A Garganta da Serpente
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Sétima charla:
O Cordeiro e o Lobo

(Luiz Morvan Grafulha Corrêa)

Na sétima noite, monsieur apresentou-se animadíssimo, trajando um jaquetão cor-de-rosa, camisa de rendas bastas, peruca cacheada de uma cor azul turquesa e sapatos de saltos três quartos, de fivelas prateadas.

Esopo, por sua vez, veio envolto pelo mesmo manto de linho branco que o acompanhava desde que chegara. Provavelmente, o mesmo que vestia desde que se conhecia por gente grande.

O gaúcho achava um espetáculo a roupa do grego, que muito bem traduzia a simplicidade tão característica do povo culto e bravo da sua pequena ilha.

A viúva, tinha faniquitos ao deparar-se, a cada dia, com as roupas exuberantes de monsieur, a quem julgava como suprassumo do bom gosto e da masculinidade.

Como diz o ditado, com muita propriedade, gosto não se discute.

O gaudério, trajava as bombachas velhas, as alpargatas de sempre, que utilizava para andar em casa e uma camisa de flanela axadrezada, para lá de gasta e puída.

A matraca, que sempre gostara de vestir roupinhas escabrosas, desde os tempos da repartição, quando já apreciava mostrar a alcatra, veio com sua saia justa e curta, de couro bege e uma blusinha mais justa ainda, também de couro, azul, com fecho na parte dianteira, corrido só até a metade, deixando à mostra a leiteria.

Monsieur, antes que o capataz passasse a palavra para Esopo, que já estava abusando do seu uso, adiantou-se:

- Hoje quem vai falar sou eu!

- Que bom mon amour!... - exclamou a donzela, com um gritinho, aproveitando a oportunidade, para abraçá-lo e beijá-lo.

- E que fábula o senhor nos vai narrar? - quis saber o gaudério, depois que a zinha usara e lambuzara, para fazer o devido registro, que vinha organizando, para as gerações futuras.

- Vou contar-lhes a fábula do Cordeiro e do Lobo. - respondeu, cheio de si, complementando: - De autoria do meu colega, Esopo e com a sua autorização.

O gaudério apontou, na resma de almaço que servia de ata às charlas, usando a pena que um dia, para as cartas, arrancara ao rabo da perua velha e que ia, de quando em quando, mergulhando no vidro de tinta Pelikan, para abastecer.

Esopo ajeitou a corcunda de encontro ao espaldar da cadeira e esperou, pacientemente, que o francês fizesse a narrativa.

A perua, não a da pena, a do capataz, tomou assento, ao lado daquele que faria a narrativa, como de hábito, e encostou a cabecinha no seu ombro almofadado por largo enchimento de feltro na casaca e aguardou, piscando os olhinhos ansiosos.

O mestre de cerimônias sinalizou, favoravelmente a que tivesse início a charla e o francês lascou, sem mais delongas:

- Um cordeiro bebia às margens de um córrego...

Aí, a viúva, contorcendo-se junto ao peito do narrador, para poder falar-lhe de olhos nos olhos, perguntou:

- Ué, essa não é em versinhos?

Monsieur apertou-lhe, delicadamente, o narizinho, com os dedos esguios e brancos e, sacudindo a cabeça, continuou:

- Quando chegou o Lobo e perguntou-lhe: "Por quê bebes da mesma água que eu...? Não vês que assim a água que me toca chega turva?..."

- Que lobo mais malvado!... - exclamou a moça e o narrador prosseguiu, depois de endereçar-lhe um sorrisinho sem graça:

- O pobre cordeiro, trêmulo de medo, tentou argumentar: "Senhor lobo, como posso estar a contaminar a sua água se eu bebo a jusante?..."

- Jusante? - voltou a interromper a moça - O quê é isso?

O marido, que conhecia a matéria, explicou:

- Jusante, querida, significa para onde as águas fluviais correm... É a parte mais baixa... Ao contrário de montante, que é de onde elas provem... Da parte mais alta...

- Ah, entendi!... - exclamou ela, alegre - É como nas nossas contas correntes, não é?

O gaúcho, que não entendera bem a analogia, arriscou em perguntar:

- Como assim, querida?

- É que no nosso caso, o dinheiro flui de montante, que é minha conta, onde sempre tem alguma coisa, para jusante, que é a tua e onde nunca tem nada...

O gaudério achou que ela havia entendido bem a explicação e pediu para o francês que retomasse a narrativa.

Monsieur prosseguiu:

- O Lobo digeriu o argumento do Cordeiro, mas não se deu por satisfeito...

- Talvez porque não soubesse a diferença entre jusante e montante... - observou a viúva, muito senhora de si.

- Não... - explicou La Fontaine - Saber, ele sabia, mas não queria conversa...

- Mas queria o quê, então? - ela voltou a perguntar.

O capataz, impaciente com todas aquelas interrupções, explicou, ligeiramente alterado:

- Ele queria era comer o cordeirinho!

A moça horrorizou-se:

- Nem fala uma coisa dessas, Lindinho! - depois, ansiosa, voltou a encarar monsieur, perguntando: - É verdade, petit biscuit?

Monsieur aquiesceu e ela, rápida, quando se tratavam de barbaridades e de coisas maliciosas, sugeriu, ao pé do ouvido do francês:

- Monsieur, depois da historinha, não gostaria de brincar de lobo e de cordeirinho, comigo?

La Fontaine, que como já visto e comprovado, tinha medo, mas não tinha vergonha, olhou para o gaudério, para ver se ele tinha ouvido a tirada e, achando que não, suspirou aliviado e continuou:

- Como eu dizia, o Lobo não se satisfez com as desculpas do Cordeiro e contra argumentou: "Mas alguém já turvou a minha água..." O Cordeirinho, trêmulo, voltou a explicar-se: "Mas não eu, meu senhor..." Ao que o Lobo, que não estava para conversa fiada, retrucou: "Pois então foi teu irmão!..."

- Que maldade!... - tornou a exclamar a moça.

La Fontaine ignorou a observação, continuando:

- "Eu não tenho irmãos!..." - defendeu-se o pobre animalzinho, acuado. O Lobo pensou um pouco e voltou à carga: "Pois então foi o teu pai, ou teu avô!..."

- E fora? - quis saber a viúva, que não tinha entendido ainda muito bem o sentido da fábula.

- Deixe o senhor La Fontaine contar a história, querida!... -

intercedeu o gaúcho, em auxílio do narrador que, volta e meia, quase perdia o fio da meada, tanto que era interrompido e aparteado.

- O Cordeirinho, não tendo mais argumentação, foi devorado pelo Lobo... - conclui monsieur.

A matraca ficou quieta, esperando o final da história, que já havia sido dada por encerrada e quando se deu conta de que não vinha mais nada, desabafou:

- Dessa historinha eu não gostei, mon bel ami!

Monsieur desculpou-se, com um gesto e o gaúcho, ainda inebriado com a narrativa, observou, sem se haver apercebido, por ignorância, do verdadeiro sentido do termo bel ami que a patroa utilizara:

- Mas é uma bela história!...

- Mas Lindinho, é horrível!... Cheia de crueldade!...

- É uma demonstração da força contra a lógica... Ou, mais precisamente, de que contra a força, não há argumento... - achou por bem explicar o gaúcho, que ouvira a narrativa com toda a atenção.

- Isso é verdade... concordou a viúva - Eu também já sucumbi muitas vezes, ante a força...

- A... A... À força de argumentos mais fortes? - perguntou Esopo, manifestando-se pela primeira vez naquela noite.

O gaúcho fez o pelo sinal, imaginando o que viria. E veio.

- Não, senhor Esopo... Ante a força bruta e viril de belos rapazes mesmo!...

Agora foi a vez de La Fontaine abismar-se:

- É mesmo, madame?... - e completou: - Ces't la joie de vivre!

- Ué, já estava achando que monsieur não gostava! - retrucou a moça que, para falar a verdade, já andava com a pulga atrás da orelha, uma vez que o francês alisava.. Alisava... Mas não passava o ferro.

Ao francês, ocorreu mencionar que, de rapazes fortes e viris, também gostava, mas resolveu calar-se.

O chirú, boiando no palavrório estrangeiro, do qual conhecia só uma palavrinha que outra, meio que, por sexto sentido, achou que não devia estar saindo boa coisa e resolveu por bem, mudar o rumo da conversa:

- O senhor La Fontaine amanhã há de nos brindar com outra pérola, não?...

O francês assentiu:

- Já sei, até, qual será!...

A chinoca, vendo que outro dia passara em vão, agastou-se e, amuada, perguntou, olhando para o francês, bem de frente, quase que à queima-roupa:

- Mon bijou, como é muito comum fazer-se aqui nessa terra, eu pergunto: Monsieur veio até o Basílio para comer ou para conversar?

(do livro Tuquinha, La Fontaine e Esopo )

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