A Garganta da Serpente
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Ecos da palestina

(Miguel do Rosário)

Toda vez que vejo uma reportagem sobre a palestina, penso na burrice que fiz em comprar este apartamento. É que ele fica de frente pra uma das favelas mais violentas da cidade e todo santo dia (ah, como essa expressão - "santo dia" - me parece irônica), todo santo dia tem um maldito tiroteio. E eu aqui, um imbecil de bermudas e chinelos de dedo escondido no quartinho de empregada, que é o lugar mais seguro da casa contra tiros de fuzil e escopeta. A parede da sala já está com dezenas de buracos. Pensei em alugar a sala para a polícia como posto de observação das guerras do tráfico, mas desisti da ideia. Aí é que eu ia morrer mesmo, e sob torturas lentas e terríveis, como todo X9, os dedos-duro.

A minha estupidez consistiu em vender o belo apartamento que herdei de minha falecida mãe no Flamengo. Ele valia duzentos mil reais. Pensei: tenho quarenta anos e estou desempregado. O que fazer? Vendi o apartamento e comprei um bem mais barato aqui no alto de Santa Teresa. Estava tão excitado com o fato de comprar um quarto e sala, aparentemente bastante confortável, por apenas trinta mil reais, que nem desconfiei de nada.

É claro que eu sabia que a proximidade da favela era um fator de desvalorização, mas considerei isso apenas pelo lado vantajoso para mim, que era pagar um preço baixo pelo imóvel. Assim, me sobravam cento e setenta mil reais da venda do apartamento de minha mãe. Esse dinheiro, se aplicado meticulosamente, poderia render e me dispensar do trabalho pesado para o resto de meus dias. Ledo engano. Pelo andar da carruagem, quer dizer, pelo andar da pilantragem, esses "restos de meus dias" deverão ser desfrutados entre as nuvens do céu. Isso se o peso de meus pecados não me levarem a uma caliente temporada no inferno.

Não tenho tempo paz nem de dia nem de noite. Nas noites de sábado, às vezes, os tiros cessam. Em compensação, os bandidos patrocinam um baile funk cujas caixas de som parecem estar instaladas dentro da minha cozinha. Desesperado, comprei um tampão de ouvido. Eis meu destino: um zé mané de cuecão de bolinhas azuis trancado no quarto com um tampão de ouvido.

Porque você não vende o apartamento?, perguntam-me meus amigos. É simples. Ninguém mais quer comprar. Acho que não tiro nem dez mil reais pela venda dele. E não posso mais gastar o dinheiro que sobrou da venda do apartamento de minha mãe, porque também não sobrou muita coisa. Eu me envolvi numa operação de compra e venda de dólares e me lasquei. Comprei caro e vendi barato. Os cento e setenta mil reais caíram para menos de oitenta mil. Estou sendo obrigado a repensar minha decisão de não voltar a trabalhar. Ainda sou jovem, posso produzir muito. Mas não consegui convencer ainda nenhum empregador com esse argumento. Enquanto isso, vou ficando por aqui, arrastando-me pelo chão da sala para chegar à cozinha. Dois vizinhos meus já morreram este ano, baleados nos próprios apartamentos. Estou começando a duvidar que sejam mesmo balas perdidas. Acho que os bandidos estão praticando tiro ao alvo, e o alvo são os moradores deste prédio. Quem sabe, eu não arrumo um rifle de longo alcance, com mira telescópica, e comece a revidar? Na TV, o repórter diz que mais cinco palestinos foram mortos pelas forças de segurança de Israel. Amanhã, outro repórter poderá dizer que cinco bandidos do Morro dos Prazeres foram mortos por um atirador desconhecido de Santa Teresa.

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