A Garganta da Serpente
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Tuquinha e a Boitatá

(Luiz Morvan Grafulha Corrêa)

O Tuquinha estava definitiva e irremediavelmente possuído pelas histórias e lendas gauchescas. Primeiro fora a entrevista com o Negrinho do Pastoreio. Seguira-se o encontro com o Primeiro Caudilho Rio-grandense, o grande Sepé Tiaraju, herói das lutas missioneiras contra a ignominiosa tirania de além mar, que por sinal, estivera por um triz de ser banido, por decreto do Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Sul, da galeria dos heróis gaúchos, não o sendo, em parte, pela defesa memorável que lhe fez o nobre e muy culto pelotense, Mansueto Bernardi, à qual outras tantas se somaram, alinhavadas pelas mais expressivas penas, em parte, pela aclamação e reconhecimento popular de que já desfrutava junto aos habitantes desta terra sem igual, que aos seus filhos queridos, reconhece e glorifica, que é o Continente.

Agora era a hora de calcar as virilhas do flete, tocar para diante e ir atrás de novas legendas do imenso populário gaúcho. E assim foi.

O gaúcho vinha, a várias noites, cuidando um alumiamento que surgia no fundo dos campos. Às vezes lá, outras, acolá. Não eram velas pro Piá Beiçudo porque sabia serem diferentes. Era uma luz esverdeada, mortiça, feia como coisa ruim, mas que ao índio não metia medo. Pelo contrário, aguçava-lhe a curiosidade. Então, como hábito se estava tornando e como andava meio desguaritado do amor, mais por culpa da percanta do que dele, numa noite alta, montou o indefectível Malacara e tocou para os cafundós da fazenda, na esperança de, como das outras vezes, encontrar o mito ou a assombração.

Andou para o sul, partindo do potreiro das casas, abrindo e fechando as porteiras das invernadas para não deixar que o gado nelas contido se extraviasse e tinha andado um quarto de légua, quando avistou, em riba de uma coxilha protegida por um capão de mato nativo, a dita luz. Fosforescência seria melhor dizer.

O Malacara sacudiu-se, nervoso e o cavaleiro firmou os pés nos estribos e dirigiu-se para aquela luminescência que não sabia o que era. Já enfrentara muito índio maleva, vivo, o que era perigoso, para amedrontar-se com coisas naturais e provavelmente mortas. Acercou-se do capão, desmontou e marrou o flete, bem amarrado, para não ficar a pé, num galho de cabriúva, que nascera na orla do mato.

No chão, ajeitou o poncho a gosto e puxando da prateada pequena, que sempre trazia enfiada na guaiaca, pôs-se a picar fumo, tranquilo, enquanto a alma não dava as caras.

Enrolou o palheiro e ia deitar-lhe fogo quando o cavalo, ainda amarrado, relinchou e retesou a soga como se a fosse arrebentar.

Uma coruja velha, que dormitava num galho seco, arrepiou o penacho e batendo asas, cambiou de freguesia. O Malacara, vendo que não se desfazia a laçada que o mantinha preso, escoiceou à deriva e acabou por aquietar-se, mais por cagaço do que por outra coisa.

O Tuquinha, nada de se abalar.

Tirou uma baforada do palheiro recém enrolado, cuspiu para o lado um pedaço de fumo que lhe entrara na boca e acocorou-se, para esperar o que quer que fosse. E era.

Com estardalhaço, rompeu de dentro do capão, uma cobra grande como os pecados do mundo, alumiando a sua radiação e ficou, a meia distância do gaudério, se enrodilhando no chão de terra fofa com seu corpo pegajoso.

O índio não se intimidou. Continuou pitando, sereno, agachado, até que o animal, vendo que não lhe incutia medo, aproximou-se.

- Boa noite, Dona Cobra! - saudou-a o homem.

- Boa noite Seu Tuquinha! - respondeu-lhe a aparição.

- Então a senhora Cobra sabe quem eu sou?

- Todos sabem, por estas bandas.

- E o nobre animal rastejante é?...

- Eu sou a Boitatá!

- Muito prazer! - voltou a falar o gaúcho.

- O que o traz para estas bandas em noite tão alta?

- Curiosidade...

- Curiosidade de quê? - perguntou-lhe a peçonhenta.

- De conhecê-la...

- A mim?...

- Isto... Também sobre a sua criatura hey lido...

- E o que se diz a meu respeito?

- Muitas coisas, vivente... Muitas coisas...

- Cite uma delas...

- Hay quem diga, por exemplo, que a amiga não passa de luz emanada de ossos de animais mortos, que por um fenômeno natural acaba irradiando esta claridade esquisita...

- E que mais dizem?

- Que o amigo é a guardiã das pastagens e dos campos do Rio Grande...

- Desta eu gostei mais. - disse o animal, baixando a guarda.

- Mas muitas outras coisas se hay dito nos galpões, por gentes diversas, que não leram as suas histórias... Que só ouviram contar e que a cada vez que, por sua vez contam, algo inventam e outro tanto aumentam...

- É verdade?

- Juro que é! Por essa luz que me alumia...

- Prefiro que por essa não...

- Pois que não seja... Juro por Deus então.

- Assim é melhor. - disse o bicho, mais tranquilo e aliviado.

- Mas inda que eu mal pergunte, qual é a atividade da amiga?

- Eu ando pelos campos, daqui para lá e de lá para cá...

- E a troco de que gasta o couro da pança em andanças? - fez-lhe a pergunta o Tuquinha, que não entendera bem a explicação e estava a achar que andar à-toa era um enorme desperdício.

- Para trazer as gentes do mundo em cagaços!

- Mas a troco?

- É uma história muito longa...

- Eu tenho tempo... - disse o gaúcho, dando a entender que não ia arredar pé sem conhecê-la inteira.

A Boitatá se aproximou rastejando e fez feição ao lado do gaúcho, enrodilhando-se confortavelmente e perguntando, por desencargo de consciência:

- Toda a história?

- Todinha! De fio a pavio...

A medonha aspirou o ar da noite para tomar fôlego e iniciou:

- Há muitos e muitos anos...

- Só um momento Dona Cobra, enquanto me acomodo... - pediu o índio velho, ajeitando o poncho no chão e deitando-se de lado, olhando para a bichorra, apoiado sobre o cotovelo. - Agora, pode continuar...

- Como eu dizia, há muito tempo, em época muito antiga, caiu sobre o mundo uma noite tão longa que parecia que nunca mais se veria a luz do sol. Os seres da terra se assustaram porque a sombra era tanta... Negro, o céu quedou-se, sem sol e sem estrelas e a terra sem ventos, sem sereno e sem ruídos, sem cheiros e sem nada. Até o fogo se apoucava, sem chamas, porque não havia vento e, em não havendo, as faíscas, que lhe dão vida não saltavam. Os viventes não deixavam as casas, de medo. Os animais não encontravam os rastros... Só o Quero-quero lançava ao ar o seu lamento e cada vez que gritava, lançava ao vazio as esperanças da humanidade de que as coisas cambiassem e voltassem a ser como eram... Então veio a chuva intensa que encharcou os campos e foi se ajuntando... As sangas transformaram-se em arroios, os arroios em rios, os rios em mares... Sobraram apenas os cocurutos das coxilhas mais altas, onde se ajuntaram os animais, apavorados, misturados e amigos, no pavor da enchente...

- Acho que foi a enxurrada que levou a ponte do Cerrito...

A Boitatá não deu atenção para o gaudério e continuou:

- A água tomou conta de tudo. As gretas e as tocas foram as primeiras e aquela onde eu me encontrava não ficou para trás...

- Então molhaste a pança?

- Molhei!... Saí bufando, rabeando, nadando como uma desvairada e de raiva, comecei a comer as carniças dos animais afogados. As carniças não, os olhos...

O gaúcho cuspiu para o lado, enojado e a bicha continuou:

- À medida que a água foi baixando, aumentava a carniça e mais olhos eu comia...

- Barbaridade, tchê! E aí?

- Aí aconteceu um fenômeno inesperado...

- Como assim? - quis saber o Tuquinha.

- É simples... Assim como a abelha que sorve o néctar da flor do pessegueiro produz o mel com seu aroma; a vaca estabulada, o leite com cheiro de palhas frescas; o galo do terreiro o cheiro do milho nas carnes, eu, que não tinha escamas como os peixes, nem pelos como os matungos e nem lãs como as ovelhas, fui ficando transparente, com os olhos todos que havia ingerido lançando, dentro do meu bucho, as últimas luzes que haviam visto antes da grande noite... É por isso que passei a emanar esta luz mortiça, esse clarão sem chamas e sem vida...

- Mas que sina! - exclamou o chirú, penalizado.

- Isso não é nada... Os homens ao me verem, não reconheceram a velha Boiguaçu que eu era e me chamaram Boitatá... Boi-de-fogo... Então, farta de olhos mortos eu queria comer os vivos, mas o Téu-téu, posto por Deus nos campos, avisava da minha chegada...

- Como os gansos... - murmurou o Tuquinha.

- Não! Os gansos, não... - disse a Cobra, que não conhecia muito bem a história de Roma, muito menos a do Capitólio e não entendera a analogia.

- E então pegajosa, que fizeste da vida?

- Enfraqueci, porque nos olhos não havia sustância e morri...

- Morreste?

- Sim, morri por sobre as carniças e os ossos e meu corpo, assim como daqueles pobres animais mortos na enchente, se decompuseram e viraram pó.

- E então? - quis saber o ouvinte.

- Então o sol que estava maneado escapou-se e voltou a brilhar...

- Assim no más?

- Não... Degavar... Primeiro foi perdendo o negrume o céu... As estrelas foram surgindo... No horizonte, pintou a borda azul do firmamento... Aí nasceu, primeiro uma cambota vermelha que foi subindo e arredondando até que o dia voltou a ser como dantes, dividido em metades, como sempre fora...

- E tu, vivente? Levastes à breca?

- Levei... Tudo a terra come e a mim também comeu... Sobrou só esta luz que carrego e que não me aquece... Esverdeada, mortiça, que não deita fogo nas macegas, nem faz fumaça...

- E é verdade que a Senhora Cobra só aparece no verão?

- É certo... É que no verão, mais animada, eu corro os campos depois dos mormaços... Sempre só, descendo as canhadas em disparada e subindo as coxilhas, alumiando, em busca de novos campos de carniça... Ora apagando aqui, e ali, quando menos esperam, voltando a alumiar...

- E hay risco em encontrar-te? - perguntou o gaúcho, de mansinho.

- Quem me encontrar pode ficar cego...

- Então é verdade?...

- O cavaleiro sabe? - perguntou ela, com um fiozinho de baba escorrendo presunçoso pelo canto da bocarra.

- Hey lido uma coisa ou outra... - disse ele, cauteloso.

A cobra, dando por encerrada a narrativa, enrodilhou-se, armando o bote para dar cabo do capataz e comer-lhe os olhos.

O índio velho, no entanto, não era bobo e lhe conhecia as manhas. De um salto, se pôs de pé. Noutro, chegou ao Malacara e montou, sem tocar nos estribos. O laço estava à mão, preparado em larga armada. As chilenas calcaram a virilha do flete que saltou para diante, desfazendo a amarra que o prendia e saiu em disparada, enquanto o gaúcho fazia rodar a laçada por cima da cabeça e desfechava um tiro certeiro, de pealo-de-sobre-lombo, envolvendo o corpo da víbora e trazendo tudo de arrasto, como mandava o rezador, solto até a ilhapa.

Alguns minutos durou aquela correria. Na frente, ia célere o pingo, descansado, esperto e assustado, mandando patas na terra conhecida. Na esteira, a Coisa Ruim, acompanhando feito parelheira, se estropiando nas macegas que o cavalo saltava e se acabando, se esfarinhando aos poucos, até que se desmanchou.

Mais uma centena de metros, por luz e por garantia e o capataz sofrenou o matungo e voltou-se para trás, para ver o que sucedia e viu ainda o lume se apagando em miles de pontos pequerruchos que caiam no chão e se extinguiam e que, de certo, em outra noite e em outro local voltariam a aparecer e a outras gentes assombrar, porque as lendas não perecem nem terminam e com a Boitatá não seria diferente.

De volta, temporariamente à paz, do bolso das bombachas tirou os vícios, enrolou outro pito, acendeu, tirou a primeira baforada e disse, mais para si mesmo do que para o Malacara.

- Vamos para casa...

(PoA, 07/Mar/2003)

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