A Garganta da Serpente
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Décima quinta charla:
Le Pot-Pourri

(Luiz Morvan Grafulha Corrêa)

Finalmente, chegou a décima quinta e última noite das charlas.

Monsieur, apareceu trajando o que de melhor e mais inédito possuía: uma casaca dourada que mandara seu alfaiate confeccionar ao ser anunciado, publicamente, que concorreria a uma vaga na Academia Francesa. Infelizmente, como sucedera ao bom poeta do Alegrete, fora sistematicamente deixado à margem, em prol de outro, que também editara uns versinhos, falando de lichiguanas e que era, senão o próprio monarca, como aqui, pelo menos, mais chegado à coroa do que monsieur.

Choises de la vie, como ele mesmo diria.

Esopo, que sempre se mostrara muito modesto, quase às portas da mendicidade, apresentou-se com o mesmo manto branco de linho das outras noites, da viagem e provavelmente de toda a eternidade.

O gaudério, como sempre. De bombachas, alpargatas e camisa de flanela.

A sensação, no entanto, como esperado, estava reservada à madame, que apareceu trajando a sua famosa saia de couro bege, que lhe deixava a picanha à mostra, muito ao seu gosto e ainda mais ao alheio e, o não menos famoso colete, também de couro, azul, cujo fecho, estava corrido só até a altura do umbigo, onde já fizera casa.

As pernas, havia cuidadosamente depilado, coisa que só fazia, em véspera de viagem para a praia, para a capital ou para o Rio de Janeiro, quando solita ia. Por calçados, as sandálias brancas, de saltos altos, apresilhadas aos mocotós.

Quando, após os salamaleques e rapapés abancaram-se, já o gaúcho ia com os apontes a meia folha e não perdeu tempo em abrir as parlas, conclamando, solene:

- Comecemos a sessão!

A viúva levou a mão ao coraçãozinho e pediu, melosa:

- Lindinho, não uses essa palavra!...

O chirú não entendeu o porquê e resolveu esclarecer:

- Ué, querida, mas por que?

- Porque ela me faz lembrar de quando eu estava na ativa, lá na agremiação... - explicou a moça.

- Mas não era bom? - voltou o marido a arguir.

- Por isso mesmo, Lindinho!... Por isso mesmo!...

- O... O.... O senhor pensou na minha proposta de fazermos um pot-pourri, senhor Tuquinha? - perguntou Esopo.

O gaúcho aquiesceu, complementando:

- Sim... Por sinal, achei a ideia magnífica...

Esopo encabulou e um rubor subiu-lhe às faces.

- Isso quer dizer, - disse La Fontaine - que cada um contará uma fábula esta noite?

- Isso mesmo, monsieur... - assentiu o capataz, que já estava até chamando o francês de monsieur, continuando: - Se o senhor quiser fazer a abertura...

- Abertura, quem fazia era eu!... - exclamou a prenda, julgando que estava sendo deixada em segundo plano, o que era inadmissível, uma vez que, na repartição, sempre fora a prima donna.

La Fontaine, malicioso, aproveitou a oportunidade:

- E madame abria muito?

- Abria, monsieur!... Abria tudo que podia...

Ao que o gaúcho, melancólico, acrescentou:

- Agora já não abre tanto, não é querida?

- É no que tu te enganas, Lindinho, pois quando estou na capital, abro que me arregaço...

- À fábula, senhor La Fontaine... - pediu o gaudério.

Monsieur pensou um pouquinho e começou:

- Vou narrar-lhes, com a devida vênia do autor, a fábula do Urso e dos Viajantes...

Todos se aquietaram, com exceção do grego, ao lado de quem tivera a madame o cuidado de cruzar as pernas e o francês iniciou a história:

- Dois viajantes vinham por uma estrada, quando se depararam com um urso faminto...

- Que horror! - exclamou a moça. Depois, pensou melhor e acrescentou: - Para falar a verdade, eu também já me deparei muito com eles...

- Com ursos, querida?... - perguntou o marido, penalizado.

- Ai, Lindinho, nem sei!... Mas, peludos, eram!...

La Fontaine lançou um olhar compungido para o gaúcho, meneou a cabeça e prosseguiu:

- Um dos viajantes, rapidamente, subiu em uma árvore e o outro, apavorado, atirou-se ao chão e fingiu-se de morto...

- Não adianta nada!... - exclamou a moça novamente.

O narrador continuou:

- O Urso, não podendo alcançar o primeiro, que estava no topo da árvore, chegou-se ao segundo, que estava prostrado ao solo, esticou o focinho até a sua face, cheirou-o e foi embora...

- Sem fazer nada? - perguntou a moça, incrédula.

La Fontaine concordou e a narrativa teve seguimento:

- O viajante que subira árvore acima desceu e foi ter com o colega, a quem perguntou: "O que foi que o Urso te disse, ao pé do ouvido?" O companheiro, pondo-se de pé, respondeu: "Que eu não devia viajar com quem abandona seus companheiros na hora do perigo..."

- Maravilhosa esta fábula! - disse o gaúcho, ao término.

- Só que está errada, Lindinho! - disse a madame.

- Não vejo onde, querida?

- É que não adianta se fingir de morto, isso eu digo por experiência, porque eles te comem do mesmo jeito...

- Madame já teve de fazer-se de morta? - perguntou La Fontaine.

- Já, monsieur e lhe garanto que não adiantou nadinha!

O francês voltou a provocá-la:

- Não teria sido uma artimanha de madame para beneficiar algum pretendente mais tímido?...

Ela sorriu da pergunta e foi desnecessária a confissão.

- Agora o senhor, Esopo... - disse o gaúcho, para dar continuidade à tertúlia, que prometia.

- Vo... Vo... Vou narrar-lhes a fábula da Rã e da Raposa...

- E será em versinhos, senhor Esopo? - quis saber a moça, que adorava, quando rimadas.

O grego, com muito esforço, negou e continuou:

- U... U... Uma rã gritava, desde o seu poço aos demais animais: "Sou médica!... Sou médica e conheço muito bem todos os remédios para todos os males!..."

O gaúcho olhou para a prenda, que tinha dessas manias.

Esopo prosseguiu:

- U... U... Uma raposa a ouviu e reclamou: "Como te atreves a anunciar ajuda aos demais, quando tu mesma coxeias e não te sabes curar?..."

O gaudério voltou a olhar para a chinoca. Abriu a boca para fazer uma observação, mas voltou, por prudência, a fechá-la.

A moça, por sua vez, não se intimidou nem se furtou a comentar:

- Pois eu tenho curado muitos males...

- Sobretudo aos de amor, creio!?... - acrescentou La Fontaine.

- Estes, muito os curei, monsieur... E também deles, muito padeci...

O gaúcho, que não queria perder tempo, voltou a convidar o francês a que tomasse a palavra.

Monsieur compenetrou-se e começou a segunda fábula:

- Volto a narrar uma criação do colega Esopo... Chama-se o Cão Raivoso...

- Coitadinho! - compadeceu a viúva, que adorava animaizinhos.

La Fontaine esperou que ela se acalmasse, o que só aconteceu depois que pegou a mão de Esopo entre as suas e apoiou-as entre as pernas e então, começou:

- Um cachorro costumava atacar sorrateiramente e morder os calcanhares de todas as pessoas que encontrasse pela frente...

- Lindinho, - interrompeu a viúva - não é naquela história do cavalo de pau que também tinha um cãozinho que mordia os calcanhares das pessoas?

O gaúcho explicou, pacientemente:

- Não, querida... Naquela história, tinha um personagem, chamado Aquiles, que havia sido mergulhado, quando criança, seguro pelo calcanhar em um lago mágico, de sorte que, a exceção da dita parte, tornara-se invulnerável...

- Isso mesmo! - exclamou a donzela e voltou a perguntar: - Então um cãozinho mordeu-lhe o calcanhar, não?

- Isso eu não sei, querida... É possível...

- Mas ele não morreu dessa mordida? - insistiu a dama.

O gaúcho voltou a esclarecê-la:

- O senhor Esopo, como conterrâneo, é a pessoa mais indicada para falar, mas, ao que me conste, depois de duelar contra Heitor, no cerco de Troia, foi morto por Páris, que lhe acertou com uma flecha no mencionado ponto vulnerável...

- Para falar a verdade, Lindinho, eu também já fui muito flechada no meu ponto vulnerável!...

- Não é a esse ponto que me referi, querida!...

Madame olhou para Esopo, que confirmou a história e só, então monsieur pode seguir com a fábula:

- O dono do cão, colocou-lhe um sino ao pescoço para alertar os incautos, que, assim avisados, podiam buscar lugar seguro...

- Que nem nas nossas vaquinhas, Lindinho!

La Fontaine não deu ouvidos e prosseguiu:

- O cachorro cresceu orgulhoso e vaidoso do seu sino, caminhando pelas ruas da cidade, até que um velho cão de caça lhe disse: "Por que te exibes tanto? Este sino que carregas não te traz nenhuma honra, pelo contrário, é um aviso para que todos te evitem..."

A viúva ficou sem entender a história e o próprio monsieur, que a havia narrado, explicou:

- Madame, esta história, fiz questão de contar para que também a senhora saiba que notoriedade e fama são duas coisas completamente distintas...

- Mas monsieur se engana se acha que eu penso ser notória!...

- Madame tem razão, uma vez que carrega apenas a fama!... - acrescentou, acre, o francês.

O gaúcho, que estava vendo as horas escoarem, deu a palavra ao senhor Esopo, para que fizesse a última narrativa e o grego logo começou:

- Ma... Ma... Madame, vou narrar outra fábula, que também muito deve lhe dizer. Trata-se da história do Asno na pele de Leão...

- Dizer alguma coisa a mim?... - perguntou ela, retirando a mão do grego de entre as pernas e colocando-a sobre os seios, agradecida:

Esopo aquiesceu e começou:

- U... U... Um Asno, tendo colocado sobre o corpo uma pele de Leão, vagava pela floresta a divertir-se em pregar peças nos outros animais que encontrava pelo caminho, até que se deparou com uma Raposa que, tão logo ouviu sua voz, exclamou: "Eu provavelmente teria me assustado se não lhe tivesse ouvido o zurro!..."

- Ué, e o que essa história tem a ver comigo? - perguntou a donzela, que não entendera a ironia:

Foi monsieur quem teve de explicar:

- É que uma pessoa vulgar, madame, mesmo com belas roupas, não conseguirá esconder a própria vulgaridade...

Madame sorriu e contra-atacou, ferina:

- Por isso é que eu sempre preferi que me encontrassem despida!...
O gaúcho fechou a ata, que depois de lida, e sem ressalvas a fazer, foi, por todos os partícipes, assinada.

Encerradas, oficialmente as charlas, os donos da casa ajudaram os viajantes a que arrumassem suas coisas para a viagem que empreenderiam e, depois de tudo pronto, caíram nas suas respectivas camas, para o descanso merecido.

(do livro Tuquinha, La Fontaine e Esopo )

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