A Garganta da Serpente
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"Nós somos é gospel!" - testemunho

(Leonardo de Magalhaens)

O sujeito mais feliz que eu conheço chama-se J. (resguardemos a identidade), tem 30 anos (a mesma idade minha), é um ex-drogado, agora um operário qualificado, poeta bissexto, toca bateria na banda da Congregação Unidos em Jesus e tem um sólido casamento de seis anos!

Conheci J. nas festinhas rock'n'roll que os meus primos promoviam. Muita bebida e meninas louquinhas! O J. era um radical que só ouvia heavy metal satanista. Então traduzi umas letras para a sua particular devoção. Passou-se um tempo. Talvez uns dois anos. Então reencontrei J. e quase não o reconheci! Cabelo cortado, trajes decentes, outra pessoa! E a renegar seu passado "satânico", a dizer que blasfemava sem saber. Agradecia eu ter traduzido as letras, pois ele não sabia inglês, e ouvia "coisas abomináveis". E eu tentando entender.

Realmente escandalizado, o J. ouvia um som pesado e nem sabia do que se tratava! Agora está feliz. Tranquilo. Sem inquietações. Não pede muito da vida. Queria uma bateria. Não podia comprar. Descobriu no quarteirão uma portinha de igreja com banda e tudo. Lá dentro o maior rock'n'roll! Enturmou-se, converteu-se. Aceitou Jesus e o Pastor Dirceu. Foi tocar bateria na Congregação. Logo atraiu uma donzela. A., 5 anos mais jovem. Sucedeu-se o flerte. Logo, o namoro. Tudo aprovado pela Congregação.

J. largou as drogas. E depois as bebidas. Passou a tocar nos cultos. Daqueles bem animados. Hinos e palmas. Gritos, às vezes. Um show! E ele muito feliz, agora que se anunciava o noivado. Purificado e feliz, um novo homem. Um irmão da igreja tornou-se seu novo amigo. Conseguiu uma carta de recomendação para uma empresa que fornece peças para a FIAT. Ele fez os testes e exames e foi aprovado. É hoje operário, com um salário de 1.200 reais. O maior salário na sua família. Nunca sonhou em ganhar tanto!

Convertido, J. agora se diz 'gospel'. Ouve rock, com certeza. Mas é rock 'gospel'. 100% cristão, ele garante. Parece hard rock, mas é "white metal". Lê poetas do "mundo", mas sua leitura de cabeceira é a Bíblia, e algum livro indicado pelo Pastor Dirceu. Afinal, recomendação é recomendação! E no mais? Preocupações políticas? Nenhuma. (Ele sequer lê os jornais, nunca ouve a "Voz do Brasil") Só se lembra em época de eleição. Sem estresse, contudo. J. só vota em candidato apoiado pelo Pastor.

A casa é de propriedade da família da esposa, a jovem A. Mas nada de pressões. Todos evangélicos, e amáveis. A grana que J. economizou foi investida num carro. FIAT. Modelo atualíssimo. A casa foi reformada no segundo ano do casamento. Acomodações simples. A decoração está sob cuidado da esposa. Ela escolhe tudo. No mais, ele manda. Compras, despesas, prestações. Ele assume tudo. Não deseja filhos. Obrigaria-o a mudar de rotina, ampliar a asa. Ou seja, transtornos. A mulher faz a vontade dele.

Até porque A. é submissa. Ótima anfitriã, companheira eficiente. J. nada reclama. Ela já sabe o que ele quer. "A mulher é serva do homem, assim como o homem é servo do Senhor." Ele diz, e ela concorda, em gentil resignação. O marido tem sempre a razão. Eis uma mulher feliz em servir a se homem! Um exemplo para as 'neuradas' modernas que se sonham independentes!

Um belo casal. Causa-me inveja. Vivem em cumplicidade, em doce idílio devocional. Submersos num mundo de símbolos - inspirados no comum, o "mundo", a vida "temporal", mas recodificados em "nome do Senhor". Ouvem música gospel, a decoração é gospel (imagens de Jesus, etc), a comida é gospel, a padaria é gospel (pertence à um devoto da Congregação), os doces são gospel (têm menos 'açúcar nocivo', conforme me informam), as roupas são gospel (nada de expor os corpos) e até o carro recebe manutenção numa oficina gospel (chama-se justamente "Elétrica Gospel" e o proprietário é o filho do Pastor Dirceu)

Felizes. Renda mensal suficiente. Ele desconta o dízimo (é fiel dizimista) e ela costura e borda uns panos de pratos que vende num brechó, ou faz doações para irmãos necessitados. Tudo dentro de casa. J. nem sonha com a hipótese da esposa trabalhar fora! A mulher cuidadosa, eficiente - mas dentro do lar! Para cuidar do marido e dos filhos (caso existam). Nem estudar é tão preciso. Cozinhar e lavar, está de bom tamanho. E A., observemos, está contente com seu 2o. Grau. Está contente com seus afazeres. Tem um marido correto e fiel. (Fidelidade é agora a "marca Registrada" de J., antigo 'mulherengo'.) Ela realmente está contente com o marido. Nem dá qualquer crédito aos antigos colegas dele, quando lembram um certo passado. "Meu marido tomou rumo na vida.", ela toda sorrisos.

E realmente, o J. está realizado. O que mais poderá desejar, além da salvação de sua alma? Nem imaginava chegar tão longe! Imaginava-se morto caído numa sarjeta, sufocado no próprio vômito. Hoje, está aí, fiel à esposa, fiel ao Senhor, fiel ao Pastor Dirceu. Fidelidade é o seu estandarte. Assim encontrou seu "lugar no mundo", isto é, fisicamente "no mundo", espiritualmente" junto ao trono do Altíssimo".

Eu agradeço a hospitalidade do casal, apresento minhas despedidas, e alcanço a rua, o mundo dos comuns. Abandonando o ninho de amor, o testemunho de um casamento devotado, confesso que vou passo a passo morrendo de inveja.

(02/03 jan 08)

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