A Garganta da Serpente
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Segunda charla:
O fazendeiro e os filhos

(Luiz Morvan Grafulha Corrêa)

Na segunda noite, após o jantar, prepararam-se os viajantes e os donos da casa para a segunda sessão de palestras a respeito das fábulas, que haviam aqueles, escrito a miles de tempos e que, até os dias de hoje, encantavam a todas as gerações do mundo inteiro, que as sabiam de cor e salteado.

Como na noite anterior fora a vez de La Fontaine narrar uma das suas criações, nesta seria a de Esopo que, sem mais delongas, exceto a provocada pela gagueira, iniciou:

- V... Vo... Vou contar-lhes a fábula do fazendeiro e dos filhos...

- E será em versinhos, assim como a de monsieur La Fontaine?... -

quis saber a viúva, lançando um olhar de mormaço para o francês que, com a ajuda de um pequeno espelho de moldura dourada, retocava o pó-de-arroz.

- N... Nã... Não, senhora... - respondeu o grego, educadamente.

- Que pena!... - exclamou a moça - Foi tão lindinha!...

O grego prosseguiu:

- U... U... Um fazendeiro, estando às portas da morte, chamou os filhos ao pé do leito, para contar-lhes um segredo: "Meus filhos, estou morrendo e quero dizer-lhes que em nossa propriedade há um tesouro escondido... Se vocês cavarem, hão de encontrá-lo."

E assim, logo que o pai morreu, os filhos pegaram pás e ancinhos e

reviraram o terreno de todo o jeito a procura do tesouro. Não acharam nada, mas a terra, trabalhada, produziu uma colheita nunca vista...

La Fontaine, à conclusão da história, fez um muxoxo de tédio.

- E isso é tudo? - perguntou a moça, que esperava mais.

- S... Si.. Sim... - confirmou Esopo - É... É... Esta é toda a história...

- Que significa, - disse o gaúcho - que é o trabalho, o verdadeiro tesouro, não é?

O autor concordou que era, ao que La Fontaine discordou:

- Mas esta é uma história boba... Onde se viu alguém revirar a terra e ela produzir sem que lhe hajam deitado as sementes?

- É... É... É uma história simbólica... - defendeu-se Esopo.

- Mas monsieur tem razão, - aparteou a donzela - as coisas não estão muito bem explicadas... Além disso, já vimos esse tema na história de ontem e ficou provado que o trabalho nem sempre é o melhor remédio...

- Mas não podemos olvidar que esta história foi criada seis ou sete séculos antes de Cristo, - voltou a interferir o capataz, continuando: - quando as coisas eram diferentes... Além disso, não aconteceu no Brasil, onde acredito, realmente não teriam tido, as palavras do moribundo, o efeito desejado...

A moça, que na presença de terceiros gostava de desfazer do marido,

corrigiu-o, com ares de muito sabida:

- Lindinho, quando falamos nos séculos antes de Cristo, devemos primeiro empregar os maiores e depois os menores...

- Como assim? - perguntou o gaudério.

- Deve-se dizer sete ou seis séculos antes de Cristo, que é para ficar devidamente ordenado, uma vez que o período referido fica entre os séculos sétimo e sexto e não entre o sexto e o sétimo...

- Ué, mas não é a mesma coisa?... Não é parecido?

- Parecidos, são os homens que tive, que queriam todos a mesma coisa... - disse ela, complementando: - E parecido, não é igual... - aí pensou um pouquinho e garantiu: - Não é mesmo, Lindinho!...

La Fontaine endereçou-lhe uma vênia, de admiração pela erudição, o

que trouxe um calor de satisfação à moça, que para refrigerar-se talvez, correu discretamente mais um pouquinho do fecho da blusa, para baixo, expondo o colo generoso.

Esopo resolveu interferir, para que a discussão não se alongasse:

- Qua... Quan... Quando escrevi esta história, era minha intenção lembrar aos leitores que o trabalho tudo vence... Q... Q... Que é muito mais importante produzir do que especular...

- Nisto o senhor está redondamente enganado! - objetou a viúva.

Agora foi a vez do gaudério indignar-se:

- Mas se a riqueza não advém do trabalho, de onde advirá?

- Da especulação... Da bolsa de valores... Das atividades ilícitas... Da corrupção... Da exploração do trabalho de terceiros... -

começou a moça, sendo acompanhada pelo olhar de peixe morto de La Fontaine, que ficava vidrado quando ela se manifestava.

- Acho que não... - argumentou o gaúcho, aparteando - Eu, por exemplo, trabalhei a vida inteira...

- É!... - concordou ela, complementando: - E no que é que deu? Não tens onde cair morto!... Estás sem atividade nenhuma hoje, a não ser essa bobagem que inventaste, de contar histórias, como se fosses capaz e, além disso, o próprio sangue te quer arrebatar o pouco que ainda possuis...

- E que eu não devo! - esclareceu o gaúcho, pelo sim, pelo não.

- Não! Não deves, realmente, mas para a justiça, não faz a menor diferença... Já, se tivesses sido um safado, um grande ladrão ou um colarinho branco, ela estaria do seu lado!

- É possível... - concordou o capataz, pensativo.

- Em França as coisas não eram assim... - interferiu La Fontaine.

A viúva brindou-o com um sorriso do tipo "tomara que me comas" e

perguntou, fazendo biquinho e ar inocente:

- Não?...

Foi novamente a vez do gaudério manifestar-se:

- Como que não?... Olhemos para a literatura... Os três Mosqueteiros, por exemplo, que sempre tivemos por mocinhos, eram os maiores trapaceiros que já existiram...

- Como assim? - quis saber La Fontaine, indignado, ao que o

gaúcho, que andara lendo a obra de Alexandre Dumas, explicou:

- Viviam às custas das mulheres e das amantes... Tudo aquilo que tinham, era delas que provinha...

Ao que a viúva arrematou, capciosa:

- Hoje em dia não é muito diferente, não é, Lindinho?

La Fontaine apanhou a crítica no ar e achando-se muito superior ao

gaúcho, tirou a caixinha de rapé do bolso, aspirando um pouco do conteúdo e oferecendo-a, a seguir, à moça, ansioso que se encontrava por achar uma nova protetora, uma vez que estava quase a ver navios em França, tendo sido inclusive preterido, pelo rei Luís XIV, para ocupar uma vaga na Academia Francesa de Letras, em favor de Boileau, que era o preferido do monarca, o que causara um certo constrangimento à Madame De La Sablière, sua atual protetora, que estava pensando seriamente em dispensa-lo, por medida de economia e, principalmente, pelo seu sofrível desempenho no... no... No leito!

O gaudério fez ouvidos moucos à mulher e olhos cegos ao francês, para não ter de ampliar o bate-bocas, com a primeira e, de dar um relhaço, dentro da própria casa, no segundo, o que seria coisa muito feia, visto ser este um convidado, prosseguindo:

- Acho que estamos nos afastando do tema...

Esopo, que era o conciliador natural, apesar do desdém com que era

tratado pelo francês, intercedeu, a favor do proprietário:

- F... Fa... Falávamos do trabalho...

- Isso... Dessa coisa estúpida que inventaram para nos encher as horas... - disse La Fontaine, mal disfarçando um bocejo.

A viúva, que não perdia uma oportunidade de babar no peito do autor

francês, arrematou:

- Monsieur tem toda a razão... Perde-se um tempo enorme escolhendo as roupas que vestiremos na manhã seguinte, para não fazermos feio no ambiente de trabalho...

- Ué, eu uso sempre as mesmas bombachas... Só cambio as cuecas... - observou o gaudério, ao que a prenda, mais uma vez,

maldosa, ajuntou:

- Isso, porque eu peço! Senão, ficavas com a mesma a semana inteira...

- Pode ser, mas banho eu tomo todo o dia! - defendeu-se o capataz.

Um rubor subiu à face da donzela, com a indireta e o francês, cortês,

saiu em seu socorro:

- Eu banho-me apenas duas vezes por ano... Fora isso, troco a camisa e as ceroulas diariamente e uso e abuso das colônias...

A viúva, recuperada na sua dignidade, esticou o narizinho empinado

para o pescoço do estrangeiro, aspirando profundamente e, após suspirar, disse:

- E não tem o menor bodum!

Ao que o capataz não se conteve, exclamando:

- Então deves estar com as ventas lacradas, mulher, porque até daqui estou sentindo a catinga!

- Nó.. Nó... Nós estávamos falando da minha fábula... - voltou a

interceder o grego, que estava vendo a hora em que o circo ia pegar fogo.

O gaúcho, aborrecido com aquilo tudo, voltou a dar de mão nos vícios... Picou o fumo crioulo com calma... Muy minuciosamente, enrolou o palheiro, que levou à boca, enquanto que com a outra mão campeava nos bolsos, atrás do isqueiro de mecha que finalmente encontrou e lhe deu três ou quatro piparote, até que ficasse em brasa, para deitar fogo ao pito.

Com muita paciência, tirou a primeira baforada, enquanto se lhe arrefeciam os ânimos e, só então, deu continuidade a charla:

- Dizíamos?...

- Da... Da... Da minha fábula sobre o trabalho... - voltou a lembrar

o grego, com toda a humildade.

- Bah! - exclamou agora o francês - O assunto vai e vem e não conseguimos nos livrar desta fábula boba!

Esopo encolheu-se na sua cadeira, pronunciando ainda mais e mais a

corcunda e o gaudério, que afinal era o dono da casa e devia manter as coisas em ordem, repreendeu-o, sutilmente:

- Fábula boba uma merda!

- Lindinho! - exclamou a viúva, desfalecendo sobre o francês.

La Fontaine já estava com a moça nos braços. Talvez, que não de

todo apagada ou fora de si, porque o gaudério, aproximando-se para atende-la também, ouviu quando murmurava, para o galante escritor, ainda de olhinhos semicerrados:

- Afrouxe mais a minha blusa porque não consigo respirar...

Foi o tempo que deu para o gaúcho passar a mão na bombinha, que

ela trazia sempre na frasqueira, e aciona-la uma ou duas vezes, goela adentro da moça, que logo voltou a dar sinal de vida, dando fim ao mise-en-scène, com um grand finale:

- Onde estou?...

Ao que o francês, balanqueiro, respondeu:

- Madame, tu je ne sais pás... Mais je suis au ciel!

E o gaudério, que não era trigo limpo, acrescentou, para encerrar bem

encerrada aquela entente cordiale:

- Jeu de mains, jeu de villain... E toca cada um para o seu quarto, para acabarem logo com esta sem-vergonhice!

(do livro Tuquinha, La Fontaine e Esopo )

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