A Garganta da Serpente
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Caso de pé

(Lira Vargas)

Ernani era dotado de grande timidez. A mulher já lhe havia falado:

- Compra um sapato, hôme, nem parece que você é trabalhador.

Mal sabia a mulher que o maior problema de Ernani não era o dinheiro, mas como trazer os sapatos. Os dias passavam, o pagamento saiu. Tomou coragem, entrou na sapataria, os espelhos da vitrina refletiam seu ar desajeitado. O balconista, muito educado, ofereceu os sapatos. Nada, Ernani não se decidia, apenas negava com sinal de cabeça. Após longo tempo decidiu.

O balconista educadamente, perguntou se o sapato iria na caixa. Ernani disse um "não" assustado. O balconista insistia, achando que Ernani queria ser educado ao extremo, pôr isso recusava uma caixa, e talvez achasse que seria trabalhoso embrulhar. Ernani dizia apenas "não". O balconista foi até a seção de embrulhos e disse:

- Faz um embrulho caprichado, põe aquele laço em forma de flor, que o freguês merece.

Ao chegar à seção de embrulhos, Ernani sentiu o estômago embrulhado, o sangue colorir-lhe o rosto suado, passou as mãos pêlos braços em atitude nervosa. Pensou: como vou sair com esse embrulho de sapatos? Ainda mais o número 44... e que caixa!.

Saiu da loja, abraçou a caixa, era grande demais, colocou-a sob o braço suado, ficava de asas aberta, ridículo. Depositou-a sobre a mão, mas lembrou-se do gesto do garçom, parecia que estava servindo uma bandeja. Não sabia como levar aquela caixa, que a essa altura pesava-lhe cada vez mais.

Entrou num bar da esquina. Suava, olhou para os lados, a vergonha fazia-o ofegante. Deixou a caixa no canto do balcão, pediu uma cerveja, pensava num jeito de sair dali com aquela maldita caixa de sapatos. Arquitetou mil planos. Deixaria a caixa no bar como esquecimento, se pudesse, iria de táxi, mas quase nunca andava de taxi, haveria outra alternativa? Pagaria a cerveja e a deixaria ali mesmo. O líquido escorregava-lhe pela garganta seca. Pessoas entravam e saiam. Entrou um pivete, pediu um trocado, nos pés reluziam tênis maiores que os pés, sentiu vergonha pelo garoto. Alguém bem humorado do outro lado do balcão falou:

- Sapato novo, hein, Juquinha?

Ernani tomou um susto, olhou para o copo, pensou: Meu Deus, adivinharam. O que fazer? Mal sabia que a piadinha tinha sido pro pivete.

Pagou a cerveja, disfarçou, saiu de mansinho. Na rua, o ar secou-lhe o suor. Pulou uma poça d'água numa alegria de menino. Livrara-se dos sapatos - "prós diabos o dinheiro gasto" tentou até um assobio - tum, tum.. bate coração... O trânsito estava uma loucura, o sinal fechou, deu o primeiro passo e uma voz de menino alta e estridente:

- Moço, o senhor esqueceu seu sapato novo no bar.

Maldito! Pensou. Viu as caras rindo, um riso de admiração pelo gesto de honestidade do menino e o olhar infantil esperando uma gratificação.

Ernani agarrou a caixa, partiu para a fila do ônibus do bairro. Uma fila enorme.

- Deus, a maioria vai para o colégio, como vou fazer? Ou fico um tempão esperando ou arrisco a fila dos em pé. Não, e se não conseguir sentar?

Sentiu-se numa enrascada. Não teve outra alternativa. Foi para a fila dos sentados. Umas estudantes conversavam:

- A professora vai arrochar com os "autos"

Pros diabos com esses autos, elas só descerão no colégio, pensou arrasado.

No ônibus, conseguiu um lugar após a roleta. Descansou os braços na enorme caixa. Até se sentiu aliviado. No ônibus cheio, as conversas variavam.

- A Professora exigiu outro seminário, já não aguento mais ouvir falar em seminário...

Ernani já não se importava tanto, afinal estava sentado, vencera a batalha. Era só esperar, já estava a caminho de casa. O ônibus parou, entrou um sujeito alegre, chapéu amassado, a camisa quadriculada. Exibia no peito aberto um crucifixo, nas mãos duas caixas de sapatos amarradas uma sobre a outra. No interior, quatro passarinhos debatiam e os bicos nos buracos feitos para respirar. Ernani gelou, abraçou sua caixa e, num olhar suplicante, pediu ao Cristo pendente no peito do aparente caçador que este seguisse e se instalasse lá na frente das alas dos bancos. Foi inútil, o homem parou a seu lado e falou num tremendo vozeirão:

- Companheiro, dá para segurar essas caixas? Ah!, você também está levando passarinhos ou é sapato novo?

Ernani sentiu-se o último dos homens, não sabia o que responder, olhou para os lados e disse baixinho:

- São limões, limões...

E, sobre seu colo foram depositadas mais duas caixas. Sua vergonha era escondida sob as caixas. Os passarinhos pulavam, num apelo indecifrável para o pobre Ernani.

O ônibus seguia. Ao passar no colégio, muitos alunos desceram, logo adiante o caçador agradeceu e desceu e se foi. Restou o sapato na caixa com um lacinho em forma de flor.

- Maldita caixa, pensou outra vez. - Na próxima vez, Ziza vai comprar meus sapatos.

Desceu, antes esbarrou nos que estavam de pé. No degrau, um tropeção e a voz do motorista:

- Cuidado com o sapato. A caixa caíra no chão, Ernani quase a chutou, mas apanhou cheio de vergonha.

Embrenhou-se pelo caminho escuro, os buracos faziam-no caminhar trôpego e humorístico. Ia o mais depressa que podia. O vento calmo arrepiava seus cabelos, mas não enxugava o suor que brotava a cada passo

- Para aí, é um assalto.

Ernani já estava quase em casa. O ladrão lhe impedia a passagem

- Quero tudo seu.

Ernani entregou-lhe o relógio, o restante do pagamento. O ladrão exigiu:

- Quero esse sapato também.

Ernani entregou a caixa. Não sabia se sentia raiva ou alívio. Soltou um suspiro:

Da próxima vez, Ziza compra meus sapatos.

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