A Garganta da Serpente
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Tuquinha e o caudilho Honório Lemes

(Luiz Morvan Grafulha Corrêa)

O gaúcho velho sempre tivera verdadeira fascinação pelo grande caudilho, o general Honório Lemes. Era uma afeição de macho para macho. De general para general. Uma admiração que beirava as raias da veneração por aquele maragato que pusera em cagaço muita gente buena que se tinha por valente e ao encontrá-lo, dera-se conta de que nem tanto. Era o Leão do Caverá, ao seu ver, a encarnação do que havia de melhor do espírito aguerrido gaúcho e que passara de peão de estância a general, por aclamação, muy semelhante ao que lhe sucedera, nos tempos da Legalidade.

Como fora Alegrete um dos principais redutos maragatos, para lá enveredou o homem, numa manhã de julho, para encontrar-se com a legendária figura.

Montado, ia ao valente Malacara, o mesmo de tantas outras cavalgadas. Muitas por necessidade. Outras, por precisão. Algumas, como nesses tempos de emoções em que estava vivendo, por puro diletantismo. No trote, dirigiu-se à Vila de Palmas, dali à Lavras. De Lavras até Rosário, deixando São Gabriel pela destra e então, quando dava o meio-dia e completava o terceiro sol de marcha, avistou o Texacão do Caverá, que era um hotelzinho muy muquirana que ficava na beira da carreteira, junto a um posto de gasolina - o tal de Texacão - às portas da cidade berço do Oswaldo Aranha, do Mário Quintana, do Piola, do Valderez Mutuca Garcez, do Oswaldo Chibiaque, do Adão Faraco, do Nilo Rodrigues, do Antônio Carlos Bica, entre outros e que distava mais de cinquenta léguas da fazenda - o Rincão do Sol, lá no Basílio - de onde partira.

Os anos haviam passado desde sua ultima estada naquela terra e tudo

estava diferente. A velha carreteira, que outrora se usava para cortar caminho até a faixa, passando pelo cemitério e pela pedreira, estava em desuso e o chircal campeava solto como praga. No seu lugar, haviam aberto outras faixas, de nomes Avenida República do Rio Grande e Rio Grande do Sul, que eram utilizadas por quem cruzava o Ibirapuitã, passava na frente do Aeroclube, do Parque de Exposições, dos puteiros de saudosas noitadas e vinha sair mais ou menos no mesmo lugar onde a velha estrada saía outrora e que agora, a não ser que se lhe soubesse da existência, nem rastro se achava.

Junto do Ibirapuitã, que vinha alto na caixa, estacou. Deu um refrigério no pingo que estava assoleado, embora a temperatura amena e sentou-se para esperar o cair da noite enquanto o bagual, livre dos aperos, refestelava-se, de cascos para cima, esfregando o lombo na grama rala das barrancas, queimada pela geada.

Como vinha também cansado da marcha batida, acomodou-se enroscado no poncho e lhe foram mermando as forças... Mermando as forças e pesando as pálpebras, até que dormiu. E sonhou...

Num vórtice, afloraram as lembranças dos livros que lera, não fazia muito, sobre o caudilho... E, naturalmente, sobre a razão da guerra fratricida...

Com o fim da Revolução Federalista de 93, em 95, Júlio de Castilhos, eleito em 20 de novembro de 92, governara o Estado até 1898. Bom administrador, recuperara as finanças do Continente, que se haviam combalido. Reduzira a dívida pública à metade. Organizara a Justiça Civil. Decretara impostos. Pusera em funcionamento o telégrafo, as linhas de navegação, reorganizara a Secretaria de Obras Públicas. Incentivara a criação dos minifúndios, criara o Serviço de Higiene, regulamentara o exercício da Medicina. Oferecera garantias à magistratura, assegurando-lhe a independência do Poder Executivo, abolira o júri, criara a Assistência Judiciária, os serviços policiais, reorganizara a instrução primária. Mas, - e sempre existe um mas - preterira os candidatos naturais à sua sucessão, Ramiro Barcelos e Pinheiro Machado, em prol de Borges de Medeiro, sua cria política e altamente concentrador, invasivo e burocratizador. Na quarta candidatura, após vinte anos de governos ineficientes, de perseguições cruéis e descabidas aos adversários políticos, de montagem de uma máquina partidária sólida e onipotente, Borges conseguiu levantar contra si uma onda de protesto e repúdio ao arrebatar, fraudulentamente as eleições a Joaquim Francisco de Assis Brasil, republicano histórico, deputado constituinte, embaixador em Portugal, Ministro Extraordinário na Argentina e nos Estados Unidos, escritor e pensador. Sufocado nas urnas, Borges não viu outra maneira senão organizar uma comissão apuradora constituída exclusivamente por deputados republicanos que impediram o acesso à contagem dos sufrágios aos prepostos daquele candidato e, afugentando os poucos e derradeiros escrúpulos, anularam todas as urnas necessárias para que Borges atingisse a meta de três quartos do eleitorado. Fora jogada a bosta no ventilador.

Em 24 de janeiro de 1923, véspera da posse do surrupiador da intenção popular esmagadora, o deputado Artur Caetano da Silva e o general João Rodrigues Mena Barreto, de Carazinho enviaram telegrama ao Presidente Artur Bernardes, denunciando o esbulho e pedindo intervenção federal. No dia seguinte, cerca de mil homens do interior do município de Passo Fundo, ao comando de João de Souza Ramos e outros líderes, sitiam a vila. Oito dias correm e nada da intervenção solicitada. Está decidida a sorte do Estado: É a luta de recursos... De guerrilhas.

De todos os rincões abarcados pelo Cruzeiro brotaram grupos de voluntários, liderado por caudilhos locais, para dar eco ao grito que se iniciara em Passo Fundo, colocando o Rio Grande em pé de guerra.



Tudo isso o índio velho, exausto, envolto em seu poncho via em seu sonho, às margens do Ibirapuitã, porque lera nos livros de história que levara para casa ou porque, um ou outro causo ou episódio ouvira contar, pelos peões andarilhos que às vezes cruzavam pelo Basílio, desgarrados ou que encontrava escorados no balcão do bolicho do Xamuset, lá no Desvio, entornando um liso de canha e charlando... Charlando...

Mas a dormir de prontidão, estava acostumado... Com um olho fechado e outro aberto... Então, um ruído despertou-o por completo. De um saldo se pôs de pé e boquiaberto viu a ponte ferroviária que não vira quando chegara. Estava coberta de tábuas grossas, assentadas sobre os trilhos e por ela, apressados, porém organizados, cambiava de margem grossa tropa de cavaleiros bem armados.

O gaúcho, rápido como um corisco meteu os arreios no Malacara, arrebanhou o poncho que ficara no chão e galopou barranca acima para encontrar aquele mundéu de gente que somava mais de mil... Dois mil, talvez. E foi só meter a cara no meio deles que já lhe calçaram à boca de arma:

- Alto lá! - gritou um índio entroncado e preto como tição.

- Alto lá uma bosta! - respondeu o Tuquinha, que já vira coisa

mais ou menos semelhante quando cruzara na frente do 9º Regimento de Infantaria, lá em Pelotas, quando estivera à testa do Piquete da Legalidade, rumando para a capital

- Pica-pau ou maragato? - tornou a gritar o homem.

- Maragato, chirú macanudo! Tu não está vendo o lenço colorado? -

voltou a responder o Tuquinha, indicando com a mão o lenço encarnado que sempre trazia ao pescoço.

O homem que o intimara abriu um sorriso e abaixou a arma.

- Desculpe... Achei que era algum legalista...

- Legalista? O compadre está variando?

A sentinela olhou para o intruso, espantada, enquanto a tropa

continuava a cruzar-lhes pelo lado, vadeando o rio a seco, pela ponte habilmente improvisada:

- De que planeta o senhor chegou?

- Não venho de planeta nenhum... Acabo de chegar, isto sim, é lá do Basílio... - respondeu o gaúcho.

- Do Basílio? Nunca ouvi falar...

- É uma vila muy da mixe que fica para lá de Bagé... Perto do Herval...

Agora a sentinela pareceu ter se situado.

- O amigo aderiu ao movimento?

- Movimento?... Do que o compadre está falando?

- Da Revolução! É só disso que se fala aqui...

- Revolução? A milicada derrubou o Ferreiro? - perguntou o

viajante, meio zonzo.

- Se o doutor Borges é ferreiro eu não sei... Ao que me consta é rábula...

- Doutor Borges?

- Sim... Doutor Borges de Medeiros...

- Doutor Borges de Medei...? - aí o gaúcho caiu em si. Deu-se

conta da situação. Como vinha há dias que só pensava no assunto, dormira na barranca do Ibirapuitã e acordara na tarde do dia dezoito de julho... Dezoito de julho de 1923! A patroa, que já pagara uma nota preta para um doutor de almas muy do charlatão fazê-la voltar no tempo, iria à loucura quando ele lhe contasse que voltara sem gastar nada.

Agora, situado no tempo e no espaço, voltou à conversa:

- O amigo tem razão... É jurista... - confirmou, lembrando que

lera em algum lugar que o homem era versado nas lides do Direito.

Foi então a vez da sentinela espantar-se:

- Jurista! Que diabo vem a ser isto?

- Jurista é a mesma coisa que advogado... Pensando melhor, é mais um pouco. É um advogado que dá pareceres sobre questões do direito... - explicou o gaudério, sentindo-se importante por

saber alguma coisa e poder compartilha-la.

- A la putcha, tchê! - exclamou a o negro - Então ele não podia ter feito as cagadas que fez!

O Tuquinha voltou a considerar, agora sob este outro aspecto que o

taura levantara. Coçou o queixo, ajustou o barbicacho e sentenciou, com a propriedade que lhe era característica:

- É que na prática a teoria é outra, como dizem... Normalmente, as maiores burradas vêm daqueles mais capacitados a não faze-las...

Agora foi a vez do negro pensar. Matutou... Abriu a boca para falar...

Fechou, sem nada dizer... Pensou mais um pouco e então, achando que era filosofia demais para um pobre peão, lascou:

- A tropa está terminando de cruzar o rio... O gaúcho vai unir-se a nós ou veio só para olhar?

O desafio bateu na veia do capataz como um raio.

- É claro que vou! Onde está o general?

- O general Honório?

- Quem mais seria?

- O general foi um dos primeiros a atravessar o Ibirapuitã e deve estar agora a traçar planos junto com o doutor Batista, que foi convidado por ele para assumir a chefia do estado-maior da força.

O viajante quase teve um colapso:

- O doutor Batista Lusardo? - perguntou, quase sem acreditar que

por uma casualidade do destino mataria, por assim dizer, dois coelhos de uma só cajadada.

- Ele mesmo... Juntou-se a nós ainda ontem ou anteontem...

- Mas então não percamos mais tempo, - disse o Tuquinha, louco para ver o caudilho - me leve até o homem!

O negro foi buscar a montaria e voltou logo em seguida, fazendo

sinal ao gaúcho para que o acompanhasse.

Juntos, subiram a barranca e embrenharam-se na mata nativa e logo e

logo entraram no acampamento maragato, onde a sentinela, conhecedora das tendas armadas, foi direto à do comandante.

- General?... - chamou o negro, fazendo uma continência muito da

displicente.

O homem estava de costas, debruçado sobre uma mesa de campanha,

analisando um mapa topográfico da região, ladeado por outros oficiais que o gaudério nunca havia visto em fotografias e muito menos ao vivo.

- General?... - insistiu a ordenança.

O homem voltou-se:

- O que é, cabo?

- General, acabo de encontrar este vivente que diz que é la do... do...

- Do Basílio! - completou o próprio Tuquinha, sentindo que o

olhar do general caía sobre ele, perscrutador.

- De onde? - perguntou, por fim.

- Do Basílio, general... - voltou a afirmar o gaúcho.

- Basílio... - repetiu o caudilho, absorto em pensamentos - Acho que já passei por lá uma vez...

- Espero que tenha gostado... É uma vila buena.

- Toda vila que nos manda gente para a luta é boa. - atalhou o general, que não tinha tempo a perder também - O voluntário está armado?

O Tuquinha acenou que sim, mostrando a coronha do trinta que trazia

no coldre da guaiaca.

- Muito bem... Estou pensando em estender, amanhã cedo, uma linha na orla do mato, para esperar os republicanos que vêm chefiados pelo Flores da Cunha e dar-lhes um belo cagaço enquanto não conseguimos nos unir às forças do general Estácio Azambuja e Zeca Neto e podermos enfrentá-los num combate maior e mais decisivo.

- Então estou às suas ordens, general.

- Ótimo... O cabo vai acompanha-lo até a cantina e depois apresenta-lo aos companheiros... Está dispensado. - disse ele,

voltando a concentrar-se nos mapas.

O negro fez sinal ao gaúcho, que relutava em sair de perto do caudilho, indicando que a entrevista de apresentação estava encerrada e que ele deveria segui-lo.

- Quem são os homens que estavam com o general? - perguntou ao

cabo, logo que se afastaram da tenda de comando.

- Não conheço o nome de todos... Mas lá estavam os tenentes-coronéis Gabriel e Delfino Timbaúva e Maurício de Abreu, entre outros. - respondeu-lhe o negro, postando-se à entrada da barraca

que funcionava como cantina à qual havia chegado e de onde se desprendia um delicioso aroma de feijoada, coisa que ao viajante muito bem cairia, uma vez que vinha em viagem há quatro dias agora e, de sustância, não lhe vira nada o bucho.

Ali mesmo, na cantina, de imediato formou-se-lhe a roda em volta. Era sempre assim. Estava acostumado a contar histórias e causos nas pulperias e nos bolichos. Histórias onde, ao contrário dos outros - e aí talvez residisse a graça e estivesse o encanto - ele, via de regra, levava a pior ou escapava por um fio.

A noite caíra, fria. Os homens se foram dispersando rumo às suas barracas e trastes. Uns poucos se agruparam à volta do fogo e ficaram pitando enquanto o amargo corria preguiçoso. Longe, um combatente qualquer, arranhava a viola, melancólico. Até o cabo, que se havia cosido ao gaudério, testavilhou, enroscado num baixeiro e se foi a la gran puta.

O Tuquinha, deixado sozinho no meio do acampamento, levantou-se da banqueta onde estivera sentado e foi acomodar o Malacara para passar a noite. Amarrou-o a um galho e acomodou os arreios no chão, para que lhe servissem de travesseiro. Estava entretido arrumando a cama quando se deu conta de que tinha companhia. Voltou-se e deparou com o general ali ao seu lado.

- Fique à vontade soldado...

- Obrigado general...

- Hay um índio lá perto do Basílio... Xamuset... O amigo conhece? - perguntou o homem.

- Conheço, general... Mas hay de ser seu filho, certamente.

- É possível... É possível... - murmurou o caudilho e então, refazendo-se do devaneio, perguntou: - Está pronto para a luta de amanhã?

- Estou general!

- E não tem medo?

- Em verdade, não... - respondeu o gaudério, depois de refletir.

- Não? Até eu tenho! - exclamou o general, impressionado.

- Vai dar tudo certo...

- O que o amigo acha que acontecerá?

- O senhor determinará que trezentos homens a acavalo se postem em linha, ao longo da mata... O general Flores da Cunha vai mandar o Nepomuceno Saraiva atravessar a ponte para atacar-nos...

- E tu achas que ele se atreverá? - perguntou o general, tomando interesse pelo raciocínio do recruta.

- Vai borrar as bombachas, general!

- Então não atravessará?

- Não... Ele não... Quem fará a travessia será o próprio Flores da Cunha, a frente do seu estado-maior...

- O Flores da Cunha?... Por que o amigo acha isso?

- É difícil explicar-lhe...

- Então não explique! Mas diga mais... Se o recruta fosse este general, o que faria? - perguntou o caudilho, entregando-lhe,

hipoteticamente, o comando e assumindo a posição de um observador.

- Eu não posso... Não posso, não... Não devo dizer-lhe o que fazer.

- Ué, mas não pode por que?

- Porque não é certo!

- Agora não entendi nada! Tu estás ou não estás do nosso lado? -

explodiu o general.

- Estou e não estou! - posicionou-se o gaúcho, tentando não

comprometer-se e nem assustar o caudilho com coisas que ele não entenderia..

- Assim está ficando difícil...

O Tuquinha pensou um pouco, e disse então:

- General, eu não estou do seu lado porque digamos que ainda não existo... Mas se já existisse, estaria, com toda a certeza.

- Ah, agora entendi! - disparou o general - O amigo quer, na verdade, é um posto de oficial do estado-maior? Quer deixar de ser um joão-ninguém, é isso?

Ao visitante, o raciocínio do general, embora equivocado, serviu

como uma luva.

- Digamos que seja isso, general... - concordou.

- Mas então é fácil... O amigo quer ser o quê? Capitão? Coronel? General? É só escolher que já o promovo na hora... Mas pelo amor de Deus, diga-me o que faria amanhã se estivesse no meu lugar!

- Eu deixaria os republicanos avançarem uns metros pela ponte... Talvez vinte e então...

- E então? - perguntou o general, ansioso.

- Então abriria fogo sobre eles de detrás das taipas e das taperas à margem do rio...

- E o amigo acha que seria suficiente para impedi-los?

- O general Flores da Cunha perderá as estribeiras com os seus comandados e será ferido na luta... Seu irmão, o major Guilherme, será morto... O tenente-coronel Oswaldo Aranha ferido e mais centro e trinta republicanos... O general não acha que é este um número considerável de perdas para desanimar o inimigo?

O general Honório Lemes ficou pensativo ante a perspectiva

apresentada, sem dar-se conta de que na realidade ela era a expressão pura do que aconteceria na manhã seguinte, e por fim, concordou:

- Acho que o amigo dará um bom general...

- Talvez, comandante... Mas não deve o senhor deixar-se influenciar pelas ideias de um simples capataz de estância...

- Isso não quer dizer nada... Eu também não passo de um peão.

Isto dito, o caudilho ficou calado durante alguns instantes e depois,

dirigindo-se novamente ao gaúcho, desejou-lhe uma boa-noite e ia se retirando para descansar um pouco antes da peleja que viria no dia seguinte, quando o capataz, lembrando de algo que lhe vinha há muito na cachola, interrompeu a sua saída:

- General...

O caudilho tornou a voltar-se em sua direção.

- Pois não?...

- General... É difícil encontrar a maneira de dizer-lhe isto... Talvez que me faltem as palavras adequadas...

- Diga da forma mais simples que há de ser também a minha...

- É justamente sobre isso, general... O Rio Grande nunca vai esquecer o que o senhor tem feito por ele...

- Eu espero que não...

- Eu lhe digo com toda a certeza... Não vai esquecer. Assim como não o vão esquecer os nossos filhos e os nossos netos... E daqui a um século ou mais o senhor estará tão vivo quanto está agora...

- É bondade sua...

- Não, general, é reconhecimento e orgulho de haver nascido, como o senhor, gaúcho... Há no entanto, uma coisa que quero dizer-lhe ainda...

- E o que é?

- Esta luta vai terminar algum dia... Outras virão, entre as mesmas facções que hoje se digladiam... Daqui a algum tempo talvez que o senhor se veja em um aperto... - aí o gaudério empacou.

- Estou ouvindo... - disse o general, encarando-o firmemente.

- Não quero colocar palavras na sua boca... Só quero dizer-lhe que doutor, qualquer um pode ser... Basta estudar ou pagar para sê-lo... Ao passo que general... General de verdade, numa ascensão vertiginosa e meteórica, o único de quem ouvi falar é o senhor, reconhecido e aclamado pelos que lidera...

- Onde o amigo quer chegar? - perguntou o general, a quem a

curiosidade estava invadindo e não sabia se entendia bem ao que o interlocutor dizia.

- Quero dizer que quando estiver frente-a-frente com o inimigo, mesmo em situação de desvantagem, não baixe a crista... Não se deixe humilhar por gente que possa achar ser melhor do que os outros só porque teve mais oportunidades... Porque nasceu em berço esplêndido...

- Entendo...

- Se entende de verdade e se tal acontecer, responda à altura da sua grandeza e há de fazer o Rio Grande inteiro cantar...

- Prometo que o farei... - garantiu o caudilho.

- Há ainda uma última coisa... Gostaria que o general aceitasse o meu revólver como presente...

- Eu fico agradecido e me sentirei honrado em usá-lo... Mas por quê? - quis saber o velho maragato.

- Eu não posso dizer-lhe... Digo apenas que, caso o senhor tenha de entregar a arma um dia, entregue esta e não a sua...

- E qual a diferença? - quis saber ele.

- É que a minha é uma arma comum... Que hay em qualquer bolicho... - respondeu o gaúcho, humildemente.

- Ué, a minha também... - retorquiu o general.

- - Não, general... A sua representa a esperança do Rio Grande em que às coisas, estando malparadas, se possam cambiar...

- Se é assim que o amigo pensa, então eu aceito o seu presente... Obrigado! - disse ele, retirando-se e levando consigo o revólver

que aquele estranho visitante lhe oferecia.

O capataz ficou vendo o general afastar-se no meio da névoa que se formara, até que desapareceu por completo. Então, terminou de estender o poncho sobre os pelegos, coisa que estava fazendo quando o maragato chegara, deitou-se sobre uma das suas pontas, cobriu-se com a outra e ferrou no sono porque tinha de estar descansado para a manhã seguinte.



Acordou com o Malacara, que se soltara da amarra, a puxar-lhe as cobertas improvisadas. O sol ia alto e, estranhamente, ao invés de chegar-lhe filtrado pelas árvores, batia-lhe em cheio. De um salto se pôs de pé e olhou para a ponte. Nada! Nem sombra. Correu ao capão de mato, onde estava o acampamento maragato e nada! Nem barracas.. Nem cavalhada nervosa, esgravateando o solo... Nem homens em armas... Nada! No céu... No céu, além do sol de julho, apenas a esteira branca, lejos, de um jato da Varig que fazia a rota Porto Alegre-Buenos Aires... Voltou à beira do rio, onde acordara. Junto aos pelegos que lhe haviam servido de colchão, o poncho, úmido da geada que caíra... Os arreios, nos quais recostara a cabeça... E a guaiaca... A guaiaca com o coldre vazio!

(Porto Alegre, 27/maio/2003)

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