A Garganta da Serpente
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Tuquinha e o Negrinho do Pastoreio

(Luiz Morvan Grafulha Corrêa)

(baseado em: O Negrinho do Pastoreio, de J. Simões Lopes Neto)

O Tuquinha muito impressionado ficara com a história do tal de Negrinho do Pastoreio, que lera em um livro de autoria do grande pelotense J. Simões Lopes Neto, que apanhara na biblioteca do deputado e, como já vira umas luzinhas, alumiando lá no fundo dos campos da fazenda, em noites escuras como o breu, resolveu que numa delas encilharia o pingo malacara e iria ver com os próprios olhos. Dito e feito. Haviam se passado poucos dias da leitura e ainda, com o tema a lhe arrodear pela cachola, foi-se para a varanda, após o jantar, para enrolar o palheiro e dar umas pitadas, quando tornou a vê-las. Era noite negra. Daquelas em que não hay estrelas nem nada. Só o halo que provinha do lampião que os peões mantinham aceso no galpão se enxergava, com dificuldade, mais por saber que estava lá do que por ver. A casa do deputado era uma mancha indistinta, perdida no meio da noite. Terminou de enrolar o pito, acendeu-o com o isqueiro de mecha amarela, pensou na china que estava nos pelegos, meio dormindo, meio fingindo que dormia para não ter de enroscar-se com ele, deu de mão no poncho de lã, porque a noite era fria, no abas-largas de feltro, para aparar a geada e foi-se à mangueira, onde os cavalos dormitavam de pé, encarangados. Em silêncio, passou a soga no matungo e saiu degavar, rumo ao galpão, para lhe por os arreios. Pronto o animal, montou-o e enveredou no trote, de escoteiro, porque era marcha para taura, em direção à porteira do potreiro das casas. Venceu-a e entrou campo à dentro, em busca do luzir que avistara.

Andou duas horas. Talvez um pouco mais e, pelos seus cálculos, já se encontrava no sítio que procurava. Com efeito. Logo ali, na sua frente, numa pequena clareira que se abria no chircal, uma vela, inacreditavelmente acesa, apesar do vento que reinava. Logo adiante outra e mais outra, enfim, às dezenas, todas ardendo nos claros abertos. Súbito, do meio das moitas, saltou um vivente. Era preto como um tição. E novo. Muito novo, em pelo e de tão preto e tão escura a noite, o gaúcho só lhe via bem o branco dos olhos e os dentes. E o rubro da beiçola.

- Boa noite! - saudou-o o cavaleiro.

- Boa noite! - respondeu-lhe a criatura.

- O quê faz o vivente em noite tão fria? - perguntou-lhe o

Tuquinha, para dar início à charla.

- Recolho pedidos... - respondeu o menino.

- Pedidos?

- Sim... Para que encontre coisas perdidas...

- Então tu és o Negrinho?...

- Em carne e osso meu senhor!

- Hey lido há pouco um livro sobre a sua história... - disse o

Gaúcho, desmontando do pingo e atando-o à uma rama.

- Sobre a minha?! - surpreendeu-se o piá.

- Isso... Foi escrita por um índio, muy inteligente e muy culto, lá de Pelotas, chamado João Simões Lopes Neto...

- E o senhor tem certeza que é sobre a minha pessoa?

- Mas claro que tenho vivente! Sobre quem mais seria?

- Talvez que sobre o Zumbi...

- Não! Este é em outro livro...

- E o quê este tal de Simão?...

- Simões Lopes Neto!

- Isso... O quê ele fala?

- Fala sobre a sua curta vida... Sobre o estancieiro maleva que te sapecou sobre um formigueiro...

- Isso faz muito tempo...

- Então me conta guri, que quero saber se é verdade!

- Eu perdi a tropilha e o patrão se zangou...

- Assim não! Conta do início...

- Bem, faz miles e miles de tempo... Nasci em uma fazenda aqui nas redondezas, em tempo que não havia nem cercas nem alambrados...

- Tempo bueno! - lembrou o Tuquinha, interrompendo a narrativa.

O moleque esperou e, como não vinha mais nada, continuou:

- Nasci escravo, porque era época... O patrão era malvado barbaridade e tinha um filho que era ainda mais...

- Falta de laço, Negrinho!

- Um dia perdi uma carreira que ele tinha arranjado...

- E então?

- De castigo, deu-me uma tropilha de cavalos para levar aos pastos...

- Estou sabendo...

- No meio da noite, adormeci e a tropilha extraviou-se...

- E aí? - perguntou o gaudério que conhecia a história, mas queria ver se o Negrinho era o Negrinho.

- Aí que voltei solito...

- E o patrão?

- Desancou no meu lombo o rebenque e mandou-me de volta...

- E achou a cavalhada?

- Rezei pra minha madrinha, a Virgem Nossa Senhora e, nem bem terminei a reza, a tropilha apareceu, saída do nada!

- Coisa linda barbaridade! - emocionou-se o gaúcho.

- Mas não terminou aí... Outro dia voltei aos campos... Com a mesma tropilha arisca...

- E então?

- No meio da noite, apareceu o maleva e enxotou a bagualada...

- Piá filho da puta! - não se aguentou o Tuquinha. - E aí?

- Voltei pra fazenda na manhã seguinte, de mãos abanando...

- E o patrão ficou uma arara?

- Se ficou seu moço! Se ficou! Deu-me outra coça de relho que me arrebentou... Não contente, meio por raiva, meio por sugestão do filho, atirou-me sobre um formigueiro...

- A la putcha, tchê! Então é verdade!

- Fiquei lá, deitado, sem forças pra mais nada...

- E as formigas?

- Foram me subindo pelo corpo e me devorando, levando as carnes para o interior do formigueiro...

- E o patrão não te acudiu?

- Que nada, moço! Pelo contrário, mandava o piá me dar uma olhada de quando em vez...

- E aí?

- Aí sonhei com a minha madrinha e dei o último suspiro...

- Morreste?

- Isso... Mas foi por pouco tempo... Passados três dias, o patrão, mais por remorso do que por curiosidade, foi ver-me...

- E viu?

- Viu! Viu sim... Eu estava de pé no formigueiro, com o lombo liso e sarado como quando nascera... Ao meu lado, a madrinha, Nossa Senhora... Na volta, a tropilha perdida, pastando placidamente...

- E o que aconteceu?

- O patrão caiu de joelhos...

- Não, eu quero saber o quê aconteceu a ti?

- Fiquei com a Virgem, por uns tempos, até adaptar-me às novas responsabilidades...

- Responsabilidades?

- Isso... De achar coisas perdidas...

- Mas então é verdade?

- O senhor não acredita?

- Bueno... - atrapalhou-se o gaudério - Não acredito nem desacredito...

- E nunca acendeste uma vela para mim?

- Não... Na verdade, não...

- E nunca pediste por nada desaparecido? - espantou-se o Negrinho.

- Na verdade já disse uma reza...

- Uma reza?

- É... Uma reza velha que a minha mãe dizia...

- E como é a tal reza? - interessou-se a alma penada.

- O Negrinho não vai gostar... - vacilou o gaudério.

- Diga... Não há nada que me ofenda no plano onde estou...

- É mais ou menos assim: "O Diabo que meta no cu da comadre e que não apareça mais..."

- E aparece? - perguntou o Negrinho, atônito.

- Quase sempre...

- Então não estava bem perdida... - concluiu o piá - porque se perdida de verdade, só eu...

- E como o vivente que perdeu alguma coisa deve proceder?

- É fácil... Acende uma vela pra mim e pede que eu encontre a prenda perdida...

- E só?

- Só!

- E o Negrinho não falha nunca?

- Nunca! Satisfação garantida. - respondeu o piá, orgulhoso.

O índio velho cofiou o bigode, indeciso.

O Negrinho, vendo a incerteza estampada na face do gaúcho, à luz bruxuleante das velas, perguntou:

- O amigo tem algum pedido?

O índio velho, pensando lá com seus botões, tirou o chapéu, coçou a cabeça e respondeu de viés:

- Qualquer pedido?

- Se for coisa perdida... - esclareceu o piá.

- Tem de ser coisa? - perguntou o Tuquinha.

- Não! Tem de ser coisa perdida... Um cavalo... Uma moeda...

- E se não for?

- Se não for perdida? - perguntou o guri.

- Não! - exclamou o gaúcho, que estava enlouquecendo - se não for coisa!

- Mas tudo o que se perde é coisa... - disse o Negrinho.

- Nem tudo piá... Nem tudo...

- Como assim, meu senhor?

- Ora, guri, quem deixa de sonhar, perde um sonho, por exemplo...

- Entendo... - assentiu o piá.

- E vale?

- Vale o quê?

- Vale como coisa perdida?

- Vale... Vale porque "coisa" é uma expressão genérica... Abarca tudo.

- Então não hay de ser "coisa", necessariamente?

- Não... Não tem... - concordou o guri.

- Então eu tenho uma coisa que não é coisa...

- E o que é? - perguntou o Negrinho, solícito.

- É algo que perdi...

- E é o quê?

- Uma graça... Um sentimento...

- Que o senhor perdeu?...

- Bem, de certa forma...

- Não entendi? - disse o Negrinho - Perdeu ou não perdeu?

- Não perdi o meu, porque hay de estar sempre dentro do meu peito... Perdi o que me tinham...

- Mas o senhor só pode pedir em causa própria.

- Mas é em causa própria!

- Não! Não é porque não foi o senhor que perdeu...

- O moleque ainda não entendeu... Quem mais perdeu fui eu!

- Bem, então foi o senhor?

- Com quase toda certeza...

- Ora, ou foi ou não foi? - agora era o Negrinho que se exasperava.

- Sim... Perdi porque o que a pessoa sentia por mim, não sente mais...

- Entendo...

- Então? - perguntou o gaúcho, ansioso.

- Então o quê?

- Vale como coisa perdida?

O Negrinho pensou um pouco e, talvez mais por pena do gaudério do que por convicção, concordou:

- Vale...

O gaúcho suspirou, entre aliviado e esperançoso. Depois, foi até o pingo, que fuçava entre as macegas, para ver se encontrava um pastinho que fosse comível e voltou com uma vela que, pelo sim, pelo não, havia trazido enfiada embaixo da carona.

- O senhor acredita então? - perguntou o piá.

- Como diz o paysano, yo no lo creo em brujas, pero que las hay, las hay... - respondeu o Tuquinha, agachando-se e acomodando a vela e levando-lhe a brasa do isqueiro ao pavio - E o pedido? - perguntou ao Negrinho, depois de acende-la.

- Não o faças para mim de viva voz... Faze-o na volta ao teu canto.

O gaúcho sentiu que era a hora de partir. Abraçou o Negrinho de encontro ao peito, bem apertado, como a um irmão. Depois, sem olhar para trás, alçou-se no flete e tocou em direção das casas. No caminho, foi murmurando o pedido:

- Negrinho, traze de volta o meu bem... Traze de volta o meu bem...

(Porto Alegre, 18/março/2003)

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