A Garganta da Serpente

Lydya

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Estrada 26

(Lydya)

Estava escuro. A noite ia já avançada. Passavam das três horas da manhã. Num fiat punto de 2000, azul escuro, rebaixado e com duas potentes colunas instaladas na bagageira, para impressionar quando cruzava as ruas com a música vários decibéis acima do suportado pelo ouvido normal, um grupo de amigos aproveitava o sábado, o tão ansiado sábado depois de uma semana de aulas.

Gui, o mais velho do grupo, conduzia o carro, fazendo manobras arriscadas de propósito só para arreliar as raparigas. A seu lado, Pedro consolava-se com uma garrafa de cerveja comprada numa dessas bombas de gasolina, em que bastava ter dinheiro para comprar bebidas alcoólicas e ninguém pedia um documento de identificação. Nos banco de trás, Joana e Lucas namoravam, interrompidos apenas pelas curvas mais apertadas, e Vânia embalava a irmã de Pedro, tentando que esta adormecesse apesar da algazarra que ia dentro do carro.

- Porra, Gui, vai mais devagar! A miúda daqui a bocado vomita para cima de mim!- gritou Vânia, lançado olhares recriminatórios a Pedro, por este continuar a beber cerveja como se não fosse nada com ele.

Gui olhou-a pelo espelho retrovisor. Abriu a boca naquele sorriso que sabia derretê-la em três minutos. Há muito tempo que Vânia tinha uma paixão secreta por Gui, que deixara de ser secreta a partir do dia em que contara a Joana. Sabendo da verdade que se escondia por detrás dos olhares languidos que Vânia lançava a Gui quando ele sorria, Joana não conseguira esconder a confissão e apressara-se a contar tudo ao objecto de tal paixão. Vânia deixara de confiar na Joana, Lucas ficara chateado de ver a namorada aos segredos com o melhor amigo, Pedro sentira-se excluído de todo aquele frenesim hormonal, Gui apercebera-se de que tinha em Vânia uma oportunidade de aparecerem feitas aquelas coisas mais chatas que ele não gostava de fazer, como os trabalhos de Biologia ou a lavagem do carro, e Vânia sentira-se tão envergonhada que durante dias não fora capaz de olhar Gui no olhos- mas continuavam todos amigos.

- Vânia, fofinha, aguenta só um bocadinho.- disse Gui, num falsamente carinhoso- Estamos quase a chegar ao bairro do Pedro. Depois ele vai para casa e nós podemos curtir o resto da noite!

Vânia parou de resmungar e apertou a criança ainda mais contra si. No seu íntimo, acalentava a esperança de que, ficando sozinho com ela, enquanto Lucas e Joana e perdiam no corpo um do outro, Gui a beijasse, nem que fosse só para passar o tempo. Vânia não se importava. Só queria poder ter Gui nos braços, estar perto daqueles olhos verdes, despentear ainda mais o cabelo aloirado e beijar aqueles lábios inspiradores de vários poemas escrito na aula de Matemática. Encorajada por essa expectativa, Vânia empenhou-se ainda mais na tarefa de adormecer a menina. Mas esta não parava de chorar. Aborrecido, Pedro inclinou-se para trás, lançando um forte bafo de cerveja, e disse-lhe:

- Mariana, pára de chorar! Se não chorares no caminho até casa, compro-te um chocolate.

Os olhitos da menina de cinco anos arregalaram-se. O choro diminuiu para uns soluços ocasionais e acabou por dormitar, aquecida pelo abraço de Vânia, cuja imaginação voava uma horas mais à frente, fantasiando o beijo romântico que, tinha a certeza, Gui lhe iria dar.

O carro deu uma guinada. Joana descolou os seus lábios dos de Lucas, para perguntar, alarmada:

- Gui, que se passa?

- Não é nada, Joana!- gritou, arrancando a garrafa de cerveja das mãos de Pedro e dando um grande golo- És uma desconfiada, tu! Para a próxima vais a pé, porra!

Joana calou-se, ofendida, enfiando-se debaixo do braço de Lucas, à espera que este a defendesse. Como ele ainda lhe sussurrou um "Cala-te!", Joana virou a cabeça para a janela, amuada.

Gui voltou a beber mais cerveja. Vânia abriu a boca para o lembrar da promessa de não beber quando conduzia, para a fechar logo a seguir, ao ver o ar carrancudo que lhe assombrava o rosto. Começou a cantarolar uma música infantil ao ouvido de Mariana, mais para se acalmar a si própria do que à criança.

Tudo o resto foi confuso e precipitado. O carro deu uma guinada de novo, mas desta vez os reflexos de Gui não foram suficientemente rápidos. O fiat resvalou para a berma e aproximou-se da beira do desnível. Ao ver a altura entre a estrada e o chão, lá em baixo, Pedro entrou em pânico e agarrou no volante ao mesmo tempo que Gui. Joana gritava, Lucas blasfemava, Mariana chorava e Vânia continuava calada, de olhos arregalados, com uma expressão aterrorizada no rosto.

Houve um clarão na noite escura. Um estrondo distante, o embate contra o solo. Pedro sentiu uma forte dor na cabeça e um líquido quente escorrer-lhe pela testa. Abriu os olhos. A princípio tudo era um grande buraco negro. Depois os contornos foram-se tornando distintos. Gui jazia inanimado, cabeça contra o volante, um fio de sangue saindo do nariz. Lucas e Joana permaneciam agarrados, mas ambos contorcidos numa posição estranha, impossível para alguém cujos ossos estivessem intactos. Parecia um retrato tirado dum filme de terror, um casal, qual Frankenstein e a sua noiva, esperando juntos a sua boleia para o cemitério. O cabelo comprido de Vânia tapava-lhe o rosto, pelo que Pedro não conseguia ver a sua cara, mas continuava imóvel, portanto devia estar também inconsciente. A última a ser diagnosticada pelo olhar de Pedro foi a sua irmã Mariana. Sentiu um apertão no coração e as lágrimas arderem-lhe nos olhos e misturarem-se com o sangue. A irmã, que, para seus pais, estava supostamente deitada, aninhada no seu enorme urso de peluche, tinha o rosto coberto de sangue e um enorme pedaço de vidro cravado na perna. Já não chorava e Pedro não conseguia detectar nenhum sinal de respiração.

Tentou alcançar a irmã, mas o estado do carro e o cinto de segurança, que colocara mais por hábito, de tanto ser pressionado pelo pai para o pôr quando viajava de carro com a família, do que por segurança, impediam-no. Debateu-se violentamente, mas uma dor intensa nas costelas fez com que parasse. Rompeu num choro silencioso. As lágrimas corriam-lhe pelo rosto apressadas, mas a garganta não conseguia soltar qualquer grito. Como é que fora capaz de trazer a irmã na saída com os amigos? Só conseguia pensar no que os pais iam dizer. Iam pô-lo de castigo para sempre. Isto se... Na melhor das hipóteses, Pedro ficaria de castigo. Nem queria pensar na outra probabilidade.

Ainda mais que a cabeça, doía-lhe a alma de tanto sentimento de culpa. Se ao menos não tivesse aceitado o convite dos amigos, se tivesse ficado em casa a ver um filme, com a irmã a brincar no tapete da sala, se não se tivesse oferecido para tomar conta da irmã, seduzido pelo dinheiro que os pais poupariam na ama, e lhe dariam a ele, para comprar os ténis que vira no centro comercial. Se, se, se... A cada batimento de coração, um grande "SE" ressoava na sua cabeça.

Pedro não sabe quanto tempo durou o seu choro abafado. A certa altura, ouviu um gemido vindo da sua esquerda. Olhou para o lado e viu Gui cabecear, recuperando os sentidos.

- Puto, que é que aconteceu?- perguntou Gui numa voz fraca.

Pedro não respondeu. Olhou-o com desprezo e raiva. Era demasiado óbvio o que tinha acontecido! Virou a cabeça o mais que as dores lhe permitiram e ficou a fitar a escuridão, tentando controlar o enjoo. Sentiu o amigo remexer-se no lugar e pode constatar que ele observava o estado dos amigos, pois logo a seguir Gui rebentou em pranto.

- Bolas, puto, que é que aconteceu? Eu controlei o carro tão bem a noite toda!- soluçou Gui, mais para si mesmo do que para Pedro.

Após ter formulado a pergunta, a cabeça de Gui voltou a tombar sobre o volante. Perdera de novo o sentidos. Pedro sentiu-se angustiado. Apesar do ressentimento para com o amigo, era sempre bom tê-lo consciente, pois não sabia quanto tempo iam ficar todos ali, presos no carro, até que os socorressem.

Ouviu um barulho de sirenes, seguido de clarões azuis. A ambulância chegara. Pedro lançou um último olhar à irmã e aos amigos. Mesmo sem acreditar em Deus, pediu-Lhe que os salvasse. Dava-lhe jeito que existisse alguém omnipotente lá em cima e que tivesse o bom senso de salvar, pelo menos, Mariana, que ainda era uma criança.

Antes de fechar os olhos e desfalecer, Pedro pode ouvir uma voz distante, metálica : "Acidente na estrada 26 com um grupo de adolescentes. Precisamos de reforços.".

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