A Garganta da Serpente
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Décima primeira charla:
As moscas e o mel

(Luiz Morvan Grafulha Corrêa)

Na noite seguinte, a décima primeira das charlas teve início e com ela a notícia, transmitida aos acolhedores proprietários, que a estada, dos ilustres hóspedes, se estava encerrando uma vez que, cumprindo rigorosa agenda há muito preparada, deviam retornar para a Europa, onde atividades do mais alto cunho literário e intelectual os aguardavam.

A informação pegou de surpresa àqueles que os acolhiam.

Ao gaúcho, porque contava poder locupletar-se ainda mais com a sabedoria secular que eles guardavam e muito bem e de forma muy equitativa distribuíam, brindando a todos com as pérolas que haviam brotado nas suas férteis imaginações.

À viúva, porque... Bem, porque não tinha ainda degustado o monsieur La Fontaine, como sempre fizera com os varões que lhe haviam ousado ou, quem sabe, tido a sorte, de passar-lhe por perto da zona de influência.

Esopo, que não narrava nenhuma das suas fábulas há dois ou três dias, estava azougado no partidor, qual parelheiro e o gaúcho achou por bem lhe conceder a fala.

Monsieur, como que muito distraidamente, encostou o joelhinho no do gaudério e o grego começou a charla:

- Co... Co... Como madame aprecia, vou narrar-lhes uma fábula em versos...

O capataz benzeu-se três vezes, porque agora, que aparentemente a prenda havia desistido de monsieur, caía-lhe o gago em cima.

- Que lindinha!... E qual será? - quis saber a moça, curiosa.

- A... A.... A das Moscas e o Mel, madame...

A viúva espicaçou o marido:

- Isso te faz lembrar de mim, não é, Lindinho?...

O capataz fez um muxoxo e observou, aborrecido:

- Não sei, por que?...

- Ora, querido, tu sempre dizias que os homens andavam à minha volta como abelhas em torno de um pote de mel!...

- Não era bem isso... - retrucou ele.

- Não?... E o que era, então?

- Era como moscas em redor da bosta, querida!...

Monsieur deu uma risadinha de escárnio e Esopo prosseguiu:

- Do... Do... Do pote de mel
A gota caiu.

A mosca chegou,
Lambeu e lambeu
E se lambuzou.

A perna prendeu,
A asa caiu.

Lutou e lutou,
Até que morreu.

- Era mesmo um versinho! - vibrou a prenda, em êxtase.

- Ma... Ma... Madame gostou de verdade?... - logo perguntou o narrador, não inteiramente convencido com aquela mudança de comportamento.

- Amei de paixão! - disse ela, aproveitando para, num arroubo perfeitamente justificável, dar um beijo na face do grego que corou de satisfação.

- Realmente é muito bonita... - concordou o gaudério, que havia acabado de transcrevê-la para a ata da reunião, como sempre fizera com todas as narrativas, para que ficassem registradas para a posteridade.

Monsieur encostou a boca no ouvido do gaudério e criticou o colega, aos sussurros, aproveitando que a prenda o havia distraído ao colocar-lhe a mãozinha por sob o manto de linho, dizendo:

- Se isso é uma fábula, eu quero ser uma gazela!

O gaúcho discordou:

- Acho que foi uma fábula muito bem pensada e escrita...

- Que prova, - anuiu a moça - que os pequenos frascos contém os grandes perfumes... - e aí, caborteira, perguntou ao grego: o seu frasco não é muito pequenino, não?

Esopo não se dignou a responder. Ou porque não entendeu a malícia da natureza da pergunta, ou porque, de fato, era. Ou, ainda, por temer a reação do marido, que logo rebateu a afirmação da chinoca:

- Essa não, querida!

- Ora, Lindinho!... Não, por que?

- Porque a história que o senhor Esopo narrou não tem nada a ver com o ditado que mencionaste...

- E tem a ver com o quê, então?

- A moral da história, - explicou o gaúcho - é que não devemos destruir a nós mesmos no prazer...

- Então a história está errada! - contestou a prenda.

- Errada? - espantou-se o gaudério - Errada por que?

- Porque o prazer não destrói, Lindinho!... Se destruísse, eu não estaria mais aqui há muito tempo...

O capataz, ingenuamente, tomou aquilo como um elogio à sua performance sobre os pelegos e agradeceu:

- Obrigado, querida, fico feliz em saber que tens prazer comigo...

A viúva não perderia uma oportunidade como aquela para espicaça-lo. E, de fato, não perdeu:

- Não sejas pretensioso, Lindinho, quando digo que há muito não estaria aqui, quis dizer que já me teria acabado nas mãos de outro, séculos antes de ti...

O capataz engoliu aquela em seco, pois, afinal, como também se diz no Rio Grande, o bom cabrito não berra.

Monsieur, muito sans façon, voltou a sussurrar:

- Mon mignon, eu, por certo, nunca tive tanto prazer quanto o que sentirei avec toi...

O gaúcho não entendeu bem o dito e, pelo sim, pelo não, levou a mão à guaiaca, para ter certeza de que a prateada graúda estava a postos. E estava.

Esopo, que viu as coisas malparadas, resolveu interferir, sugerindo:

- Que... Que... Quem sabe um café quente?

Todos acharam que era uma boa ideia e a prenda, largando o frasco do grego, o qual finalmente encontrara e que, aparentemente, era igual a todos os que conhecera e, diga-se de passagem, para a sua satisfação e júbilo, em muito superior aos das famosas estátuas, foi prepará-lo.

O chirú aproveitou para enrolar um palheiro, deixando a faca à mão, para qualquer eventualidade.

Monsieur aspirou rapé e espirrou três ou quatro vezes no lencinho de cambraia bordada e rebordada.

O grego, que não pitava nem cheirava, ajeitou o manto, cobrindo e ocultando as partes, para dificultar um novo assédio.

Como a chaleira dormitava sempre cheia sobre a chapa do fogão, estando a água, como ela, permanentemente quente, a moça logo voltou com as canecas fumegantes e a tertúlia continuou de onde parara.

- Sobre perder-se pelo prazer... - começou o gaúcho.

- Ai, Lindinho, vais voltar a esse assunto?

- Minha querida, temos de levar a palestra até o fim e, sendo este o assunto, a ele devemos nos ater...

A prenda deu de si, e acrescentou, prevenindo-o:

- Depois não digas que eu não avisei...

Monsieur La Fontaine, que estava querendo fazer uma pergunta, aproveitou a oportunidade:

- Sendo o Brasil um país tropical, acredito que os trajes aqui usados sejam um estímulo ao prazer, não?

- Acho que é como em qualquer lugar do mundo... - respondeu o gaúcho, que não via porque seria diferente, a não ser para os turistas mal intencionados, que vinham atraídos por pacotes turísticos, com sexo incluído e a la larga pagos.

O francês insistiu:

- Mesmo o Carnaval?

- É uma festa popular... - começou o capataz, sendo interrompido pela viúva:

- No Carnaval é diferente, monsieur...

Voltou o gaudério a objetar:

- Não, querida... Acho que não é!

A moça, que estava com toda a corda, insistiu, justificando:

- Tu estás dizendo isso, porque não sabes do Carnaval que passei lá no Rio de Janeiro!...

O gaúcho, que não sabia desta epopeia, espantou-se:

- Ué, mas eu nem sabia que tinhas passado um, por lá!...

- E foi bom, madame? - perguntou-lhe o francês, que já estava a imaginar a resposta que viria.

A mulher voltou a provocar o marido, dizendo:

- Se foi, monsieur!... Se foi!...

- Passou sozinha? - voltou a interpelar o senhor La Fontaine.

- Não, biscuit, fui para lá, pois havia acabado de divorciar-me do primeiro marido mas, bem cedinho, arranjei inúmeros e fogosos pares...

- E aos bailes, a madame compareceu?...

A moça fez um ar sonhador e saudoso e voltou a responder:

- Fui sim... Do Municipal onde, como a mosquinha da história do senhor Esopo, me acabei de prazer com muitos rapazes viris que no meu pote caíram e lamberam, lamberam... E se lambuzaram...

(do livro Tuquinha, La Fontaine e Esopo)

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