A Garganta da Serpente
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Beth

(Luiz Lyrio)

- O senhor se importa que eu me sente aqui? É que o restaurante está lotado e...

- Bom... Não fosse um pequeno, mas importante detalhe, eu não teria nada contra o senhor se sentar aqui. Aliás, nesses restaurantes fuleiros que servem prato feito é muito comum pessoas desconhecidas dividirem a mesma mesa para almoçar, mas, como o senhor mesmo pode ver, esta mesa tem dois lugares e ambos estão ocupados...

- Mas, meu senhor, a cadeira ao seu lado está vaga!

- Como, vaga?! O senhor não vê que a Beth está sentada aqui?

- Não. Não estou vendo ninguém sentado aí. Só estou vendo uma cadeira vazia.

- Cadeira vazia!... Viu, Elisabeth, este beócio diz que sua cadeira está vazia! É como eu sempre te digo, é incrível como as pessoas não respeitam os mortos! A pessoa vive, faz mil coisas, deixa sua marca no mundo, faz um bocado de gente feliz com o simples fato de existir e, depois que morre, as pessoas nem as veem mais, nem percebem mais sua presença...

- O senhor me desculpe, mas com quem o senhor está falando?

- Com a Beth, imbecil! Escute, deixe de ser cínico e me diga, o senhor está sendo sincero dizendo que não vê a Beth ou está alegando não vê-la apenas pra arranjar uma desculpa para ocupar o lugar dela?

- Realmente, eu não estou vendo ninguém, meu senhor. Mas agora estou curioso. Quem é essa Beth?

- Quem é a Beth? A Beth é a mulher mais maravilhosa que já foi viva neste mundo! Teoricamente, não era pra ela estar aqui, porque ela desencarnou há dois anos. Mas o amor da Beth por mim era muito grande e, apesar dela ter prometido no altar que ficaria comigo só até que a morte nos separasse, mesmo depois que ela deixou seu corpo físico, ela continuou comigo. Nos amamos muito, sabe? E sei que é até egoísmo da minha parte, já que deveria deixá-la seguir seu caminho, mas ela insiste em ficar e...

- Meu senhor, o senhor é um maluco! Primeiro, não existe vida após a morte. Segundo, se existisse, nenhum morto ficaria acompanhando um vivo por aí. Terceiro, se a tal Beth estivesse aqui, eu também a veria. Assim sendo, o senhor vai me desculpar, mas o restaurante está cheio, meu estômago está vazio, eu estou com uma bruta fome, tem uma cadeira vaga ao seu lado e eu vou me sentar nela!

- Não, Beth! Não faça isso! Não dê seu lugar para este idiota! Ele não sabe o que diz! Beth! Pronto, agora ela se foi! E o pior é que deve estar me culpando por não ter sido mais duro e convincente com o senhor! Quando ela fica assim, aborrecida, custa pra voltar. Da última vez que ela se chateou, tive que procurar um médium pra trazê-la de volta... Mas, agora, já que o senhor se sentou, vou contar-lhe a nossa história.

- Bom, se não há outra opção... Conte sua história!

- Nosso amor foi uma amor como qualquer outro. Nos conhecemos, namoramos um tempo e depois nos casamos. Beth já tinha casado uma vez. Foi com um cafajeste que vivia na noite. Boêmio inveterado, imagine o senhor que o calhorda passou AIDS para a pobre da Beth. E ela só foi descobrir o fato dois anos depois que estávamos juntos, quando se internou em estado grave no hospital com uma pneumonia que lhe tirou a vida.

- Quer dizer que... a tal Beth era aidética?

- E não teve a mínima chance de se tratar, a coitadinha. Morreu como um passarinho, nos meus braços, dizendo que ia estar para sempre ao meu lado e pedindo pra eu me cuidar...

- E o senhor... ficou aidético também?

- Sim. Eu sou aidético. Mas eu tive mais sorte que minha amada. Eu me cuido, tomo meus remédios direitinho e vou vivendo... Mas porque o senhor está se levantando? Espere! Aonde o senhor vai? Depois de tomar o lugar da Beth, o senhor ainda vai me deixar almoçando sozinho? Senhor volte aqui!... Não adianta. O cara a se foi. Além de incrédulo, o beócio é preconceituoso! Ainda bem... Beth, venha querida! Como todos os outros, o imbecil se foi quando ouviu nossa história. Eu sei que você está escondida atrás dessa pilastra. Pode voltar, linda! Pode voltar e ocupar a sua cadeira...

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