A Garganta da Serpente
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Jogo de azar

(Maria José Zanini Tauil)

Na mocidade, experimentou de tudo. Foi rei e plebeu, foi guerreiro e herói.Carregou estandarte em passeata, apanhou de militar, se expôs a perigos, teve o corpo esfolado, a cabeça raspada, a vida ameaçada. Conheceu sãos e insanos, teve amigos e inimigos,amou e foi amado, cicatrizou feridas, muitas dores causou, fumou, bebeu, dançou...foi dançado.

Chegou o amor arrebatador, deixou a boemia. Levou marmita no trem superlotado, esqueceu do violão e da cuíca. Chegava à noite, cheio de cansaço, sua vida era trabalho, criança esgoelando, mulher esbravejando de insatisfação.Tudo o que restou da mocidade, eram as lembranças das rodas de samba e das mulatas gostosas, que o chamavam de bamba.

Setenta anos. À frente, muitas garrafas de cerveja vazias. No radinho do bar, um belo samba dos anos idos. Todos ainda o cantam; foi sucesso nacional. Só não lembram dele...o compositor.

Pôs-se a cantar bem alto...e bebia. Bebeu tristezas, a vida perdida, bebeu o salário minguado, a modesta moradia, que era tudo...menos um lar. Bebeu pelo suor, pela velhice, pelo tempo implacável, que não nos espera. Lembrou a mãe morta, bebeu a defunta, bebeu ao mesmo tempo, o passado e o presente.

Aquele homem jogou todos os trunfos com o destino. Perdeu tudo, até mesmo a dama de espadas. Depois, jogou as garrafas vazias longe, deitou sobre os braços, bebeu lágrimas, cerrou os olhos.

A morte bebeu o homem...

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  • Publicado em: 13/02/2008
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