A Garganta da Serpente
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Final de semana

(Lira Vargas)

Éramos cinco jovens a fim de passar um final de semana num lugar diferente. A Marcela tinha família em Campos, e nos convidou para conhecer o farol, onde tem uma praia linda. Mas pra nosso azar, choveu naquele dia e a praia ficou esquecida.

Rejane, apesar de gaiata, é tímida. Chegando nessa casa, havia um velhinho meio esclerosado, que logo ao deparar com Rejane, deu um piscar de olhos. Ela cinicamente olhou pra mim e disse:

- Credo, o veinho piscou, pra mim, você viu?

Respondi baixinho pra ela.

- Pelo amor de Deus, se comporta, fica calada e faz que não viu.

Pois a minha preocupação era dar uma risada e fazer feio.

Em todo lugar que a gente ia na casa o veinho seguia Rejane que dando uma risadinha discreta, falava baixinho.

- Vou dar um soco nesse veio.

Eu implorava que ela ficasse calada, pois a família era de pessoas ricas e o veinho tinha sido juiz de direito da cidade.

Na hora do almoço, ao sermos convidados pra mesa, o veinho ficou mirando a Rejane, e Rejane mirando ele, pois ela percebeu que ele queria uma oportunidade de sentar ao seu lado, e quando nos dispusemos a sentar, ela ao se dirigir ao local, percebeu o veinho se aproximando, ela deu um empurrão em mim, e sentou no meu lugar, conseguindo assim que o veinho ficasse ao meu lado.

Eu prendia o riso, e ela cinicamente disse ao meu ouvido:

- driblei e venci.

Era terrível a situação, à vontade de rir era grande, mas não podia, e Rejane pilheriando ao meu ouvido sempre que podia.

- a luta vai ser desigual.

E foi servido o almoço. Pra decepção de Rejane, o prato principal era fígado, e ela detesta fígado. Ela olhou pra mim e tentou dizer algo. Virei o rosto para o outro lado, temendo o que ela iria dizer e pra não rir, nem quis saber o que ela tentou dizer.

O veinho de frente pra ela, insistia que ela pegasse o fígado, ela apenas fazia sinal que depois pegaria.

O veinho insistente pegou um bife bem grande e colocou em seu prato, a cara de pavor de Rejane foi tão engraçada que não aguentei, comecei a rir, tentava disfarçar e ela cinicamente disse baixinho:

- não driblei... Perdi.

Já sentia vergonha da situação e quando consegui parar de rir, prometi a ela que nunca mais a levaria a lugar nenhum.

E o drama de Rejane começara ali, ela comia em volta do bife de fígado enrolando, sem saber como sairia dessa.

Pra sorte dela, nesse momento, o telefone tocou, era um dos filhos dos donos da casa que viajara ao USA. E foi aquela emoção, todo mundo se levantou da mesa para conversar com o rapaz, mas o veinho não se manifestou, ela olhou pra mim com cara de pavor, pois seria uma oportunidade dela se livrar do fígado, tentei não ouvir o que ela disse, mas não consegui.

- E agora?

Respondi:

- Pára, pelo amor de Deus. Nesse momento alguém chamou:

- Ôooooo, fulaninho (pois não lembro o nome do rapaz) quer falar com o senhor.

A cara de Rejane foi de vitória, fiquei tentando imaginar o que ela iria fazer, temi que ela jogasse o bife de fígado em meu prato, mas nada fiz, pois conhecendo a Rejane como eu conheço, fiquei olhando-a, ela com ar de vitória cinicamente cantarolo:

- tan, tan, tan, tan e pegou o bife de fígado, nesse momento alguém veio entrando, ela imediatamente abaixou a mão, e ficou com a mão em baixo da mesa, pegou um guardanapo e embrulhou de qualquer jeito o bife de fígado. E sem saída disse aos meus ouvidos:

- E agora? Eu ia botá-lo em seu prato.

Repondi:

- Fica quieta, por favor. - Mas já rindo da situação.

O pessoal voltando do telefonema, rindo, felizes e nós, quatro amigas, sentadas na mesa a rir da situação de Rejane.

Quando o veinho vinha se aproximando ela olhou pra mim, virei o rosto pra rir, pois certamente ela iria dizer algo engraçado. Não teve jeito:

- Lá vem ele meu Deus.

E o veinho ao sentar, olhou para o prato de Rejane e para nosso espanto, disse:

- Ô moça, como é mesmo seu nome?

Rejane respondeu e ele disse:

- Você gosta de bife de fígado, né? Pega mais um.

A Rejane olhou apavorada pra ele e disse que não, olhou pra mim e perguntou, e agora? O que eu faço?

Prendi o riso, não sabia o que fazer era uma situação engraçadíssima, pois ela tinha o primeiro bife no colo, e o que fazer com o outro?

E o veinho escolheu outro bife de fígado e colocou no prato de Rejane, que com um sorriso sem graça agradeceu.

E retornou o drama. De repente vi Rejane cortar pedacinhos de fígado, não conseguia imaginar o que ela faria, ela, com um guardanapo, fingia que limpava a boca e devolvia os pedaços pro guardanapo, e fez assim com todos os pedaços. Ou seja, ficou com dois embrulhos disfarçados no colo.

Ao terminar o almoço, fomos convidadas a irmos para a varanda, e lá ia Rejane, disfarçando com o embrulho apertado na mão.

Ao passar pôr um banheirinho perto da saída do corredor, era uma casa muito grande e antiga, ela olhou, e deu uma piscada pra mim.

Pensei, é agora que ela vai se livrar, e dei uma risada disfarçada.

Ela entrou no banheiro e nada de sair, demorou, fiquei preocupada, e nesse momento ouvi sua voz.

- OOOOO, eieieieieie, fui até lá, mas a dona da casa já estava perto e ouvi Rejane dizer: - Por favor, preciso de uma balde d'água, não tem água na descarga.

Ela havia jogado os bifes de fígado no vaso sanitário.

A dona da casa, delicadamente disse:

- Não se preocupe, esse vaso está entupido, chamarei o jardineiro pra dar um jeito.

Rejane olhou-me com um ar de indignação, balançou os ombros, não sei o que ela pensou, só vi o sorriso escancarado dela.

Logo veio o jardineiro.

Estávamos na varanda, ela acompanhou-o até a porta e disse:

- Não se assuste não, é assim mesmo.

O Jardineiro depois de retirar os pedaços e um bife inteiro passou pôr nós com cara de assustado.

Na manhã seguinte fomos embora, e no ônibus disse pra Rejane:

- É a última vez que saio com você, rindo muito. Ela respondeu:

- É só não me levar pra casa de banheiro entupido.

Ria a viajem toda da cara dela.

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