A Garganta da Serpente
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A Porta

(Lauro Oell)

Ao olhar a porta fechada do banheiro refletida no espelho, foi inevitável que o velho pensamento surgisse novamente: "e se, do outro lado da porta, no quarto escuro, existisse algo a me espreitar. Um ser indescritível, olhos amarelados, pele grossa e vincada, chifres, dentes inúmeros. Um hálito infernal. Somente espera que eu apague a luz e abra a porta para saltar sobre mim e então a agonia seria inenarrável".

Era inevitável, rotineiro. Todos as noites, quando ele entrava no banheiro para escovar os dentes e cuidar de outras necessidades, enfim, de preparar-se para dormir, o pensamento surgia e ressurgia, incontrolável. O quarto às escuras, onde a mulher já dormia, conduzia ao banheiro. O simples ato de fechar a porta, isolando aquele ambiente iluminado do outro, no escuro, criava mil possibilidades, infelizmente todas tenebrosas.

A escova de dente prá lá e prá cá, fazendo seu trabalho, auxiliada por espuma, que aumentava abundante; o olhar vagueando pela pia, pelo aparelho de barba, pelo sabonete, pela torneira pingando. Subindo então para a parede, fixando-se nos ladrilhos e suas imagens subliminares; por fim, no maldito espelho. E no espelho, refletida, como a zombar dos esforços para ignorá-la, a porta fechada.

O homem riu-se, numa tentativa de autoenganar-se. Desprezo do inevitável, tentar ignorar a realidade, numa negação covarde.

"Mas que bobagem! Como sou idiota! Já não era hora, com essa idade, de saber que tais pensamentos, esses medos pueris, são simplesmente impossíveis? Até parece...".

Triste tentativa.

A mente vagueia como um cavalo chucro: "não é um monstro com olhos amarelos que está no quarto, do outro lado da porta. É, sim, algo indizível, indescritível, incorpóreo. Algo como o próprio medo: desesperado, inconsciente, irracional, pegajoso e gelado. Só uma coisa não muda: ele quer me levar com ele".

O incômodo da situação, que se repete todas as noites, não parece diminuir como os outros pensamentos sobre um perigo desconhecido. Ao contrário, mantém-se, como um aviso, daqueles que são pregados nas paredes: o perigo que é alertado nunca diminui, está sempre ali; existe e não se pode ignorá-lo, sob pena de pagar alto preço. Assim pareciam aqueles momentos no banheiro: avisos.

Terminou. Cuspiu a espuma, enxaguou a boca e lavou a escova. Virando-se, levantou a tampa do vaso, sempre evitando olhar no espelho. Só não consegue evitar os pensamentos.

"Na verdade, a porta do banheiro é uma passagem para outra dimensão, um espaço-tempo paralelo, à primeira vista igual ao nosso, mas onde ocorrem situações alternativas, nem sempre agradáveis, de nossas vidas. Continuamos casados com a mesma pessoa, temos os mesmos amigos e familiares, o mesmo emprego. Mas pelo simples abrir a porta e sair do banheiro, nossa realidade já não é mais a mesma, passamos para outra vida. E assim, todas as noites quando saio do banheiro, sou outro. Na verdade somos cobaias de um experimento sócio-cultural de dimensões planetárias...".

O homem voltou à realidade com o esvaziamento de sua bexiga. Sorrindo com o absurdo que pensou, deu a descarga e se preparou para sair do banheiro.

Inevitável olhar para o espelho. E nele ver refletida a imagem da porta fechada. O medo era real, e perturbava-o. No fundo do seu consciente, ele sabia que havia algo lá do outro lado.

"Agora falando sério (ou pensando sério). Acho que vou começar a deixar o meu abajur aceso antes de entrar no banheiro. Já estou de saco cheio, toda noite ter a mesma sensação".

Suspirando e sentindo um desconforto palpável, virou-se, ficando de frente para a porta fechada. Inspirou profundamente, apagou a luz do banheiro e abriu a porta.

A escuridão, com seu abraço arrepiante, o envolveu imediatamente...

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