A Garganta da Serpente
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Uma carta para o doutor de almas

(Luiz Morvan Grafulha Corrêa)

O Tuquinha fora para Pelotas, a mando do deputado e da mulher, para fazer uma série de consultas com um doutor de almas muy afamado que por lá andava, há muito, clinicando. Atendido, mandou-lhe o homem que passasse os dias a esfregar o pingo e a fazer um diário, relatando as atividades. No más, que esperasse em casa enquanto o profissional ia estudar o tratamento adequado. O gaúcho era cumpridor dos deveres e fez o que lhe fora determinado. Passou-se uma semana. Passou-se outra, e nada. Nada do diplomado fazer contato com o índio. Aí então, porque verdade seja dita, não era o gaudério de muita paciência, resolveu escrever-lhe uma carta. Saiu assim, mais ou menos:



Ilmo. Sr. Doutor de Almas e de Aflições:

Quem vos manda esta missiva, escrita a bico de pena de rabo de perua é aquele índio grosso que vos visitou, mais a mando do que por vontade própria, num outro dia, e que teve o prazer de, por mais de hora, manter uma charla muy agradável com Vossa Senhoria.

Valho-me portando de tal oportunidade para informar-vos que em verdade, estou de saco cheio de esperar por notícias Vossas. Se fosse de uma prenda lindaça, tudo bem. Mas o ilustríssimo senhor doutor é feio como o capeta e mesmo que não o fosse, sendo homem, não me faz o tipo. Das coisas que me mandou fazer, tenho a relatar que gastei o pelo do pingo de tanto esfrega-lo e que já enchi uma resma de almaço de escritos que agora, pensando melhor, acho que não serviram para nada a não ser para pensar que perdi o meu tempo, gastei metade do canudo da pena, meio vidro de tinta Pelikan, disse umas coisas que pensava, outras que sentia, omiti ainda as que considerava desnecessárias, e só.

Por graça de Deus não aceitei o remédio para alegrar bobos que V. Sa. me queria receitar porque no passado já o tomei e não fiquei alegre; ou porque não sou bobo ou porque não consigo rir quando um remédio me impede de, no tempo regulamentar razoável, atingir aquilo que V. Sa. chama, do alto da Vossa erudição, de orgasmo e que aqui no Basílio e nas vilas da volta, chamamos de gozar. Como não sou muito letrado, não sei em verdade se falávamos da mesma coisa, mas pelo olhar malicioso que V. Sa. me dirigiu, quando vos perguntei dos efeitos, acho que sim.

Já o outro, o para dormir, funciona perfeitamente. Tão perfeitamente, que uma noite destas caí no sono enquanto estava dando uma cobertura na patroa. Devo informar-vos que ela não gostou nadinha e suspeito, em estando ela sentada sobre o baú da prata, que eu vá ter alguma dificuldade, em continuando a ingeri-lo para dormir, de efetuar-vos os pagamentos necessários pelas consultas. Isto, se as viermos a ter.

Mas na verdade, não é por isso que vos escrevo. Andei pensando melhor e achando que a maioria das minhas aflições têm muito a ver com mulheres e fiquei a imaginar se V. Sa. não teria, por acaso, alguma douta colega, de mesma profissão, mas que fosse bonita e bunduda, para que eu me sentisse mais à vontade e pudesse deitar naquele sofazinho miúdo para charlar das minhas taras sem muita atucanação, estando ela no início na poltrona e quem sabe, num futuro, apertadinha comigo no mesmo diminuto sofá, porque sabe V. Sa., que em se querendo, qualquer lugar é bueno.

Não gostaria que o ilustríssimo se sentisse refugado em não querendo mais este ex-futuro paciente voltar a conversar sobre seus males com Vossa generosa pessoa. É que na minha ótica, os males vêm do fundo da alma e têm, provavelmente, também muito a ver com a minha mãe e talvez mais ainda com as mães dos outros. De qualquer sorte, não me sinto muy à vontade de falar dessas coisas com outro índio bombachudo.

Tem mais: Fiquei pensando outrossim que a Vossa demora em dar-me retorno da consulta, tivesse alguma coisa a ver com algum eventual conciliábulo que V. Sa. estivesse imaginando ter com vossos pares, para verificar a natureza do tratamento que me iria prescrever. Aí, como já andei lendo os meus livrinhos, na biblioteca do deputado, assustei-me, pois fiquei sabendo que nos causos perdidos ou V. Sas. eletrocutam os miolos dos viventes, ou os põe em ponchos de borracha muy justos ou ainda, na pior das hipóteses, os mandam para a capital, para um hospital de onde nunca se sai, situado na Av. Bento Gonçalves, que por sinal tem o nome do homem que guarda, segundo se diz, as chaves das portas do paraíso.


Sendo estes, no momento, os assuntos que tinha a dizer-vos, despeço-me, respeitosamente. Tuquinha.

Basílio, 30 de setembro de 2002

P.S.: Lembrei agora de uma coisa. Gostei muito do vosso falar meio castelhano, que avivou na minha memória uns tempos em que andei lá pelas bandas da Argentina, de namoricos com uma prenda formosa e achei - veja o doutor a loucura - que poderia V. Sa. ser-lhe parente e ter avisado à família, a qual estaria por esperar, antes de marcar-me outra consulta.

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