A Garganta da Serpente
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O carpete rosa

(Lorena Marques)

Os carpetes me incomodam, aquele rosa esquálido que infesta esse quarto luxuoso de hotel, esse requinte assustador me incomoda, tudo em cores mortas e desbotadas. Parece-me estar aqui a anos, considerando que essa é minha primeira noite.

Ah sim, a noite sombria, com apenas a luz bruxelante de um abajur, ao que me parece de uns 50 anos atrás, estou insone deitada com as mesmas roupas amarrotadas da viajem, não consigo me mexer como se paralisada por algo.

Gritos vindos de longe agudos e terríveis, de pavor, mas quem, onde, por quê? Levanto-me da cama e saio para o corredor do hotel aparentemente inabitado, clap, clap, clap, meus passos ritmados acompanham a batida acelerada do meu coração, clap, clap, clap, os gritos cessaram, o único som presente de vida são meus passos e meu coração, escuto outros passos e me encolho em um pequeno vão da parede, quase sem respirar com apenas o Tum, Tum, Tum, Tum rápido denunciando minha presença.

E algo ou seria alguém, um vulto passa por mim em direção ao meu quarto, mas por quê? Abre a porta e entra sorrateiramente, sinto a presença do perigo e corro , corro na direção oposta rezando intimamente para o que quer que fosse não se dessa conta da minha ausência tão rápido, desço pelas escadarias de aquele carpete horroroso e mofado, com a sensação de ser uma presa fugindo de um caçador sem ao menos saber o motivo daquela caça, me vejo em outro corredor mais escura ainda que o anterior, a um quarto aberto onde entro rapidamente e fecho de modo mais silencioso possível a porta, acendo a luz fraca do quarto, ah quisera eu que Deus não me houvesse permitido ver aquela cena, um corpo de uma jovem ruiva jazia no chão sem vida nem cor, sem nenhum motivo aparente de causa da morte, com uma expressão de espanto e agonia no rosto.

Sentei-me em um canto, longe da morta, ali era mais seguro e tinha o telefone para a recepção, eles com certeza mandariam ajuda. Liguei, tu, tu, tu, "o número chamado não existe, por favor, tentar novamente" ,me desconsolei, estaria eu em algum filme de terror ou em um pesadelo macabro, sabia que seria a próxima a morrer, mas não sabia ao menos o motivo!

Entrei no banheiro e me tranquei, até ali existia aquele carpete horroroso! Sentei-me no chão como um cão medroso sem fazer ruído algum, a única solução era esperar amanhecer, alguém com certeza chegaria até mim, mais ainda era 03h30min da madrugada, pensamentos começaram a me consumir, onde estaria meu potencial assassino? Quem era ele? O que queria de mim? O que teria feito a pobre moça para morrer? Tentei esquecer por alguns minutos aquilo tudo e nesse devaneio algo ainda pior me veio à mente como um aviso do meu sexto sentido um conto de terror que ouvira varias vezes quando era ainda pequena demais e medrosa demais:

"Em uma cidade qualquer, morava uma garota doce e meiga que vendia biscoitos para ajudar obras de caridade, um dia em uma de suas vendas, ela foi parar no hotel San Sebastian e um jovem alto, bonito e bem afeiçoado convidou-a a entrar, ele comprou vários biscoitos, conversaram por um longo tempo, mostrou o hotel a garota que ele descobriu adorar hotéis luxuosos e depois de um tempo sentiu que uma grande paixão o consumia pela garota e ela também sentia isso, ele a pediu em casamento como era comum nos tempos antigos, casaram-se e foram morar no hotel do qual ele era dono, viveram felizes por muito tempo, então um dia ao entrar no seu quarto procurando pela esposa, o jovem a encontra morta e ensanguentada no chão, ele fica colérico e com uma dor insuportável, após tempos de busca encontra o assassino da sua amada e descobre que o assassino se apaixonara por ela e por não aguentar a agonia a mata, ele por sua vez enlouquece e se mata apara procurar o espírito de sua esposa, seu espírito vaga por hotéis matando jovens para encontrar a alma da sua amada que a loucura o fez acreditar esta em outro corpo, assim nasce à lenda do coletor de almas."

E se fosse assim? Estaria morrendo por uma loucura? Lutando com um espírito? Não, claro que não bobagens infantis, deve ter sido um acidente a morte daquela mulher e aquele vulto indo para seu quarto deveria ser apenas um camareiro, as 03h30min da manhã? Sim, por que não? Por que ela sabia que não era uma bobagem infantil, que era real e se assim o fosse não iria adiantar ficar trancada num banheiro ele encontrá-la-ia de qualquer forma, no entanto não saiu de lá e adormeceu, sem esperanças de ver o clarear do dia.

Mas amanheceu e ela acordou com alguém chamando Lucy, Lucy numa voz calma e melodiosa havia apenas o ruído dos passos no corredor e mais nada nem de vento, nem de grilos um silencio sobrenatural, mas quem era Lucy? Não procurava a ela, pois seu nome era Betty, com medo se encolheu e fechou os olhos, ouvi o girar da maçaneta, o abrir da porta e senti uma mão suave e fria levantando meu rosto, uma voz doce dizendo, "oh querida enfim a encontrei, voltaremos para casa juntos", lábios pétreos contra minha boca, e ao abri os olhos, fitei lindos olhos azuis como um mar num dia de verão e senti tudo se apagar, de forma gradual, virou-me e viu meu corpo sem vida no chão, segui aquele lindo estranho incorpóreo e a minha volta vi vários outras formas incorpóreas, vagando num hotel abandonado, uma luz clara e forte penetrou o lugar e todos fomos para a paz, eu e meu amado desconhecido e todas as outras almas errantes. Estava acabada a busca.

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