A Garganta da Serpente
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Uma carta quarta para a Prenda

(Luiz Morvan Grafulha Corrêa)

O gaudério, para que se serenassem os ânimos, que andavam ligeiramente altercados, resolvera tirar uma temporada, depois de muito, na fazenda e de lá lascou para a prenda formosa, que estava na capital:

Minha Querida:

Embora minhas palavras pareçam bater continuamente em uma parede dobrada, hay coisas que te quero voltar dizer e hay outras que pretendo, consigas, um dia entender e um dia acreditar.

Destas, as que mais urgem, como já outras vezes exprimi, é que tens sido, para mim, pátria e arrego. Pátria, para o coração que, debalde, se fizera voluntariamente andarengo. Arrego, para o espírito que depois de muito penar, finalmente, tendo encontrado a doçura e a persistência do teu querer, se rendeu às coisas buenas e ao deleite de uma convivência que há de ser perene e imperecível, muito embora, vez por outra, alguma nuvem, geralmente por minha injunção, negligência ou capricho, nos obscureça, temporariamente, o existir.

Mas o amor é assim mesmo e graças a ele podemos, depois da procela, fruir da tranquilidade e recuperar, como dois vorazes famulentos, o tempo que perdemos em rusgas inúteis e em rixas despropositadas.

Por falar em fruir, devo professar que tenho, em teu corpo, desfrutado de incontáveis emoções e gozos, que só não são maiores e de mais intensidade porque, relutante muitas vezes, te retrais e reprimes de forma que presumo, se bem que instintiva, pouco natural, mas que creio e reputo que, com o passar do tempo e com a consolidação dos teus sentires e dos teus experimentares, voltarás a apreciar como fazias nos primórdios da nossa relação ou, quem sabe, nas auroras da tua juventude como mulher adulta e como amante constante e invariável.

É este, no entanto, assunto que não se conserta e não se retifica com palavras, mas com gestos, toques e confiares, ao longo do tempo, porque sabes tão bem quanto eu que, como algumas bebidas, as relações amadurecem e harmonizam com o correr dos anos e com o correr dos mesmos anos se transfiguram, via de regra, para melhor.

Era o que eu gostaria de dizer-te nesta hora de saudade intensa que nos impõe a distância. De dor insuportável por estar lejano. De sofrimento por me encontrar apartado do teu abraço carinhoso; afastado da tua fragrância embriagadora; longínquo das tuas palavras cálidas e cheias de carinho e, principalmente, a vasto e amargo espaço da tua boca abrasadora e simultaneamente orvalhada que tem sido o meu norte e tem sido o meu desgoverno.


Com todo o meu amor,
Tuquinha

Basílio, 29 de junho de 2005..

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