A Garganta da Serpente
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Marcas de batom

(Luiz Lyrio)

Entrou no banheiro e tirou o paletó e a camisa. Tirou o batom do bolso da calça, passou-o na boca e beijou a camisa na gola duas vezes, deixando nela as marcas de seus lábios bem visíveis. Depois, lavou os lábios, vestiu novamente a camisa, colocou o paletó e saiu do banheiro. Despediu-se dos colegas e foi direto para casa.

Chegando em casa, tirou o paletó e jogou-se no sofá, fingindo assistir o MG TV. A esposa não teve como deixar de ver aquelas duas manchas de batom na gola da camisa dele. Com o indicador duro como um bilau em noite festiva, apontou para a gola dele e perguntou encolerizada:

- O que é isto na sua camisa, seu, seu, seu... chifrador de mulher honesta?!

- Isto o que?! - perguntou ele, fazendo-se de besta.

- Isto!! - Ela agarrou a gola da camisa e quase a esfregou no nariz dele.

Ele levantou-se, dirigindo-se ao banheiro, fingindo que ia verificar o que tinha na sua camisa, enquanto ela, pisando duro, ia atrás dele perguntando se ele não tinha vergonha na cara.

- Ah!... Essas marcas de batom? Deve ter sido no ônibus...

- Ônibus? Que ônibus, seu cafajeste? Você foi e voltou do trabalho de carro!...

- Não! Claro! Que ônibus! O cansaço faz coisas... Foi no elevador.

- Que elevador, canalha! Seu escritório é no primeiro andar e você sempre sobe e desce de escada porque acha que faz bem à saúde!

- É que eu torci o pé - começou a mancar de repente - e hoje subi e desci de elevador. Aí, uma moça tropeçou e caiu em cima de mim. Nessa hora, ela deve ter esbarrado a boca no meu colarinho...

- Mas, duas vezes, calhorda?!

- É que ela tentou se levantar e perdeu o equilíbrio e esbarrou a boca de novo. - Fingiu-se de ofendido. - E se não for isso, o que pode ter sido?

- Ainda pergunta?! Ô cara de pau!

- Olha aqui, até agora eu ouvi todas as suas ofensas calado, mas agora eu me queimei! Eu trabalho feito um cão, dou um duro desgraçado pra sustentar esta casa, e você vem insinuar coisas sobre mim que não aconteceram?! Não tolero injustiça!

- Mas é um cínico mesmo!...

- E depois, tem mais. No trabalho, eu sou um santo. Nem olho para as mulheres de lá. Meus colegas até acham que sou bicha! Por que você acha que de "Gê"- chamava-se Geraldo - meu apelido evoluiu para "Gê Magazine"? É que o pessoal até pensa que eu sou boiola!

- Não adianta fazer piada, seu engraçadinho! E quem disse que você não pode estar transando com uma lésbica, heim? Vai, vai logo falando, quem foi a débil mental... Sim, porque para ficar com você só pode ser uma débil mental. Quem foi a débil mental que fez essas marcas aí?

- Olha, agora eu me enchi. - Geraldo correu até o quarto, tirou a camisa e vestiu outra.

- Vou dar uma saída, espairecer um pouco e dar um tempo pra você esfriar a cabeça...

- Vai, vai desgraçado, vai pros braços da infeliz! Vai, mas...

- Ele não deu tempo para ela terminar a frase. Saiu batendo a porta com força. Na rua, pegou o celular e ligou para o Ronaldo:

- Alô, Ronaldão, deu tudo certo. Tô pronto. E as gatas?

- Já estão comigo. A gente se encontra às oito, no Tulipão.

- Tudo bem. No Tulipão às oito.

Geraldo teve uma noite e tanto. Enquanto isto, sua mulher, em prantos, não conseguia se concentrar em nada. Tentou ver TV, ouvir rádio, ler, e nada. Só pensava no desgraçado do Gê, que, coitado, podia ser inocente. E se a história dele fosse verdadeira? E se ele, pobrezinho, estivesse sendo acusado injustamente? Que insegurança a dela! Dez anos de casados e ele nunca lhe dera um motivozinho, por menor que fosse, para ela duvidar dele. Ela sim, insegura e filha única mimada pelo pai, iniciara brigas homéricas em que o coitadinho, no final, provava sempre ter razão e ter sido injustiçado. Será que, desta vez, ela não tinha exagerado? Coitado!...

Geraldo dançou, bebeu todas e, quando deu duas horas da madrugada, após despedir-se da Margô, uma gata de olhos verdes e seios enormes entrou no carro, pegou o celular e discou para casa:

- Alô. - Ela atendeu com a voz firme. Não tinha conseguido dormir.

- Sou eu.

- É você benzinho? Tava preocupada...

- Queria saber se podia voltar pra casa. Tava enchendo a cara num copo sujo. Num guento mais...

- Claro que pode, meu bem. Vem logo. Aqui a gente conversa...

Quando ele chegou em casa, ela abraçou-o, beijou-o, tirou seus sapatos, suas meias, sua calça e sua camisa e colocou-o na cama só de cuecas. Quando foi guardar suas roupas no cesto de roupa suja, sentiu um perfume estranho em sua camisa. Bobagem! Impressão minha! - pensou. Lá vinha ela, com sua insegurança, querendo começar tudo de novo...

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