A Garganta da Serpente
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Menina, boneca de pano

(Luciana Pereira)

Laura, delicadamente, após mais uma noite de espera despertava de seus sonhos, trazia em sua face angelical um sorriso envolvente, dona de um olhar devorador, capaz de sequestrar os mais insólitos pensamentos. Ao se despreguiçar abraçava-se como se desejasse a si mesma um bom dia, ao lado de sua cama conferia as horas num pequeno despertador vermelho, colocado ali propositalmente, pois sempre perdia o primeiro tempo de suas aulas. Esticava-se toda como se quisesse alongar mais um pouquinho aquelas horinhas de sono. Inspirou profundamente e ao devolver o ar, pulou da cama. Começava mais um dia de Laura.

Depois de um banho com água quente estava pronta. Ela era tão suave em suas formas e teus traços transmitiam uma doçura penetrante que transformava qualquer amargor de um dia triste. Vestida agora com suas sapatilhas, nas pontas dos pés, ela bailava com a leveza das borboletas, pelas quais era simplesmente apaixonada. Dedicava grande parte de seus dias aos ensaios no palco e, arduamente, no chão buscava sentir todo o seu corpo, entregando-se por completa à arte da dança. Com esmero trabalhava as suas fragilidades a fim de atingir a perfeição dos movimentos, o que a aproximava ainda mais dos seres encantados.

Após todo um dia de ensaios, ela regressa para casa com o sol já se posto, ficava a contemplar a noite como uma boneca de pano que sempre tem os olhos voltados para o céu. Permanecia imóvel por horas a esperar por algum sinal vindo das estrelas. Não se cansava, resistia ao sono por mais que seu exausto corpo de bailarina estivesse clamando por uns minutos de sono.

Rejeitando a companhia de Morpheu, doava-se a lua procurando por entre os nuances de cinza algo que lhe remetesse o semblante de um novo amor. Mas, percebeu que o cinza era muito pálido para colorir uma figura tão cintilante. Ao final de cada noite via que lhe sobrava muito sono e faltava lhe ainda um rosto. Mas, mesmo assim, sempre estava disposta há mais um outro dia.

Era uma segunda-feira e Laura havia dormido muito tarde, o despertador não estava no local habitual e quando deu por si, percebeu que tinha perdido a hora de seus ensaios. Resolveu ficar em casa, tudo em sua volta estava muito estranho, seus objetos já não estavam nos mesmos locais e decidiu por organizar seu quarto naquele dia, afinal ele iniciara diferente.

Depois do banho, arrumou a cama, trocou os lençóis e constatou que suas bonecas de pano haviam mofado, juntou todas em uma sacola e foi colocá-las no quintal, passou pela cozinha onde apanhou uma maça, dando uma primeira mordida quebrou o seu desjejum de uma noite inteira acordada. À porta do quintal acarinhou o cão que balançava o rabo ao vê-la, o correspondeu com um sorriso que iluminou lhe a face.

Perto da cadeira de balanço, tirou uma a uma de suas bonecas, encostando todas na parede, ainda com a maça na mão sentou-se e intercalava cada balançar com uma mordida. Faltando o último pedaço, pondo se a levantar, observou suas bonecas de pano, acompanhando o olhar delas, Laura inclinou a cabeça em direção ao céu, ficando bestificada com a imagem que lhe feria os olhos e tocava o coração. Encontrou a cor mais cintilante que poderia imaginar, estava diante a luz do sol e ela que sempre esperava pela noite. De sobre salto, pôs-se a dançar, e em companhia de uma borboleta, sentia-se completamente contagiada por aquela nova paixão que a chamava.

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