.

- Achas que Urcão está perto ou se afogou?

- Ora, não conheces Urcão! Aquela correnteza não o afogaria.

Me espantou a tranquilidade com que ele falava em tão feroz inimigo que poderia muito bem estar perto.

- Vamos nesta trilha. No caminho de tua nave tem uma cidade de pedra muito antiga, um conjunto impressionante de ruína. Ali tenho uns apetrechos, carne seca. Podemos fazer um almoço. É esquisito a gente estar acostumado ao ciclo terráqueo e, de repente, estar aqui com estes dias e noites tão longos. Tem um bicho aqui, meio bicho meio planta, que tem uma carne deliciosa. O chamo uruaú.

Entramos numa colossal cidade de pedra absolutamente deserta. Beraldo passeara muito ali. A cada esquina me apontava uma e outra informação.

- Ali tem uma vala tão grande que parece que era um canal que se ligava ao rio e, consequentemente, ao mar.

- Imagines que civilização magnífica existiu aqui num passado distante.

- Sim. Imagines que costumes, que cultura deviam ter. Mas prefiro estar aqui agora do que quando isto aqui estava cheio de gente, de conflito e intriga.

O lugar que Beraldo escolheu pra si tinha uma verdadeira cozinha, com fogão a lenha plenamente utilizável. Ali cozinhou um arroz que ele mesmo plantou, trazido da Terra, e a carne do uruaú com legumes alienígenas.

- O camaramá parece um tomate branco. O tacanãá é como uma cana que, cortada em rodela e cozida, fica parecendo cará. E tem a fruta-pão e outras coisas da Terra que ainda estão crescendo. Mas venhas, tomemos o nhenheém, que é a seiva dum cacto gigante, uma autêntica cachaça de primeira.

De fato, o nhenheém supera o que de melhor eu havia provado na Terra. Ali, ao cheiro do almoço no fogo, do embriagante sabor da cachaça alienígena e duma indisfarçável saudade da Terra, Beraldo se pôs nostálgico.

- Á! Terra, Terra! Cheia de malucos e tarados mas também de lindas garotas. Cheia de civilizações belicosas, religiões malucas e políticos criminosos, mas também de músicas maravilhosas. E sabes qual a música que mais sinto saudade da Terra? Á! É a música do Paraguai.

Pegou um pequeno violão que deixara guardado num baú e cantou uma lenta toada, Saudade de Islenudsa. Quem seria Islenudsa? Só poderia ser alguém por quem se apaixonara na Terra.

O dia despontava quando recomeçamos a seguir viagem. Continuamos na trilha, quando um dardo atingiu um grosso tronco atrás de nós. Passou entre nós dois. Era Urcão. Em fúria assustadora se atirou sobre mim. Rolei num declive ficando um pouco esfolado e arranhado. Tive dificuldade em me desembaraçar do lodaçal cheio de raiz multirramificada.

A luta lá encima foi feroz. Beraldo foi derrubado várias vezes mas conseguindo revidar. Num golpe feliz derrubou Urcão, se apossando da adaga que o brutamonte deixara cair ao ser golpeado. Beraldo parecia a ponto de o apunhalar quando Urcão se levantou, depois de rolar, e fugiu. Eu, já de volta à cena, tirei minha arma de raio lêiser e apontei ao fugitivo. Beraldo me impediu de atirar. Então o peguei pela gola e ralhei com ele.

- Não estou entendendo! Ages como se fosse filho teu esse monstro! Fizeste corpo-mole. Poderias o ter matado e não o fizeste. Ainda me impediste de o matar. O que é isso? Alguma brincadeira?

- Está bem! Te contarei. Saberás por que não voltei.

Tirou a maletinha de pronto-socorro e fomos nos medicando enquanto contava.

Um dia me banhava no igarapé Moça Bonita, aqui perto, quando vi uma linda moça de cabelo negro muito longo que, nua, se banhava. Fui me aproximando e ela me recebeu com riso e alegria, como se fosse uma criança. Islenudsa. Aos poucos fomos aprendendo a nos comunicar. Como era linda Islenudsa, e tão meiga e maravilhosa como mulher alguma pudemos conhecer na Terra. Parecia uma garota da imaginação, não era chata como as mulheres da Terra. Nem o sultão que fez o Tajemarral da Índia, nem o imperador chinês que mandava caravanas buscar lechia pra sua amada, nem qualquer outro apaixonado da história terrena conseguiu, alguma vez, ver em sua amada um ser tão completo. Nem os portugueses com suas índias, nem os tripulantes do Bounty com suas taitianas de topilés dançando hula-hula. Não. Islenudsa era a coisinha mais maravilhosa que poderia existir.

Me ensinou muitas coisas aqui. Os alimentos nativos, as fases dos satélites no céu. Tudo o que se precisa pra se poder viver aqui. Me mostrou uns mapas muito antigos guardados na cidade de pedra e me prometeu contar muitas coisas sobre os habitantes do lugar.

Me ensinou sobre tudo mas quase nada sobre ela. Islenudsa era uma pessoa profundamente misteriosa. Não respondia a perguntas sobre sua origem. Por mais que eu tentasse a convencer ela não falava.

Fui ficando inquieto quando ela fugiu. Não a consegui encontrar. Então apareceu Urcão a me assediar barbaramente. Quem era? Seu marido, amante, um familiar? Numa dessas quase me matou. Noutra quase o matei. Tremo só de pensar que poderia ter feito.

Muitos meses depois ela voltou e Urcão não apareceu mais. De nada adiantou a interrogar. Assim ficamos juntos mais outro período. Quando chegou novamente a mesma época do ano em que ela fugiu observei bem pra descobrir o mistério. Ela voltou a ficar alienada, nostálgica. Observava a floresta com um olhar distante. Dava até medo a olhar diretamente. Enquanto ela dormia prendi, num fio de cabelo, um microcircuito e assim a pude seguir.

A encontrei num lugar bem camuflado de folha, no oco duma árvore. Islenudsa adormecida encasulada como uma crisálida! Fiquei pasmo, pensativo. Que espécie de criatura seria ela? Perigosa?

Montei ali um posto de observação e o que vi foi aterrador.

Islenudsa sofria uma metamorfose e se transformava em Urcão!

Islenudsa é a amante mais intensa e a companheira mais maravilhosa que pode existir. Mas, como todo bem tem um porém...

...Quando a estação muda ao meio do ano Islenudsa sofre uma terrível metamorfose. Se encasula e se metamorfoseia a uma coisa completamente diferente do que é. Fica assim meio ano deste planeta e outro tanto como Islenudsa.

Urcão, aquele feroz brutamonte, é Islenudsa ao sofrer a metamorfose. Urcão e Islenudsa são a mesma pessoa! Entendes agora por que não posso matar Urcão? Se o matar matarei também minha amada Islenudsa. Vês? Esse é meu dilema. É esse meu drama.

Islenudsa é um indivíduo da espécie que habita o continente e que tem essa natureza. Fiz uma piroga e ela escapou de mim levada pelas ondas. Islenudsa deve ter entrado nela e vindo até aqui.

Agora aguardo intensamente sua volta.

Um instante de silêncio. Eu não sabia o que dizer. Aquilo quebrava tudo o que me era familiar.

Quando me despedi de Beraldo:

- Tenho a impressão de que não voltarás à Terra.

- Penses bem. Quantos maridos na Terra sonham estar metade do ano com a mulher e a outra metade livre dela. Tenho isso todos os anos. Além do mais, já estou acostumado com isso. Quando eu era criança minha mãe, quando ficava nervosa, discutia comigo e ficava de-mal semanas.

- É, mas numa dessas Urcão te matará.

- Estou fazendo uma jaula. Urcão passará suas temporadas bem guardado. Falta pouco pra Islenudsa voltar. Só na próxima metamorfose terei a jaula.

- Já pensaste que a metamorfose pode se interromper tendo ela filho?

Beraldo foi pego de surpresa. Pensou e respondeu:

- É um risco. Ainda por cima ter monstrinhos em metamorfose! Não, não. É demais pra minha cabeça.

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